
Crédito, Jungmin Choi/ BBC
- Author, Yuna Ku
- Role, BBC Coreia
Em uma manhã quente de agosto, uma multidão se reunia na estação de Imjingang, na última parada da linha de metrô de Seul e a mais próxima da Coreia do Norte.
Havia dezenas de ativistas e policiais, todos com a atenção voltada para um homem: Ahn Hak-sop, um ex-prisioneiro de guerra norte-coreano de 95 anos, que tentava retornar para a casa, do outro lado da fronteira que divide a península coreana.
Era o que Ahn chamava de sua viagem final: ele queria voltar ao Norte para ser enterrado lá, depois de ter passado a maior parte da sua vida na Coreia do Sul — grande parte dela contra sua vontade.
Mas ele não chegou a atravessar a fronteira: foi impedido, como era de se esperar, porque o governo sul-coreano afirmou não ter tido tempo suficiente para concluir os trâmites necessários.
Ainda assim, Ahn se aproximou ao máximo que conseguiu.
Debilitado por causa de um edema pulmonar, não podia realizar a caminhada de 30 minutos da estação até a Ponte da Unificação — ou Tongil Dae-gyo —, um dos poucos pontos que conectam a Coreia do Sul à Coreia do Norte.
Então, ele saiu do carro a cerca de 200 metros da ponte e completou o trecho final a pé, acompanhado por duas pessoas em que ele se apoiava.
Voltou com uma bandeira norte-coreana na mão — uma imagem pouco comum e desconcertante no Sul — e se dirigiu aos jornalistas e à equipe de voluntários que tinham ido apoiá-lo.
“Só quero que meu corpo descanse em uma terra verdadeiramente independente”, disse. “Uma terra livre do imperialismo.”
A vida no outro lado
Ahn Hak-sop tinha 23 anos quando foi capturado pelos sul-coreanos.
Três anos antes, ele estava no ensino médio quando o então líder norte-coreano Kim Il-sung atacou a Coreia do Sul.
Kim, que queria reunificar as duas Coreias, mobilizou seus compatriotas, afirmando que o Sul havia iniciado o ataque de 1950.
Ahn estava entre os que acreditaram nele. Em 1952, se alistou no Exército Popular da Coreia do Norte como oficial de ligação e logo foi designado para uma unidade enviada ao Sul.
Foi capturado em abril de 1953, três meses antes do armistício, e condenado à prisão perpétua naquele mesmo ano.
Mais de 42 anos depois, foi liberado graças a um indulto especial no Dia da Independência da Coreia.

Crédito, Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images
Como muitos outros presos norte-coreanos, Anh também foi rotulado como “cabeça vermelha”, em referência às suas simpatias comunistas, e teve dificuldades para conseguir um emprego adequado.
Em uma entrevista à BBC, em julho, ele contou que não foi um período fácil. O governo, segundo ele, não ajudou muito no início, e os agentes o monitoraram por anos.
Ele se casou e até adotou uma criança, mas nunca sentiu que realmente pertencia à sua família.
Durante todo esse tempo, estabeleceu-se em uma pequena cidade de Gimpo, o mais próximo que um civil pode viver da fronteira com o Norte.
Contudo, em 2000, ele recusou a possibilidade de ser devolvido ao Norte, junto com outras dezenas de presos que também queriam retornar.
Na época, ele estava otimista quanto à melhora dos laços entre os dois países e à possibilidade de seus cidadãos poderem viajar livremente de um lado para o outro.
Mas optou por ficar porque tinha medo que partir fosse uma vitória para os americanos.
“Naquela época, eles estavam pressionando para os Estados Unidos governassem [no Sul]”, afirmou.
“Se eu tivesse retornado ao Norte, teria me sentido como se estivesse entregando meu próprio quarto para os americanos, o desocupando. Minha consciência não permitiu isso.”
Não está claro a que ele se referia exatamente, além dos laços crescentes entre Seul e Washington, que incluem uma sólida aliança militar garantindo à Coreia do Sul proteção contra qualquer ataque do Norte.
Essa relação incomoda profundamente a Ahn, que nunca deixou de acreditar na propaganda da família Kim: que o único obstáculo que impedia a reunificação da península coreana eram “os Estados Unidos imperialistas” e um governo sul-coreano que estava em dívida com eles.
Lutar pela Coreia do Norte
Nascido em 1930, no condado de Ganghwa, província de Gyeonggi, durante o domínio colonial japonês da península coreana, Ahn era o caçula de três irmãos e também tinha duas irmãs mais novas.
