
Crédito, Fish+Bear Pictures
- Author, Helen Bushby
- Role, Repórter de cultura, BBC News
Dizer que, na China, as mulheres são minoria seria eufemismo.
Com impressionantes 30 milhões de homens a mais do que mulheres, a China — um dos países mais populosos do mundo — tem uma enxurrada de homens solteiros.
A probabilidade de que eles encontrem uma namorada é pequena, que dirá uma esposa. E muitos se sentem pressionados por esta situação.
Para piorar o quadro, encontrar alguém é ainda mais difícil se você for de uma classe social mais baixa, segundo o coach de namoro chinês Hao.
Podemos observar este fenômeno em detalhes no documentário The Dating Game (2025), da diretora Violet Du Feng. Nele, podemos observar Hao e três dos seus clientes por uma semana, em um curso de namoro.
Todos eles, incluindo Hao, têm origens pobres na zona rural. Eles são da geração que cresceu na China após os anos 1990, quando muitos pais deixaram seus filhos com familiares e foram trabalhar nas cidades.
Os membros daquela geração, agora, são adultos e eles próprios vão para as cidades, tentar encontrar uma esposa e subir na escala social.
Política dos anos 1980
Du Feng mora nos Estados Unidos. O objetivo do seu filme é mostrar como é a vida das gerações mais jovens no seu país natal.
“Em uma época em que a desigualdade de gênero é tão extrema, particularmente na China, [o documentário] destaca como podemos superar essa divisão e criar diálogo”, declarou ela à BBC.

Crédito, Fish+Bear Pictures
Os três clientes de Hao mostrados pelo documentário (Li, de 24; Wu, de 27; e Zhou, de 36 anos) enfrentam as dificuldades criadas pela política chinesa do filho único.
Esta política foi implementada pelo governo chinês em 1980, quando a população do país se aproximava de um bilhão de habitantes. Havia o receio de que o excesso de habitantes prejudicaria o crescimento econômico da China.
Mas a tradicional preferência por filhos homens levou ao abandono de muitas meninas, que eram colocadas em orfanatos, sofriam abortos seletivos ou até o infanticídio feminino. O resultado é o enorme desequilíbrio de gênero que existe atualmente no país.
‘História universal’
Wu, Li e Zhou querem que Hao os ajude a encontrar, pelo menos, uma namorada.
Eles encontram no coach alguém em quem podem se inspirar. Hao já conseguiu encontrar uma esposa, Wen, que também é coach de relacionamentos.
Os três homens permitem que Hao prepare seus penteados e maquiagem, enquanto descreve suas “técnicas” questionáveis para atrair mulheres, online e pessoalmente.

Crédito, Fish+Bear Pictures
Todos eles dão o seu melhor, mas nem tudo sai conforme o planejado.
Hao constrói uma imagem online para cada um dos homens, mas ultrapassa alguns limites ao descrever os participantes. Para Zhou, aquilo parece “fake”.
“Eu me sinto mal por enganar as pessoas”, ele conta, claramente desconfortável ao ser retratado fora da sua realidade.
Du Feng acredita que esta questão é mais ampla.
“É uma história característica da China, mas também é uma história universal de como, neste cenário digital, todos nós enfrentamos o preço de sermos fake no mundo online e, depois, o custo que precisamos pagar para sermos honestos e autênticos”, explica ela.
Hao talvez seja um dos “coaches de namoro mais populares” da China, mas o documentário mostra sua esposa questionando alguns dos seus métodos.
Inabalável, ele manda seus protegidos encontrarem mulheres, borrifando desodorante nas suas axilas e anunciando: “Está na hora do show!”
Os três homens precisam encontrar possíveis namoradas em um shopping center lotado, à noite, em Chongqing, no sudoeste da China — uma das maiores cidades do país.
Chega a ser desolador observá-los pedindo às mulheres que se conectem com eles pelo aplicativo de mensagens WeChat. Mas a experiência os ensina a buscar sua confiança interior que, até então, era invisível.

