Nas redes sociais, usuários aderiram a uma nova “trend” e passaram a compartilhar registros sobre suas vidas em 2016: onde moravam, com o que trabalhavam, com quem saíam e para onde viajavam. A Folha decidiu fazer o mesmo e buscar onde estavam dez anos atrás figuras políticas de relevância e ministros do Supremo Tribunal Federal.
Lula se tornava réu pela Lava Jato, Jair Bolsonaro homenageava o coronel Brilhante Ustra, Geraldo Alckmin fazia oposição ao PT, Fernando Haddad sofria derrota eleitoral, Alexandre de Moraes era criticado pela esquerda e explicava pagamentos para a sua firma de advocacia, Michelle Bolsonaro fazia campanha pelo marido e Simone Tebet votava a favor do impeachment de Dilma Rousseff.
Algumas coisas mudaram, outras nem tanto.
Em março de 2016, o então juiz Sergio Moro determinou à Polícia Federal que levasse Lula para depor por meio de uma condução coercitiva. Em julho, o petista se tornou réu no âmbito da Operação Lava Jato, acusado de ter impedido o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró de assinar acordo de delação premiada. Ele foi absolvido dessa acusação.
Mais tarde, no mesmo ano, Moro aceitou denúncia do MPF (Ministério Público Federal) e Lula se tornou réu sob acusação dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, além da suspeita de recebimento de propina da Odebrecht por meio da compra de imóveis em São Paulo e São Bernardo do Campo. Em 2021, todas as condenações de Lula relacionadas à Lava Jato foram anuladas pelo STF. Eleito em 2022 para a Presidência da República, disputará neste ano a reeleição para um quarto mandato.
Jair Bolsonaro ocupava o cargo de deputado federal pelo Rio de Janeiro desde 1991 e, em 2016, ganhou evidência nacional ao dedicar o voto favorável ao impeachment de Dilma Rousseff ao coronel Carlos Brilhante Ustra, torturador na ditadura militar.
À época filiado ao PSC, Bolsonaro usou sua visibilidade crescente nas redes sociais para se lançar e ser eleito para a Presidência da República dois anos depois. Condenado pelo STF em 2025 por tentativa de golpe de Estado no fim de 2022, cumpre pena atualmente na Papudinha.
Geraldo Alckmin (PSB), então no PSDB, governava São Paulo pelo segundo mandato consecutivo e já planejava concorrer à Presidência nas eleições seguintes. No início de 2016, a Polícia Civil e o Ministério Público deflagraram uma operação que trouxe à tona a máfia das merendas: um suposto esquema de corrupção que teria envolvido o governo estadual, prefeituras e deputados.
Hoje vice-presidente do governo Lula (PT), à época Alckmin era crítico do PT e defendia o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT).
Michel Temer (MDB) começou o ano de 2016 como vice-presidente do governo Dilma (PT), mas assumiu a Presidência interinamente em maio, quando o processo de impeachment da petista foi instaurado no Senado.
Naquele mês, a Folha revelou diálogos gravados nos quais o então ministro do Planejamento, Romero Jucá (MDB), sugeria ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado que uma “mudança” no governo federal resultaria em um pacto para “estancar a sangria” da Operação Lava Jato.
Em agosto, com o término do processo de impeachment, a presidência de Temer se tornou definitiva. Ao fim do ano, sua gestão era reprovada por 51% dos brasileiros, mostrava o Datafolha.
O ex-governador João Doria marcava sua estreia em uma disputa eleitoral ao concorrer à Prefeitura de São Paulo. “Eu, que nunca tinha disputado nenhum mandato eleitoral, tomei a decisão de disputar as prévias do PSDB com poucas chances de vencer, para não dizer nenhuma, e venci”, disse ele à Folha.
Doria desbancou no primeiro turno o então prefeito Fernando Haddad (PT), que tinha o apoio de Lula, a ex-prefeita Marta Suplicy, à época no MDB, e o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos). “Pela primeira vez na história eleitoral em São Paulo houve uma vitória em primeiro turno. Isso foi muito marcante na minha vida, a decisão de ir para a política, para o Executivo, disputar a eleição e ter vencido.” Recentemente, disse ter desistido da política.
Em 2016, Haddad foi derrotado na tentativa de se reeleger prefeito de São Paulo. Em julho, a gestão do petista era aprovada por 14% dos paulistanos, segundo o Datafolha. Meses depois, Haddad terminou a eleição em segundo lugar, com 16,7% dos votos, derrotado em primeiro turno pelo então tucano João Doria, que teve 53,3% dos votos.
No fim do ano, reportagem da Folha mostrava que o petista encerraria o mandato com apenas metade das propostas de campanha totalmente concluídas.
A ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia assumiu a presidência da corte pelo biênio seguinte, se tornando a segunda mulher na história a ocupar a posição. À época, reportagem da Folha relatava que a ministra pretendia marcar sua gestão como um exercício de “pacificação social”. Sua maior preocupação era a superpopulação carcerária e a situação das presas grávidas.