O patriotismo chegou cedo. Seu avó se recusou a deixá-lo ir à escola porque “não queria me tornar japonês”, recorda Ahn.
Por isso, começou a estudar mais tarde que o habitual, somente depois da morte do avô.
Quando o Japão se rendeu, em 1945, pondo fim à Segunda Guerra Mundial e à colonização da Coreia, Ahn e seu irmão, que haviam desertado do exército japonês, se esconderam na casa de uma tia, ao pé do monte Mani, na ilha de Ganghwa.
“Não foi uma libertação, e sim uma transferência do domínio colonial”, afirmou.
“Um panfleto que vimos dizia que a Coreia não ia ser libertada, mas que, em seu lugar, se implantaria o governo militar americano. Inclusive dizia que se alguém violasse a lei militar americana, seria castigado estritamente sob a lei militar.”
Como a União Soviética e os Estados Unidos disputavam entre si a península coreana, fizeram um acordo para dividi-la. Os soviéticos assumiram o controle do Norte, enquanto os americanos ficaram com o Sul, onde estabeleceram uma administração militar até 1948.
Quando Kim atacou, em 1950, já existia um governo sul-coreano, mas Ahn, como muitos outros norte-coreanos, acreditavam que o Sul tinha provocado o conflito e que sua aliança com Washington impedia a reunificação.
Crença inabalável
Uma vez capturado, Ahn teve várias oportunidades de evitar a prisão: pediram que assinasse documentos renunciando ao Norte e à sua ideologia comunista, o que ele chamou de “conversão”. Mas ele se negou.
“Como me recusei a assinar um juramento de conversão por escrito, tive que suportar humilhações, torturas e violências sem fim, dias repletos de vergonha e dor. Não há como descrever todo esse sofrimento com palavras”, disse à multidão que se formou perto da fronteira em agosto.
O governo sul-coreano nunca respondeu diretamente a essa acusação, embora uma comissão especial tenha reconhecido a violência nas prisões em 2004.
As denúncias feitas por Ahn foram investigadas em 2009 pela Comissão da Verdade e da Reconciliação da Coreia do Sul — órgão independente que investiga as violações de direitos humanos cometidas no passado — que concluiu que houve um esforço deliberado para forçar sua conversão, que incluía atos de tortura.
Na Coreia do Sul, há muito se reconhece que esses prisioneiros costumavam sofrer violência atrás das grades.

Crédito, Jungmin Choi/BBC
“Quando recuperava a consciência, a primeira coisa que eu fazia era olhar para as minhas mãos, para ver se tinha tinta vermelha”, recordou Ahn em sua entrevista de julho à BBC.
Isso costumava indicar que alguém havia forçado sua impressão digital em um juramento escrito de conversão ideológica.
“Se não havia, eu pensava: ‘Não importa o que tenham feito, eu venci.’ E me sentia satisfeito.”
O Norte mudou bastante desde que Ahn se foi.
Ahn não esteve no Norte durante a devastadora fome da década de 90, que matou centenas de milhares de pessoas. Naquele período, dezenas de milhares de pessoas fugiram em jornadas arriscadas para escapar da vida no país.
Ahn, contudo, rejeita qualquer preocupação com violação de direitos humanos no Norte, culpando a imprensa de ser parcial e somente mostrar “o lado obscuro” do país.
Ele afirma que a Coreia do Norte está prosperando e defende a decisão de Kim de enviar tropas para ajudar a Rússia em sua invasão na Ucrânia.
O Sul também mudou muito durante o tempo que Ahn viveu lá: antes era uma ditadura militar pobre, hoje é uma democracia rica e poderosa.
Sua relação com o Norte passou por altos e baixos, oscilando entre a hostilidade aberta e tentativas de reaproximação.
Mas as convicções de Ahn nunca mudaram. Ele dedicou os últimos 30 anos de sua vida a protestar contra um país que, na sua opinião, continua colonizando a Coreia do Sul: os Estados Unidos.
“Dizem que os humanos, diferente dos animais, têm dois tipos de vida. Uma é a vida biológica básica, em que falamos, comemos, fazemos nossas necessidades, dormimos. A segunda é a vida política, também chamada de vida social. Se um ser humano é privado de sua vida política, não se diferencia de um robô”, disse à BBC em julho.
“Vivi sob domínio colonial japonês todos aqueles anos. Mas não quero ser enterrado sob o domínio colonial americano, nem depois de morto.”
Com informações adicionais de Jungmin Choi em Seul.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL