A ação militar dos Estados Unidos na Venezuela deve pautar o mercado financeiro nesta segunda-feira (5), com impacto mais forte em petroleiras, já que o país sul-americano detém as maiores reservas de óleo no mundo, afirmam especialistas.
Os efeitos no preço da commodity, porém, foram atenuados pela decisão da Opep+ — o grupo de países exportadores de petróleo — em manter a produção estável. A reunião deste domingo (4) já estava agendada antes da captura do líder venezuelano, Nicolás Maduro, pelas forças norte-americanas.
Para Hulisses Dias, sócio da Beginity Capital, ações de petroleiras, como Petrobras, Prio e PetroReconcavo, devem abrir em queda nas negociações deste início de semana, em linha com ações do mercado saudita.
“Os investidores devem ficar de olho no preço da commodity petróleo e como empresas como Petrobras e PetroRio vão se comportar”, diz.
Apesar da pressão sobre as empresas expostas ao petróleo, Dias afirma que o Ibovespa deve passar ao largo da crise, mais focado em fatores que impulsionaram o índice nas últimas sessões, como a expectativa pelo corte dos juros.
Fábio Lemos, sócio da Fatorial Investimentos, aponta para a mesma direção de perda para as petroleiras, apesar de enxergar um cenário ambíguo, sobretudo com a manifestação da China em favor da liberação de Maduro, ampliando ainda mais as tenções geopolíticas.
Para as petroleiras no Ibovespa a tensão China-EUA sobre a Venezuela cria uma “tempestade perfeita”: o risco de guerra eleva o petróleo no curto prazo, mas a perspectiva de os EUA controlarem a maior reserva do mundo pressiona os preços para baixo no longo prazo.
“A China exigindo a soltura de Maduro sinaliza que Pequim não aceitará passivamente o domínio americano sobre o óleo vizinho, o que pode gerar sanções cruzadas afetando as exportações brasileiras”, diz Lemos.
Com isso, no Ibovespa, investidores tendem a realizar lucros em petroleiras juniores, migrando para a Petrobras por sua resiliência e capacidade de refino frente à volatilidade do Brent.
“O essencial é entender que o mercado agora precifica a Venezuela como uma nova fronteira de oferta, o que retira o prêmio de escassez que favorecia o Brasil”, ressaltou.
O real, que na primeira sessão de 2026 teve o melhor desempenho contra o dólar no mundo, também não deve sofrer grandes mudanças, com a manutenção do enfraquecimento da moeda norte-americana, diz Dias, da Beginity.
“O dólar deve continuar em queda em relação ao real, pois o diferencial de juros entre Brasil e EUA continua muito alto”.
Escalada dos riscos geopolíticos
A ação norte-americana aumenta o risco geopolítico ao chocar diretamente com o mercado de petróleo, impulsionando investidores em buscar segurança até que a situação seja mais esclarecida, apontam analistas.
O presidente Donald Trump afirmou que os EUA assumiriam o controle da nação produtora de petróleo, enquanto Maduro, a quem os EUA acusam repetidamente de comandar um “narcoestado” e fraudar eleições.
“Os eventos são um lembrete de que as tensões geopolíticas continuam a dominar as manchetes e a influenciar os mercados”, disse Marchel Alexandrovich, economista da Saltmarsh Economics.
“É evidente que os mercados estão tendo que lidar com um risco de manchete significativamente maior do que estavam acostumados sob as administrações americanas anteriores.”
Mohamed El-Erian, ex-CEO da gigante de fundos de renda fixa PIMCO, afirmou em uma publicação no X que a reação econômica e financeira ao ataque de Maduro ainda não estava clara.
“Provavelmente teríamos visto uma dissociação imediata entre os preços do petróleo (que cairiam devido à perspectiva de aumento das exportações venezuelanas, dependendo da sucessão de liderança no país) e os do ouro (que subiriam devido à busca por ativos de refúgio em meio à crescente incerteza), caso os mercados estivessem abertos”, escreveu ele.
Stephen Dover, estrategista-chefe de mercado e diretor do Instituto Franklin Templeton, afirmou em uma publicação no LinkedIn que o governo dos EUA demonstrou disposição para agir unilateralmente e usar a força, o que poderia reforçar a tendência de países gastarem mais em sua própria segurança nacional.
Ele disse que isso provavelmente também aumentará a incerteza sobre o papel do dólar como porto seguro, “ao mesmo tempo que levanta novas questões sobre a deterioração dos pilares institucionais internacionais”.
*Com Estadão Conteúdo e Reuters
Fonte: CNN Brasil


