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18 de janeiro de 2026

Com caso Master, repúdio a abusos do STF rompe bolha direitista

Com caso Master, repúdio a abusos do STF rompe bolha direitista

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Pela primeira vez em anos, com o caso do Banco Master, críticas a abusos de poder do Supremo Tribunal Federal (STF) estão rompendo a bolha direitista e ecoando de forma menos tímida em setores da esquerda, do mercado financeiro e da grande imprensa. A tendência quebra uma lógica que vinha prevalecendo desde 2019: a de relativizar a gravidade da expansão dos poderes do tribunal como algo aceitável sob o argumento de defesa da democracia.

A mudança ocorre após revelações recentes de que os superpoderes do STF estariam sendo usados não só para conter a direita, mas também para favorecer pessoalmente os próprios ministros. Toffoli trouxe o caso do Banco Master para o STF e impôs sigilo máximo dias depois de, em novembro, viajar ao Peru em jato privado com um advogado de investigado. A controvérsia se agravou com a revelação do contrato de R$ 129 milhões entre o banco e a esposa de Alexandre de Moraes e com a decisão de Toffoli de retirar da Polícia Federal a guarda das provas apreendidas.

A reação aos abusos envolve até parlamentares de esquerda, que, mesmo sem mencionar diretamente ministros do STF, assinaram pedidos de investigação. Entidades do sistema financeiro, tradicionalmente silenciosas diante de controvérsias do Judiciário, divulgaram nota pública criticando interferências no Banco Central. Analistas e formadores de opinião de esquerda têm quebrado o padrão de defesa automática ao STF, e veículos da imprensa que confrontavam timidamente o Supremo publicaram editoriais mais severos.

No fim de dezembro, o jornalista Breno Altman, fundador do site esquerdista Opera Mundi, fez uma postagem no X criticando aqueles que ainda se negavam a levantar a voz contra ministros. “Constrangedor o efeito manada, entre alguns círculos de esquerda, para defender incondicionalmente o ministro Alexandre de Moraes”, escreveu. “Claro que a ele deve ser assegurada presunção de inocência, mas as suspeitas de atuação em favor do Banco Master precisam ser rigorosamente apuradas.” Parte da esquerda respondeu com críticas, mas outra parcela concordou.

A colunista Míriam Leitão, do jornal O Globo, foi outra figura que destoou do seu padrão habitual em relação aos atos de Moraes. Em dezembro, ela afirmou que o contrato de Viviane Barci de Moraes com o Master “jamais poderia ter sido assinado”. Leitão tem histórico de defesa radical das medidas de ministros do STF contra a direita.

Outra defensora habitual dos ministros, a colunista Eliane Cantanhêde disse no Estado de S. Paulo que há “boas razões para perplexidade e desaprovação” em relação ao Supremo. “O que se esperava é que os ministros desmentissem ou explicassem essas relações, não que fossem investigar, em sigilo, e usando o próprio Supremo, quem contou tudo”, afirmou na quinta-feira (15).

Mercado financeiro, grande imprensa e parlamentares esquerdistas começam a reagir contra abusos do STF

Outro movimento surpreendente veio de quatro das principais entidades representantes do setor financeiro – Febraban (Federação Brasileira de Bancos), ABBC (Associação Brasileira de Bancos), Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financziamento e Investimento) e Zetta –, que no fim de dezembro publicaram uma nota conjunta com sugestões quase evidentes de referência ao STF.

O texto critica a “ingerência de terceiros” no processo de liquidação e investigação do Banco Master. A classe tem histórico recente de relação amigável com Toffoli e outros ministros do Supremo. Em outubro de 2024, por exemplo, a Confederação Nacional das Instituições Financeiras promoveu jantar de homenagem a Toffoli no Lago Sul, em Brasília. A entidade, presidida pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (PSDB-RJ), tem as quatro signatárias da nota como associadas.

Em grandes veículos de imprensa da esquerda, a situação também mudou. Críticas ao STF costumavam ser amortecidas com a ressalva de que os ministros teriam exercido um papel importante na defesa da democracia. Agora, o tom sobre os abusos do tribunal é menos ponderado.

A Folha de S.Paulo, em editorial de 23 de dezembro, tratou os casos de Moraes e Toffoli como exemplos de “um pacto de autoproteção entre poderosos”. “O objetivo, correto, de combater abusos da Lava Jato e congêneres levou a um mal maior – um estímulo à corrupção com uma redoma indevassável de impunidade”, disse o jornal.

O Estadão publicou dois editoriais nas últimas semanas apontando a ausência de competência do STF para julgar o caso do Banco Master. “É preciso tornar a dizer com todas as letras: o caso Master não é da competência do Supremo”, afirmou o veículo em 13 de janeiro.

No Legislativo, a reação alcançou até partidos da extrema-esquerda. As deputadas Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e Heloísa Helena (Rede-RJ) protocolaram pedidos de investigação sobre o caso do Banco Master, em uma convergência incomum de interesses com parlamentares da direita, como o deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e o senador Eduardo Girão (Novo-CE). Ao defender a instauração da CPMI, Heloísa Helena afirmou: “Quem for podre, que se quebre, esteja onde estiver”.

Na quinta-feira (15), o senador Fabiano Contarato (PT-ES) disse que havia assinado o requerimento para a abertura da CPMI. Embora não critique ministros do Supremo explicitamente, ele é o primeiro parlamentar do PT a pedir publicamente a investigação sobre o caso. “Esse é um escândalo de gravidades sem precedentes. À medida que as apurações avançam, deparamos com indícios cada vez mais contundentes de um esquema complexo, munido de tentáculos que já teriam alcançado as mais altas estruturas estatais, políticas e financeiras”, afirmou via X.



Fonte. Gazeta do Povo

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