
Crédito, EPA
- Author, Gerardo Lissardy
- Role, BBC News Mundo
Published
Tempo de leitura: 7 min
A prisão perpétua de Ismael “El Mayo” Zambada, decretada nos Estados Unidos nesta segunda-feira (20/7), representa muito mais do que a forma como termina a trajetória de um dos maiores traficantes da história: ela também marca o fim de um capítulo único na história do narcotráfico no México.
Zambada, assim como o outro cofundador do Cartel de Sinaloa, Joaquín “El Chapo” Guzmán, personifica a figura do líder do narcotráfico mexicano que, por décadas, exerceu um poder quase absoluto por meio da violência e do dinheiro, com uma astúcia que impressionou o mundo.
Em 2025, quando “El Mayo” respondia às acusações de tráfico de drogas nos EUA, ele mesmo contou a autoridades americanas que começou a cultivar maconha nas montanhas de Sinaloa em 1969, ao lado de um amigo. Tinha 19 anos.
Eles escondiam as plantações ilegais entre fileiras de milho. Embora a primeira colheita tenha rendido menos do que esperavam, os 27 quilos de maconha vendidos por cerca de US$ 400 marcaram o início de sua trajetória no narcotráfico, segundo um documento apresentado por sua defesa neste mês.
Com o crescimento de sua atuação no crime, Zambada passou a controlar as rotas de cocaína da América do Sul para os Estados Unidos e, ao lado de Guzmán, liderou o que as autoridades americanas definiram como “a maior organização de tráfico de drogas do mundo”.
Mas, após sua controversa captura em 2024 e sua admissão de culpa, o septuagenário foi condenado à prisão perpétua pelo juiz federal Brian Cogan, o mesmo que, sete anos antes, havia imposto a mesma pena a “El Chapo”.
A sentença também determinou o confisco de US$ 15 bilhões, valor que os Estados Unidos estimam ter sido obtido pelo Cartel de Sinaloa — estimativa que Zambada considerou adequada.
Com a queda dos antigos chefes do narcotráfico mexicano, a condenação de “El Mayo” marca o desaparecimento desse tipo de traficante com poder absoluto, que passou de cultivador de maconha a controlador de praticamente todas as etapas do tráfico internacional de drogas, chegando a rivalizar com o próprio Estado, afirmam especialistas.
“É uma geração de líderes criminosos que está chegando ao fim. Ou já chegou”, disse David Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group e pesquisador especializado em crime organizado, à BBC Mundo, serviço em língua espanhola da BBC.
“É como se esses grandes chefes do narcotráfico estivessem desaparecendo”, acrescenta. “Mas o problema do narcotráfico e da violência não desaparece: ele continua, apenas assume outras formas e passa para as mãos de outras figuras.”
Mudança de era
Zambada e Guzmán se associaram após uma disputa que surgiu na década de 1990 entre narcotraficantes e um confronto de “El Chapo” com o cartel de Tijuana, segundo depoimentos e documentos judiciais.
Nesses tempos também houve alianças entre cartéis colombianos e mexicanos para enviar cocaína para os Estados Unidos.

Crédito, AFP via Getty Images
Embora comandassem grupos e operações diferentes, Zambada e Guzmán passaram a investir juntos em carregamentos de toneladas de cocaína e a transportá-los para grandes cidades americanas por diferentes meios.
Além das rotas terrestres, chegaram a compartilhar aviões, submarinos, lanchas rápidas e embarcações, segundo Jesús Zambada, irmão de “El Mayo”, que testemunhou no julgamento de Guzmán em 2018 enquanto aguardava sua própria condenação por tráfico de drogas nos EUA.
A associação entre “El Mayo” e “El Chapo” deu origem ao Cartel de Sinaloa, que, com o tempo, desenvolveu uma estrutura cada vez mais complexa, com transportadores, chefes de praça responsáveis pelo controle de territórios, operadores de lavagem de dinheiro, equipes de segurança e pistoleiros.
Ainda assim, a organização sempre manteve uma estrutura vertical, com Zambada e Guzmán no topo da hierarquia, supervisionando as operações e dando a palavra final.
O cartel corrompeu autoridades, assassinou rivais e expandiu suas operações para diversos países.
Embora tenha se tornado o grupo criminoso mais poderoso do México, outros cartéis continuaram atuando em paralelo, com líderes que acabaram mortos ou presos. Alguns agora aguardam julgamento nos Estados Unidos — e negociam possíveis acordos que envolvam admissão de culpa em troca de redução de penas ou benefícios.
Um deles é Vicente Carrillo Fuentes, ex-líder do Cartel de Juárez, que inicialmente se aliou ao Cartel de Sinaloa e depois passou para o lado de seus rivais, os Los Zetas, em meio à guerra sangrenta entre as organizações criminosas.

