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11 de abril de 2026

Conheça a doula da morte que ressignifica o fim da vida – 11/04/2026 – Morte Sem Tabu

Conheça a doula da morte que ressignifica o fim da vida – 11/04/2026 – Morte Sem Tabu

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Revirando o lixo, a pequena Cláudia Oliveira descobriu que o cadáver de sua rolinha havia sido descartado. Envolvendo o pássaro com as mãos, foi até o pai expressar seu incômodo: “Por que ela está no lixo?”. Insatisfeita com a explicação de que o tratamento para a doença não havia funcionado, Cláudia refez sua pergunta: “Sim, mas por que ela está no lixo?”. Depois disso, a garota ajudou no preparo de uma caixa forrada, onde velaram a rolinha.

Nesse primeiro de muitos encontros com a morte, Cláudia descobriu um propósito: “a morte me chamou para trabalhar para ela, com ela e por ela desde que eu tinha três anos”.

Filha de enfermeiros, cresceu numa casa onde a morte sempre foi colocada como a cereja do bolo da vida. Por isso, a doula afirma: “Preciso levar essa visão para outras pessoas, é possível viver dentro da dor de uma outra forma”.

Para cuidar de pessoas morrendo e também de quem está lidando com isso, Cláudia se especializou como enfermeira em tanatologia, ciência que estuda a morte de forma ampla e interdisciplinar. “Mas eu sentia que faltava algo, ainda que sem noção do que era”, confessa.

Após ler uma reportagem sobre doulas da morte, logo entendeu o que estava por trás dessa falta e se matriculou na primeira turma online do AmorTser —curso mencionado na reportagem. Uma das idealizadoras do programa, Tatiana Barbieri compartilha que “é bem transformador, as alunas entendem que para viver aquela verdade é preciso se desprender e deixar muita coisa morrer”.

Cláudia decidiu usar seu perfil no Instagram (@thanatos_psique) para estabelecer diálogos: “Minha conta é aberta porque a considero como um trabalho de divulgação que serve para desmistificar um pouco sobre essa temática”. Após introduzir seus vídeos com a saudação “Bom dia, belos mortais!”, compartilha informações sobre o “Dançando com a Morte“, um projeto que entrelaça forró, cultura mexicana e psicologia em um debate sobre o fim da vida no Palácio do Catete, Rio de Janeiro.

“É uma iniciativa que já tem dois anos de existência e surgiu como uma necessidade de colegas da minha aula de forró”, explica a doula. Motivados pelo interesse em comum, passaram a se reunir a cada mês para conversar sobre o fim da vida e também praticar forró.

“É interessante ter essa percepção de que você não está só, de que os seus problemas também são vividos pelos outros”, compartilha Alberto Barreto, participante do projeto.

Com formação em psicologia, Cláudia explica a abordagem que aplica nos encontros: “Psicoeducação é quando você dá espaço para o outro trazer suas dúvidas sem julgamento, trabalhando não só o conceito daquilo que ele está trazendo, mas também as emoções envolvidas nisso”. A doula também usa técnicas do psicodrama, incentivando a expressão criativa do corpo para explorar suas questões psicológicas a partir de sua experiência cênica. Como auxiliar do projeto, a estudante de psicologia Vitória Félix relata: “Às vezes, surgem coisas que precisamos parar e pensar sobre como fazê-las fluir e serem trabalhadas”.

O projeto só chegou à sua versão final quando Cláudia começou a representar a figura icônica do Dia dos Mortos, La Catrina. Grande admiradora da cultura mexicana, sentiu que deveria se caracterizar de Catrina durante todos os encontros.”Eu começo como Cláudia para dar as boas-vindas, conversar, fazer as dinâmicas… só que tem um momento que me transformo em Catrina. Digo que não é mais a Cláudia, ali é a Morte falando, até a maneira de me dirigir às pessoas muda”, relata.

Para Cláudia, “falar de morte é falar de vida, porque a morte te chama para você ter consciência da brevidade”. Pensando nisso, ela confessa: “Uma coisa que me incomoda é essa tendência de só falarmos da morte quando há uma doença diagnosticada ou uma tragédia”. Ao som do tradicional forró, os participantes se despedem do encontro menos assustados e, com inúmeras possibilidades à frente, saem mais esperançosos.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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