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Zheng Mu, do Departamento de Sociologia da Universidade Nacional de Singapura, contou à BBC como a pressão para se casar pode repercutir entre os homens solteiros.
“Na China, geralmente ainda se espera do homem que ele se case, ou tenha a possibilidade social e financeira de se casar como principal provedor”, afirma ela.
“Por isso, a dificuldade para ser considerado apto para o casamento pode ser um estigma social, que indica que eles não são capazes e merecedores daquele papel, gerando grandes pressões e desgastes mentais.”
Zhou fica desanimado com o custo dos encontros, que incluem o pagamento de casamenteiros, jantares e novas roupas.
“Ganho apenas US$ 600 [cerca de R$ 3,2 mil] por mês”, ele conta, destacando que um encontro custa cerca de US$ 300 (cerca de R$ 1,6 mil).
“No fim, a sociedade determina o nosso destino”, destaca Zhou, ao decidir que precisa “construir meu status”.
Du Feng explica que “esta é uma geração em que muitos desses homens que não conseguem uma parceira são definidos como fracassados, devido à sua posição econômica”.
“Eles são considerados a parte inferior da sociedade, a classe trabalhadora e o casamento, de alguma forma, é outro indicador de que eles podem ter sucesso.”
Ficamos sabendo que uma forma para os homens chineses “romperem as classes sociais” é entrar para o exército. Podemos observar no filme um grande evento de recrutamento.
‘Namorados virtuais’
Curiosamente, o filme não mostra como é a vida dos homens gay na China.
Du Feng concorda que a sociedade chinesa é menos receptiva para os homens gay. E Mu destaca que “na China, a heteronormatividade, em grande parte, é dominante”.
“Por isso, espera-se que os homens se casem com mulheres para atender aos padrões”, segundo ela, “para sustentar o núcleo familiar e transformá-lo em famílias maiores, tendo filhos.”

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A tecnologia também está presente no documentário, que examina a popularidade cada vez maior dos namorados virtuais. Mais de 10 milhões de mulheres na China adotaram os jogos de namoro online, segundo o filme.
Conseguimos observar um namorado virtual em ação. Ele é compreensivo, pouco exigente e inegavelmente bonito.
Uma mulher afirma que namorar na vida real custa “tempo, dinheiro e energia emocional”. É muito cansativo.
Ela destaca que “os homens virtuais são diferentes. Eles têm ótimos temperamentos, são simplesmente perfeitos.”
Mu considera que esta tendência “indica problemas sociais” na China. Ela menciona “longas horas de trabalho, cultura profissional ambiciosa e ambiente competitivo, além das arraigadas expectativas de papéis de gênero”.
Para ela, “os namorados virtuais, cujo comportamento pode ser mais alinhado aos ideais esperados pelas mulheres, podem ser uma solução para que elas realizem seu imaginário amoroso”.
‘Solteiro a longo prazo’
Du Feng destaca que “o que se indica universalmente é que as mulheres que têm namorados virtuais acham que os homens chineses não são emocionalmente estáveis”.
Seu filme mergulha no histórico de vida dos jovens, incluindo seus relacionamentos muitas vezes fraturados com seus pais e suas famílias.
“Estes homens vêm destas situações e existe muita pressão negativa sobre eles”, explica ela. “Como podemos esperar que eles sejam emocionalmente estáveis?”

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A agência Reuters noticiou em 2024 que “permanecer solteiro a longo prazo, gradualmente, está se tornando mais comum na China”.
“Estou preocupada com a forma como nos conectamos hoje em dia, especialmente a geração mais jovem”, afirma Du Feng.
“O namoro é apenas um instrumento para podermos falar a este respeito, mas estou realmente preocupada. Meu filme mostra como vivemos nesta epidemia de solidão, com todos nós tentando encontrar conexões uns com os outros.”
O documentário tem muitos momentos engraçados, mas, no final, vemos todos os homens em uma jornada de autodescoberta um pouco mais realista, incluindo Hao.
“Acho que ele mostra o calor humano que eles encontram entre si, sabendo que esta é uma crise coletiva, que todos estão enfrentando, e como eles ainda encontram esperança”, reflete Du Feng.
“Para eles, é mais questão de se encontrarem e de conhecer alguém que possa dar um tapinha nas suas costas, dizendo ‘entendo você e existe uma forma de você conseguir’.”
Para Allan Hunter, do portal Screen Daily, o filme é “sustentado pela humanidade encontrada por Du Feng em cada um dos indivíduos que ela nos apresenta e nos faz compreender um pouco melhor”. Ele destaca que o documentário, “em última análise, celebra a virtude de ser verdadeiro consigo mesmo”.
Hao conclui que “quando você gosta de si próprio, é mais fácil fazer as mulheres gostarem de você”.
The Dating Game será lançado em cinemas selecionados no Reino Unido no outono do hemisfério norte. A reportagem não encontrou previsão de lançamento do filme no Brasil.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL