Desde que vieram a público mensagens do celular do ex-presidente Jair Bolsonaro apreendido pela Polícia Federal (PF), entidades e lideranças evangélicas passaram a se manifestar em defesa do pastor Silas Malafaia. Além de ter mensagens trocadas com Bolsonaro expostas, o religioso foi alvo de uma operação de busca e apreensão, que incluiu a retenção de seu passaporte.
No entanto, a maior parte das manifestações de lideranças evangélicas trouxe ressalvas à linguagem usada por Malafaia. Ao expressar descontentamento com a conduta de Eduardo Bolsonaro, o pastor classificou o filho do ex-presidente como “idiota” e “babaca” por “falar merda”.
O Núcleo de Pastores de Curitiba declarou em nota: “A democracia não se fortalece quando vozes são intimidadas, mas quando opiniões, ainda que firmes e incômodas, podem ser ouvidas com clareza. Os últimos atos vistos demonstram clara violação desta proteção face ao Pr. Silas Malafaia, que, apesar de sua veemência e forma, expressou em suas manifestações públicas opiniões pessoais e de livre convicção”.
Em outra nota de repúdio, produzida de forma conjunta por membros da bancada evangélica no Congresso Nacional, o tom é semelhante: “A escalada de medidas sem critérios técnicos claros, somada à divulgação de informações à imprensa antes da comunicação formal aos advogados do investigado, bem como a eventual ocorrência de vazamentos seletivos, configura prática que compromete a isonomia processual e abala a confiança no sistema de Justiça”.
Já o Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR), que mantém sedes em São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS), repudiou a inclusão de Silas Malafaia no inquérito da PF: “Não se trata mais apenas de uma investigação, mas da adoção de atos concretos de constrangimento que, além de questionáveis sob o aspecto jurídico, possuem claro potencial intimidatório. Tais medidas assumem uma gravidade ainda maior por recaírem sobre um líder religioso em razão de suas manifestações públicas – que, embora veementes, se inserem na arena das ideias e não no campo da ilegalidade.”
Apoio de lideranças influentes
Outra importante liderança evangélica, o pastor Cláudio Duarte – que lidera a igreja Ministério Projeto Recomeçar, em Duque de Caxias (RJ) e soma quase 20 milhões de seguidores nas redes sociais, também se posicionou por vídeo.
“Não é de hoje que grande parte dos posicionamentos e das decisões tomadas pelo Supremo Tribunal não está de acordo com o que entendemos como justiça. Muitas vezes não temos a coragem de nos posicionar. Pastor Silas tem feito isso. Se você gosta do pastor Silas ou não, ou de outras pessoas que têm sido veementemente perseguidas por esse sistema, isso não é relevante. O relevante é que o que acontece com eles hoje, se não nos posicionarmos, vai acontecer conosco amanhã”, disse Cláudio Duarte.
Teor parecido é adotado pelo pastor e vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana, Augustus Nicodemus Lopes. “Discordo do pastor Silas Malafaia em várias questões teológicas e também na forma como se expressa, mas o episódio recente vai além disso: trata-se da preservação de direitos fundamentais como liberdade de fé, opinião e expressão. Ser parado, ter passaporte e celular tomados, e áudios vazados não pode se tornar ‘normal’, pois não existe crime de opinião”.
Pastor reconhece perseguição a Silas Malafaia, mas critica “tom agressivo”
Várias das notas de apoio ao pastor mencionam, ainda que indiretamente, o tom das mensagens de Malafaia. De fato, nos bastidores do meio evangélico há um desconforto quanto ao teor dos áudios compartilhados pela PF. A reportagem entrou em contato com várias outras lideranças e entidades evangélicas. A maioria não respondeu aos pedidos de entrevista.
À reportagem, o pastor e deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), candidato derrotado à presidência da Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional neste ano, criticou o “tom agressivo” das mensagens.
“Só se surpreende com os áudios do pastor Malafaia quem não o conhece. Eu mesmo já fui vítima de áudios dele, muito agressivos e ameaçadores. A questão é que quando o linguajar se torna público, um líder religioso deveria pedir desculpas. Ele demorou para fazê-lo”, diz Otoni de Paula.
De fato, no dia 23, três dias após a divulgação das mensagens, Malafaia se manifestou em vídeo: “É verdade que de vez em quando eu falo palavras indevidas. Até palavrão. E aí eu erro. Aqueles que ficaram escandalizados com minhas palavras, me perdoem”.
De Paula critica a atitude do pastor, de se posicionaar como uma liderança religiosa perseguida. “Ele nunca foi um porta-voz de toda a comunidade. Já usou o programa de TV dele para falar mal de outros pastores, de irmãos na fé”. E aponta para o que, em sua análise, é o risco de ampliar a perseguição contra os evangélicos.
“Eu reconheço que está havendo uma perseguição contra o pastor Silas Malafaia. Ele está sendo atacado na sua liberdade de expressão. Há um ataque contra o cidadão, o político sem mandato Silas Malafaia. Mas não há uma perseguição contra a igreja do Silas. O Silas está transformando pastores em ativistas políticos como ele”.
A consequência pode ser negativa para toda a comunidade, ele argumenta. “A minha preocupação é que nós temos um governo de esquerda, e sabemos a opinião desse governo sobre as igrejas. Se esse governo se aliança com o Supremo Tribunal Federal para perseguir pastores por que eles se posicionaram ao lado de Malafaia, onde isso vai parar?”, questiona.
“Faltou postura ética pastoral”
Em anonimato, um pastor comentou a postura e as acusações contra Malafaia. “A postura ética pastoral dele não é uma conduta a ser imitada. Por mais que alguns considerem alguns termos chulos como força de expressão, acredito que, se somos imitadores de Cristo, precisamos ter uma postura mais mansa e humilde, que o mundo olhe para a gente e enxergue a Cristo.”
Do ponto de vista jurídico e político, ele considera que Malafaia não cometeu crimes. “O que aconteceu é um ataque à democracia. Acho muito perigoso, porque uma vez que você censura um político, agora um pastor, amanhã ou depois sou eu, pode ser você. A censura não tem limites”.
Fonte. Gazeta do Povo