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29 de agosto de 2025

Confrarias de vinho vão de festa no apê a restaurante fino – 28/08/2025 – Comida

Confrarias de vinho vão de festa no apê a restaurante fino – 28/08/2025 – Comida

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Extasiado defronte da adega instalada em seu apê de 200 m², na zona leste, o empresário Leandro Bartulic, 37, sentiu que as 600 garrafas não poderiam ser apenas um item de decoração. A coleção de tintos, brancos, rosés e champanhes, selecionados de diversas partes do mundo, tinha de cumprir o seu destino natural, ou seja, arrebatar seus apreciadores pelo paladar. Foi assim que nasceu a ideia de criar a confraria Entre Rótulos e Rolhas.

O projeto começou timidamente, no salão de festas do prédio, com meia dúzia de vizinhos dispostos a mergulhar nesse universo, mas não demorou a conquistar adeptos. Hoje, cerca de 50 integrantes disputam as dez vagas disponíveis para cada encontro mensal.

Antes de se acomodarem à mesa, os membros da confraria discutem um tema relacionado ao mundo dos vinhos. Às vezes, escolhem uma região renomada, como Bordeaux; outras vezes, uma uva, como a Syrah, que é cultivada em diferentes partes do mundo.

Também há espaço para explorar terroirs tropicais. “Com o crescimento e a qualidade das vinícolas brasileiras, temos compartilhado em nossas reuniões rótulos de Minas ao Rio Grande do Sul“, conta.

Apaixonado por vinhos, quase todo o seu acervo, inclusive os exemplares raros e antigos oriundos da França, já tinha sido provado por ele antes da fundação da confraria. Do Château Pichon Lalande, por exemplo, ele fez a degustação vertical, comparando safras dos anos 1970 aos 2000, para analisar a evolução da bebida ao longo do tempo.

Bartulic criou uma coleção de camisetas estampadas com os nomes das uvas e das regiões produtoras e também um bloco de anotações específico para colar o rótulo e registrar as primeiras impressões de cada vinho.

Embora se diga “fã do Velho Mundo”, desmistifica a visão de que os antigos são melhores que os novos: “Há bons e maus produtores em qualquer lugar e em qualquer época. O mais caro e o mais antigo nem sempre são os melhores”.

Diz evitar compras em clubes de vinho. “Geralmente, eles tentam liquidar estoques, oferecendo rótulos promocionais, nem sempre bons”.

Nos encontros da confraria, cada membro pode levar seu vinho, desde que siga o tema previamente escolhido. “Nós preferimos montar nossa própria curadoria com importadores nacionais, além de sites europeus e americanos. Juntos, temos mais poder de negociação. E isso, sem dúvida, é outra vantagem das confrarias.”

Pelo menos 400 rótulos já foram degustados desde a criação da confraria, há três anos. As reuniões, logo que saíram do condomínio, ganharam os restaurantes. Um dos espaços preferidos do grupo é o complexo Vila Anália, que abriga cinco restaurantes.

Embora o espaço tenha uma adega com 300 rótulos, os participantes das confrarias têm liberdade para levar suas próprias garrafas. Para isso, é cobrada uma taxa de rolha de R$ 120, explica Ricardo Santinho, sommelier das casas e entusiasta dos encontros.

“De fato é um fenômeno que está em ascensão não só em restaurantes mas também em festas, churrascos, comemorações e encontros casuais.” Pelo menos três vezes por semana, um dos restaurantes do Vila Anália recebe uma confraria.

Nome que se confunde da própria profissão de sommelier, Manoel Beato brinca que em São Paulo “viramos franceses”. “Qualquer desculpa é boa para levar não uma, mas várias garrafas de vinho”, diz. “Nunca tivemos tanta confraria.”

É um universo difícil de ser mensurado em números, já que muitos participantes dessas confrarias, especialmente em restaurantes estrelados, preferem manter o anonimato, sobretudo quando os vinhos atingem montante significativo. Uma garrafa do famoso Domaine de la Romanée-Conti Montrachet Grand Cru, por exemplo, pode custar R$ 65 mil –e há rótulos ainda mais caros.

No Fasano, onde Beato trabalha há 33 anos, existem encontros focados em vinhos da França e da Itália, com ênfase em safras específicas. Tudo é registrado em planilhas, com a lista completa dos vinhos consumidos pelos confrades. Um dos mais renomados restaurantes italianos do Brasil, o Fasano conta com uma adega de 450 rótulos.

Beato e a chef sommelière do restaurante italiano Ristorantino, Juliana Carani, são presença constante em confrarias. Promovem eventos de vinhos que combinam harmoniosamente com música, como o Adega Musical e o Wine and Music. “E, é claro, com a participação de músicos que também são apaixonados por vinho”, conta ela.

Juliana é convidada para atuar como sommelière em confrarias de mulheres executivas, profissionais liberais, banqueiros, empresários do setor farmacêutico.

Conta que os participantes não pensam duas vezes em desembolsar R$ 15 mil para degustar vinhos raros, como o prestigiado Château Margaux, cujas raízes remontam ao século 12, na região de Bordeaux.

As degustações podem ser verticais, nas quais os participantes exploram a evolução de uma mesma marca ao longo dos anos, ou horizontais, com rótulos diferentes de produtores e regiões distintas, mas da mesma safra. Em ambos os casos, o sommelier assume o papel de anfitrião.

A Beato e Carani, por exemplo, cabe a responsabilidade de definir a ordem de serviço dos vinhos —a sequência em que cada garrafa deve ser servida. Cuidam da temperatura, decantam no momento certo e escolhem o saca-rolhas ideal para abrir um tinto antigo. Criam harmonia entre os vinhos e os pratos do restaurante. Os dois sommeliers chegam a participar de ao menos três confrarias por semana.

Com oito integrantes, a confraria do ginecologista Leonardo Baruki, 49, tem uma preferência por vinhos do Velho Mundo. “Talvez o principal objetivo desses encontros seja proporcionar a todos a chance de experimentar um vinho que, de outra forma, não teriam a oportunidade de degustar sozinhos”, explica.

Fora o vinho principal, cada participante pode levar outra garrafa, desde que seja da mesma região produtora. Outra escolha é realizar as confrarias, uma vez por mês, em restaurantes, com sommelier.

Analista de mercado, Rodrigo Lanari, 46, sócio da consultoria Winext, diz que, nos últimos dez anos, o Brasil passou de 20 milhões para 44 milhões de consumidores regulares. A crescente diversidade de rótulos e preços, sem contar a explosão de winebars, impulsionou essa soma.

Com a abundância de vinhos no mercado, consumidores passaram a cultivar o hábito de explorar rótulos e trocar experiências, fenômeno que favoreceu a popularização das confrarias no período pós-pandemia. Uma das grandes contribuições das confrarias, diz ele, é seu potencial de aprimorar o paladar.

“Costumamos dizer que adentrar o mundo do vinho é como subir uma escada. Quando você experimenta um bom vinho, dificilmente deseja descer alguns degraus em direção a rótulos de qualidade inferior.”



Fonte.:Folha de São Paulo

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