No fim do ano, ela alertou sobre tentativas de cerceamento do Judiciário e pediu respeito entre os Poderes.
Naquele ano, antes de sua indicação para o Supremo Tribunal Federal, Moraes se tornou ministro da Justiça do governo Temer. Recém-empossado, defendeu o combate ao crime organizado, principalmente o contrabando de armas, e disse que a atuação violenta de movimentos de esquerda deveria ser combatida. Foi alvo de protestos de estudantes da Faculdade de Direito da USP, onde já atuava como professor. Eles criticavam a atuação anterior de Moraes como secretário de Segurança de São Paulo, que consideravam repressiva.
No fim de 2016, a Operação Acrônimo, coordenada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, apreendeu documentos que indicavam o pagamento de ao menos R$ 4 milhões de uma das empresas investigadas, a JHSF Participações, para a firma de advocacia de Moraes. À época, ele afirmou à Folha que os pagamentos foram legais e que o caso já havia sido arquivado pelo ministro do STF Luiz Fux.
Registros pessoais da ex-primeira-dama no Instagram mostram manifestações de apoio à pré-candidatura do então deputado federal Jair Bolsonaro (PL) às eleições presidenciais de 2018. Michelle também aparece em fotos com as filhas Letícia Firmo e Laura Bolsonaro e com atletas dos Jogos Paralímpicos Rio 2016.
Há dez anos, a atual primeira-dama atuava como assessora de comunicação e relações institucionais da Eletrobras, antes da sua privatização, em 2022. Ela foi nomeada conselheira fiscal da CGTEE (Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica) e da CTEEP (Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista).
No mesmo ano, Janja voltou a trabalhar na Usina Hidrelétrica de Itaipu como assistente do diretor-geral, cargo que já havia ocupado na empresa anteriormente, entre 2003 e 2012.
Em 2016, Tarcísio de Freitas (Republicanos) era consultor legislativo da área de desenvolvimento urbano, trânsito e transportes na Câmara dos Deputados, cargo no qual havia ingressado no ano anterior, após deixar a direção do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), sob o governo Dilma.
Em audiência pública promovida pela CPI da Funai, em fevereiro, Tarcísio disse que o órgão federal estabelecia exigências “esdrúxulas” e adotava critérios “ideológicos” para concessão de licenças ambientais. Ainda em 2016, ele assumiu como secretário da Coordenação de Projetos da Secretaria Especial do Programa de Parceria de Investimentos (PPI), responsável pelo programa de privatizações, concessões e desestatizações do governo Temer.
O governador afirmou à Folha que o que mais o marcou em 2016 foi a realização do primeiro roadshow internacional, em Nova York, como secretário do PPI. “Ali ficou muito claro o entusiasmo dos investidores estrangeiros diante da percepção de que o Brasil havia mudado. A chave tinha virado. O país deixava uma postura claramente anti-business e passava a adotar uma agenda pró-investimento, o que gerou um interesse enorme.”
“As reuniões eram cheias, os investidores disputavam espaço para conversar com a nossa equipe e havia uma sensação muito clara de mudança de cenário. Ficava evidente que o Brasil estava entrando em uma nova fase após anos de gestão do PT”, continuou Tarcísio, que afirma ser pré-candidato à reeleição em São Paulo.
A atual ministra do Planejamento e Orçamento estava em seu primeiro mandato como senadora pelo Mato Grosso do Sul. Filiada ao MDB, votou a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Entre 2015 e 2016, presidiu a Comissão de Combate à Violência Contra a Mulher e foi membro titular das comissões de Constituição e Justiça, de Desenvolvimento Regional e de Educação.
O ano de 2016 a marcou “pela intensa e justa cobrança da sociedade por mais ética e responsabilidade na política, além da defesa de uma maior participação das mulheres nos espaços de poder”, afirma Tebet. “Também me engajei ativamente na aprovação de projetos importantes, como o Marco Legal da Primeira Infância.”
“2016 reforçou uma convicção que sempre me acompanhou: fazer política como mulher exige coragem para sustentar posições, enfrentar debates duros e defender com firmeza aquilo em que se acredita”, completou a ministra, cujo nome tem sido aventado para uma candidatura ao Governo de São Paulo ou ao Senado pelo mesmo estado.
Em 2016, Hugo Motta (Republicanos) já era deputado federal pela Paraíba, à época filiado ao MDB. Foi da base aliada do governo Michel Temer e, no mesmo ano, votou a favor da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do Teto dos Gastos Públicos. Foi candidato a líder da bancada do MDB após ter presidido a CPI da Petrobras no ano anterior, aos 25 anos, mas não se elegeu.
Há uma década, Davi Alcolumbre (União Brasil) já era senador pelo estado do Amapá e presidiu a comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo. À época filiado ao Democratas, fez parte da comissão especial que analisou a denúncia de crime de responsabilidade contra a então presidente da República Dilma Rousseff, integrando o bloco da oposição.
Fonte.:Folha de S.Paulo


