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- Author, Fernando Duarte
- Role, Serviço Mundial da BBC
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Mas não havia um único argentino naquele grupo.
Os torcedores (muitos deles, vestindo a tradicional camisa alviceleste da seleção da Argentina) eram moradores de Dhaka, a capital de Bangladesh, que participavam das festas ao ar livre promovidas para assistir à partida em diversos locais da cidade.
Outros encontros, tão apaixonados como estes, tomaram as ruas de cidades da Índia e da Indonésia.
Torcedores daqueles países adotaram Messi e seus compatriotas, depois do repetido fracasso das suas próprias seleções nacionais nas tentativas de se classificar para a Copa do Mundo.
Dos 10 países mais populosos do mundo, apenas dois chegaram ao torneio de 2026: os Estados Unidos, como anfitrião, e o Brasil.
A Rússia e a Nigéria participaram de diversas edições anteriores. E outros dois países participaram apenas uma vez do evento esportivo mais popular do planeta: a China e a Indonésia (esta, quando ainda era colônia holandesa).
Mas a participação na Copa do Mundo permanece apenas um sonho distante para Bangladesh, Etiópia e Paquistão — além da Índia, que se classificou tecnicamente para a Copa de 1950, no Brasil, mas acabou desistindo menos de um mês antes do início do torneio.
“É simplesmente inaceitável que um país com milhões de torcedores tenha ficado tão para trás no futebol”, declarou à BBC a renomada atriz, escritora e torcedora de futebol de Bangladesh, Audite Karim.
Mas por que o sucesso no futebol é tão desproporcional ao tamanho da população de um país?
O tamanho realmente importa?
Teoricamente, quanto maior a população de um país, maior o número de atletas potencialmente disponíveis.
Dos oito países que já venceram a Copa do Mundo, sete possuem populações relativamente grandes: Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha, França, Inglaterra e Itália.
A única exceção é o Uruguai, mas, sobre eles, voltamos a falar mais tarde.
Ocorre que o tamanho da população é apenas um de vários fatores importantes, explica o acadêmico e economista britânico Stefan Szymanski. Ele é um dos autores do best-seller Soccernomics, que analisa dados para explicar o sucesso e o fracasso no esporte.
“O futebol funciona de forma muito parecida com as economias nacionais”, explica ele.
“Para progredir, você precisa de pessoas, mas também de capital e infraestrutura. No futebol, isso significa estrutura de treinamento e a capacidade de encontrar talentos.”
Szymanski destaca que a ampla maioria dos países bem sucedidos no futebol conta com outro denominador comum: a riqueza.
No livro Soccernomics, ele e seu coautor Simon Kuper concluíram que os países precisam normalmente de “renda per capita média anual de US$ 15 mil [cerca de R$ 78 mil] para ganhar qualquer coisa”.
Mas o Brasil e a Argentina têm renda média per capita bem abaixo deste valor. E, juntos, os dois países conquistaram oito Copas do Mundo.
Para o economista britânico, este resultado demonstra a importância de um terceiro fator: know-how.
“Aqui entra a experiência”, explica ele. “Os países que já ganharam a Copa do Mundo são aqueles que dominavam o jogo 100 anos atrás, antes do fim do colonialismo.”
Jogo de recuperação

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Basicamente, os países bem sucedidos no futebol, incluindo aqueles que participam regularmente de torneios como a Copa do Mundo, também são aqueles que jogaram mais partidas ao longo da sua história, especialmente em regiões com alto nível de competitividade, como a Europa e a América do Sul.
Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que o Uruguai, com apenas 3,5 milhões de habitantes, conseguiu conquistar duas Copas do Mundo (1930 e 1950) e duas medalhas de ouro olímpicas no futebol masculino, antes da criação do torneio (1924 e 1928).
A primeira partida internacional da Celeste Olímpica foi uma vitória de 6 x 0 sobre a Argentina. Ela foi disputada em 1902, 12 anos antes do primeiro jogo representativo da seleção brasileira.
Os países africanos e do sul da Ásia precisam trabalhar muito para poder alcançá-los. Afinal, muitos deles existem há muito menos tempo ou seu futebol se desenvolveu muito depois. E alguns deles vêm se destacando neste processo.
O Marrocos, por exemplo, conquistou a independência da Espanha e da França apenas em 1956 e se tornou a única nação africana a chegar às semifinais de uma Copa do Mundo, em 2022, no Catar. E a Coreia do Sul é o único país asiático a atingir o quarto lugar na Copa, em 2002, quando foi anfitriã ao lado do Japão.
“Mas também observamos outros países que não estão acompanhando este progresso, como a Indonésia, Índia, Bangladesh e assim por diante”, destaca Szymanski.
O economista afirma que estes países enfrentam dificuldades devido à falta de recursos e capacidades. Mas, mesmo com mais investimento, Szymanski acredita que eles ainda enfrentariam a falta de know-how.
A tristeza da Etiópia

