CRÍTICA | SP
Conceição Discos
Quatro estrelas (muito bom)
R. Imaculada Conceição, 151, Santa Cecília, região oeste; @conceicaodiscos
“É você que é a Conceição?”, perguntou a cliente que não queria ir embora antes de elogiar a comida. A chef deu uma gargalhada sonora e disse que não, não se chamava Conceição. “Meu nome é Talitha”, respondeu.
O Conceição Discos fica em Santa Cecília, numa rua discreta chamada Imaculada Conceição. Em meio a mesas e cadeiras retrô, uma vitrola toca ótimos vinis. Daí o nome da casa. Sou cliente desde 2014, quando abriu, e confesso que às vezes os dois nomes também me deixam confusa.

Prato de arroz e carne-seca com abóbora do restaurante Conceição Discos
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Priscila Pastre/Folhapress
Em tempos em que há tantos chefs fora de suas cozinhas, Talitha Barros faz parte da seleta lista dos que encontrei à frente do fogão todas as vezes em que estive ali. De frente para a entrada —uma porta de garagem— ela comanda duas grandes frigideiras. Uma é para o preparo do arroz e outra é para os ovos. A cada dia da semana, oferece duas receitas com o grão para o cliente escolher.
Na minha última visita, uma quinta-feira, as opções eram arroz com bacalhau (R$ 68) e carne-seca com abóbora (R$ 58). A primeira veio com o toque de frescor de uma singela combinação de tomate picado e cebolinha. As lascas de bacalhau, em quantidade generosa, estavam úmidas e nada pesadas no sal. Um prato equilibrado e saboroso.
A segunda era mais intensa. Pelos grãos de arroz espalhava-se a cremosidade de um purê de abóbora, que contrastava em textura e sabor com a carne-seca. Ambos os pratos foram pedidos com ovo frito (R$ 8, cada um).
Peço sempre com a gema mole, para ter o prazer de vê-la se esparramando lentamente sobre o
prato. Não pedir ovo frito para coroar qualquer uma das receitas do Conceição —do arroz de costelinha (R$ 58, às terças) ao de polvo (R$ 78, aos sábados)— é amor sem beijinho.
O clima é informal, e o atendimento é objetivo, algo espartano. Um contraponto com a receptividade da chef, afeita a animadas conversas enquanto prepara os ovos na velha frigideira de aço inox, salteia o arroz (fazendo com que ele dê piruetas no ar e depois caia de volta na panela) e comanda a equipe.
Uma dinâmica especialmente atraente para quem vai sozinho. No geral, são clientes que preferem se sentar no balcão. Seja para observar a movimentação da cozinha ou para puxar papo, dá a sensação de que são todos parte de uma alegre confraria.
Quando me tornei mãe, gostava de comer no sofá que até hoje fica próximo à entrada. Aconchegava o bebê na almofada e almoçava sem pressa. Hoje, quando peço o arroz de pato ou o de galinha com quiabo, os sabores me conduzem por uma viagem no tempo.
Aos finais de semana a vibe é outra. Grupos de amigos lotam a calçada numa espera barulhenta e caótica. Enquanto aguarda, a dica é provar o míni pão de queijo recheado de pernil (R$ 13) ou a empada de camarão (R$ 22). Seja qual for a ocasião, finalize com o pudim (R$ 30). Um pedaço alto, grande e bem lisinho, sobre uma calda de respeito.
Comer ali prova três coisas. A primeira é que comida simples e bem-feita nunca sai de moda —assim como a arte de receber bem ou uma bela coleção de vinis. A segunda é que constância na cozinha é fundamental para o sucesso de um restaurante. E a terceira é que, sem dúvida, Talitha é Conceição.
Fonte.:Folha de São Paulo


