O consultório de cirurgia plástica deixou de ser um tabu no mundo esportivo. Na rotina de quem lida com sobrecarga muscular e movimentos repetitivos, o planejamento cirúrgico deve priorizar a biomecânica tanto quanto a harmonia visual.
Essa convergência mostra que a medicina esportiva e a plástica, antes em mundos opostos, finalmente trabalham juntas, transformando o bisturi em ferramenta de suporte ao rendimento.
O corpo de um atleta não aceita fórmulas prontas; ele exige uma análise de precisão quase matemática. Para quem vive do esporte, o corpo é sua ferramenta de trabalho, e qualquer alteração pode impactar a biomecânica do movimento.
Estamos falando de um cenário em que milímetros na posição de um implante ou a preservação de uma fáscia muscular podem fazer a diferença entre manter um tempo recorde ou enfrentar uma queda de rendimento. O planejamento cirúrgico deixa de ser puramente visual para se tornar estratégico.
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O desafio do corpo levado ao limite
A demanda especializada surge porque a busca pela excelência atlética muitas vezes gera marcas que o treino não consegue resolver. É o caso do “rosto de maratonista”, em que a perda severa de gordura facial confere um aspecto precocemente envelhecido, ou das atletas que lidam com a diástase abdominal pós-gestação, que compromete a estabilidade do core.
Mesmo no fisiculturismo ou em esportes de peso, o excesso de pele após grandes oscilações torna-se um obstáculo. Nesses cenários, a cirurgia atua como aliada da fisiologia, restaurando a integridade estrutural para que o foco volte a ser exclusivamente o rendimento.
Dentre todos os desafios, a mamoplastia de aumento se destaca e talvez seja o mais complexo do ponto de vista estratégico. O alto rendimento impõe um preço: a perda drástica de gordura mamária e as variações de peso comuns ao ciclo de treinos podem suprimir a silhueta feminina.
Engenharia cirúrgica para a prótese de silicone
Na mamoplastia para atletas, a pergunta “por onde colocar a prótese?” ganha uma camada extra de complexidade. Não existe uma única resposta, e sim uma escolha baseada na modalidade praticada.
Atletas que utilizam a musculatura peitoral de forma explosiva ou repetitiva, como praticantes de crossfit, jiu-jitsu ou tenistas, podem sofrer com o desconforto ou a “deformidade dinâmica” se o implante for colocado totalmente atrás do músculo.
Nesses casos, técnicas como o plano subfascial ou o Dual Plane (em que apenas a parte superior do implante fica sob o músculo) oferecem o equilíbrio ideal.
Elas garantem um colo bem marcado e naturalidade, sem comprometer a integridade da fibra muscular ou a força de tração. O objetivo é que a prótese acompanhe o movimento do corpo, e não que se torne um obstáculo para ele.
O mito da perda de força
Um estudo publicado no Aesthetic Surgery Journal avaliou mulheres atletas submetidas à mamoplastia de aumento e observou alta taxa de satisfação estética e funcional, sem prejuízo significativo da força muscular após o procedimento.
Esses dados reforçam algo que observo na prática: quando bem indicada e corretamente planejada, a cirurgia não compromete o desempenho físico. A ciência comprova que a força não precisa ser sacrificada em nome da autoestima.
Essas evidências ajudam a desconstruir a ideia de que a cirurgia plástica interfere negativamente na prática esportiva. É comum atender atletas que relatam perda de volume mamário, assimetrias ou desconforto estético após anos de treino.
Na maioria dos casos, o objetivo não é melhorar a performance, mas restaurar a harmonia corporal e o bem-estar com a própria imagem.
O “pit stop”
Tão importante quanto o bisturi é o calendário. O retorno aos treinos precisa ser gradual e acompanhado, respeitando o tempo biológico de cicatrização e a integração dos tecidos. Sempre que possível, o acompanhamento multidisciplinar com fisioterapeutas esportivos garante que a transição do repouso para a alta performance seja segura.
A cirurgia plástica moderna para o atleta não busca apenas a forma perfeita, mas a harmonia entre o orgulho de quem se olha no espelho e a potência de quem vence desafios.
*Raphael Alcalde, cirurgião plástico, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

Fonte.:Saúde Abril