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A Etiópia, décimo país mais populoso do mundo (com cerca de 138 milhões de habitantes), nunca se classificou para a Copa do Mundo, mesmo tendo vencido a Copa Africana de Nações em 1962.
Sua principal chance de participar do evento maior veio nas eliminatórias africanas para a Copa de 2014, no Brasil. O país chegou à fase final para a classificação, mas perdeu para a Nigéria no mata-mata.
Atualmente, o futebol etíope enfrenta o que a imprensa local chama de falta aguda de investimentos no esporte. Um exemplo é a falta de estádios adequados para receber as partidas da atual temporada do campeonato profissional do país.
“Nesta temporada, tivemos mais de 380 jogos em apenas três estádios aprovados”, declarou o CEO (diretor-executivo) da Premier League da Etiópia, Kifle Seife, ao jornal The Reporter, no dia 27 de junho.
A escassez de estádios também prejudicou a seleção nacional masculina da Etiópia, que precisou jogar no Marrocos as suas partidas em casa pelas eliminatórias africanas para a Copa do Mundo.
Críquete: obstáculo ou desculpa no sul da Ásia?

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Alguns países também são vítimas do seu sucesso em outros esportes.
A Índia é um dos países que dominam o críquete no planeta. Sua liga profissional, a IPL, é a mais rica do mundo.
O ex-jogador e treinador indiano Shyam Thapa afirma que esta situação gera graves dificuldades para a formação de jogadores de futebol. Para ele, o sucesso da IPL levou os pais de classe média e média alta a afastar cada vez mais seus filhos do futebol e levá-los a jogar críquete.
“Os pais precisam entender que também pode vir muito dinheiro se eles fizerem carreira no futebol”, declarou Thapa à BBC News.
Mas Audite Karim destaca que a Austrália e a Nova Zelândia, mesmo sendo potências do críquete, vêm desenvolvendo seu futebol e chegando a disputar a Copa do Mundo.
“A popularidade do críquete é simplesmente uma desculpa”, comenta ela sobre Bangladesh, outro país que adora aquele esporte. “Simplesmente não temos a preparação e a estrutura necessária para que um país dispute a Copa do Mundo de Futebol.”
A China é um gigante adormecido?

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O caso da China talvez seja o mais surpreendente de todos.
Nas últimas décadas, o país asiático formou uma das maiores histórias de sucesso já verificadas nos Jogos Olímpicos. Mas suas incursões no futebol masculino não trouxeram os mesmos resultados.
Teoricamente, “não há motivo para a China não conseguir produzir jogadores de futebol de renome mundial”, acredita o especialista chinês em futebol Mark Dreyer, de Pequim.
“O principal problema é que, na China, tudo é controlado pelo Estado e vem de cima para baixo. Você precisa de pessoas do futebol tomando decisões sobre o futebol, mas existe muita interferência política.”
A China disputou uma única Copa do Mundo em 2002, no Japão e na Coreia do Sul, mesmo com os fortes investimentos chineses no esporte a partir dos anos 2010. Este trabalho incluiu a contratação de diversas figuras consagradas do futebol europeu e sul-americano, para tentar elevar o padrão de jogo da sua liga profissional.
Como a China, a Indonésia também sentiu o gosto de disputar a Copa do Mundo uma única vez. Foi em 1938, na França, quando o país ainda era colônia da Holanda e competiu com o nome de Índias Orientais Holandesas.
Em 2026, a Indonésia teve uma boa participação nas eliminatórias e chegou à rodada final de classificação. Mas este desempenho pode ter se devido mais pela decisão de convocar jogadores europeus com ascendência indonésia, sem contar exclusivamente com os talentos domésticos.
“Em alguns momentos, havia oito ou nove jogadores nascidos na Europa na escalação inicial da Indonésia”, afirma o editor de jornalismo da BBC News Indonésia, Jerome Wirawan.
Já Paquistão e Bangladesh saíram das últimas eliminatórias asiáticas ainda na fase de grupos, sem nenhuma vitória em seis jogos. A Fifa já baniu o Paquistão do futebol internacional por três vezes entre 2017 e 2025, por conflitos políticos na sua federação local.
Aproveitando a festa de outra forma
Por tudo isso, a glória na Copa do Mundo pode parecer algo distante para os torcedores de muitos países. E, segundo Audite Karim, o prêmio de consolação é simplesmente aproveitar a festa.
“À luz da realidade, não prevejo nenhuma possibilidade de ver Bangladesh disputar uma Copa do Mundo enquanto eu viver”, lamenta ela. “Mas os torcedores de Bangladesh, mesmo assim, irão querer vivenciar cada momento de alegria do torneio.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