Crédito, AFP via Getty Images
Outro exemplo é Rafael Caro Quintero, que também começou cultivando maconha e depois passou a traficar outras drogas, até ganhar o apelido de “narco dos narcos”. Ele foi acusado de ordenar o assassinato do agente americano Enrique Camarena, da agência de combate ao tráfico de drogas Drug Enforcement Administration (DEA), em 1985.
O homicídio, cometido após o sequestro e a tortura de Camarena, levou México e EUA a intensificarem a ofensiva contra os cartéis e seus principais chefes.
Ainda assim, as organizações criminosas continuaram a desafiar o Estado. Em 2006, o governo mexicano declarou guerra ao narcotráfico, mobilizou as Forças Armadas para combater os cartéis e mergulhou o país em uma espiral de violência que já deixou centenas de milhares de mortos e desaparecidos.
À medida que os antigos chefes eram presos ou mortos e os cartéis incorporaram ao negócio novas drogas sintéticas, como metanfetamina e fentanil, as organizações criminosas adaptaram sua estrutura às novas circunstâncias.
Os cartéis começaram a se fragmentar, e a era dos grandes chefes do narcotráfico ficou para trás.
“O cenário está se afastando da era do líder único e todo-poderoso”, disse à BBC Mundo Ray Donovan, ex-chefe de operações da DEA.
Donovan participou das operações que levaram à captura de “El Chapo” no México, em 2016, e da caçada a Nemesio “El Mencho” Oseguera, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), que foi, por anos, o homem mais procurado do país.
Segundo ele, os cartéis agora buscam “estruturas de liderança mais resilientes e interconectadas”, com modelos de comando descentralizados.
Estilos diferentes
Embora tenham sido sócios durante tanto tempo, Zambada e Guzmán tinham estilos e trajetórias muito diferentes como líderes do narcotráfico.
“El Chapo” apareceu em público em diversas ocasiões e protagonizou duas fugas espetaculares de prisões no México, o que alimentou sua fama mundial e ajudou a construir uma imagem quase lendária, reforçada por músicas e séries de TV — algo que parecia seduzi-lo cada vez mais.

Crédito, AFP via Getty Images
“Forneci mais heroína, metanfetamina, cocaína e maconha do que qualquer outra pessoa no mundo”, afirmou em entrevista ao ator americano Sean Penn para a revista Rolling Stone, quando ainda estava foragido, antes de sua prisão definitiva.
Já “El Mayo” sempre manteve um perfil discreto, quase fantasmagórico: poucas pessoas conheciam seu rosto, e ele jamais havia sido preso até dois anos atrás.
As autoridades americanas acreditam que sua captura foi resultado de uma armadilha. Joaquín Guzmán López, um dos filhos de “El Chapo”, teria convidado Zambada para uma reunião de negócios, dominado o traficante, levado-o de avião para os arredores de El Paso, no Texas, e o entregado às autoridades americanas.
O episódio gerou atritos entre os governos dos EUA e do México, que buscou esclarecer se agentes americanos atuaram secretamente na transferência de “El Mayo” a partir de território mexicano.
A captura de Zambada também desencadeou uma guerra interna no Cartel de Sinaloa entre seus aliados, conhecidos como “Los Mayos”, e os herdeiros de Guzmán, chamados de “Los Chapitos”, mergulhando o Estado de Sinaloa em uma nova onda de violência.
Mora afirma que, em seu trabalho de campo no Estado mexicano, observa que essa violência acabou com o papel exercido pelos antigos chefes do narcotráfico, que, além de recorrerem à força, desempenhavam funções quase estatais em áreas como saúde e até justiça para conquistar legitimidade junto à população.

Crédito, Anadolu via Getty Images
“Quando converso com pessoas das comunidades da serra, elas me dizem que essa era uma figura que já não existe. Era como a figura do patrão, alguém que, se alguém matasse alguma pessoa próxima a você, aparecia e lhe dava recursos”, relata o pesquisador.
Ele acrescenta que, em vez de organizações do narcotráfico com hegemonia estadual e nacional, hoje predominam grupos de atuação mais local, que mantêm o negócio por meio de alianças e disputas com outras organizações criminosas.
Um relatório do International Crisis Group indica que nem a guerra territorial entre facções do narcotráfico em Sinaloa nem o grande efetivo militar enviado ao Estado pelo governo de Claudia Sheinbaum, sob pressão dos EUA para destruir laboratórios, apreender drogas e prender suspeitos, parecem ter alterado significativamente o fornecimento de fentanil.
Isso sugere que surgiram novos atores e novos locais de produção de drogas, além de novas formas de tráfico para atender à demanda, como já ocorreu anteriormente com outros entorpecentes, observa Mora.
“Podemos fazer uma lista de todos os grandes chefes do narcotráfico mexicano que foram capturados, mortos ou condenados nos EUA”, afirma. “E eu me atreveria a dizer que a conclusão seria muito frustrante, porque pouco ou nada mudou em relação ao problema.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


