Pela Ruta 68, que liga a capital chilena a Valparaíso, Santiago se dissolve no retrovisor enquanto o oceano Pacífico começa a se anunciar do outro lado das montanhas. São 12h45 de uma quinta-feira ensolarada. A paisagem muda de tom: o azul profundo do céu parece mais próximo. Nas encostas, marrons e terracotas se espalham em camadas, cortados pelo verde dos parreirais que começam a brotar dos dois lados da estrada. Entre uma curva e outra, surgem placas de vinícolas e caminhos que convidam o viajante a abandonar o roteiro por alguns minutos.
Estamos cruzando o Vale de Casablanca, uma das regiões vinícolas mais conhecidas do Chile, antes de seguir por desvios menores em direção ao Vale do Rosário. A viagem funciona como uma introdução ao destino, menos pela pressa de chegar e mais pelo prazer de atravessar uma geografia que se revela em colinas, com uma luz que insiste em ficar depois que o sol já deveria ter ido embora.
A parada ocorre na Matetic, vinícola aninhada em terras que seguem rumo ao mar, cujo encanto não se restringe aos devotos da taça. Entre caminhadas, boa mesa e a proximidade com a costa, o vinho é menos o destino do que o tom que a estância impõe desde a chegada. Quem chega ali encontra primeiro a quietude do ambiente, interrompida apenas pelo canto dos passarinhos. A propriedade oferece um cardápio de atrações dentro de sua quinta e pelos arredores.
Após uma viagem de quase uma hora e meia desde a metrópole chilena, a melhor forma de absorver essa calmaria, entretanto, é se hospedar no próprio casarão histórico da vinícola, onde funciona o hotel butique La Casona, de arquitetura colonial do início do século 20, com dez apartamentos de até 47 m², todos com janelas abertas para o jardim central. A diária sai a partir de US$ 390 dólares (quase R$ 2.000, casal, com café da manhã).
Percorrer os vinhedos em um tour voltado ao manejo biodinâmico é uma dica para começar. O passeio custa US$ 67 (cerca de R$ 340, por pessoa), dura duas horas e meia e inclui degustação de quatro rótulos das linhas Corralillo e EQ (duas taças de cada uma), acompanhados de pães e azeite de oliva produzidos por lá. É um piquenique no alto da serra, de frente para as videiras que sobem os morros, com o entardecer tingindo a vista de uma paleta variada de tons dourados.
No portfólio de uvas cultivadas aparecem syrah, pinot noir, malbec, cabernet franc e garnacha, além das brancas sauvignon blanc, chardonnay, riesling e gewürztraminer. Essa enologia é marcada fortemente pelo clima costeiro, priorizando variedades que se beneficiam da brisa gelada do oceano. Pela manhã, é comum que a região amanheça coberta por uma névoa densa, que só se dissipa por volta das 9h, quando o sol passa a dominar o céu limpo do vale.
Do outro lado da entrada principal, depois de atravessar um lago repleto de gansos, chega-se ao restaurante Equilibrio, com paredes de vidro integradas à vegetação. Ali, pratos são servidos à la carte e harmonizados com os vinhos da casa. O salão costuma ficar movimentado tanto por viajantes em trânsito quanto por moradores de Santiago, atraídos pela culinária feita com o que a horta orgânica cedeu naquele dia.
À noite, especialmente nas de lua cheia, o menu especial inclui festas do assado, encontros que promovem a interação entre visitantes e parte da equipe de funcionários. “São eventos animados com a cueca, nossa dança nacional. E, é claro, as rancheras e as cumbias, ritmos regionais que agitam o interior do Chile”, conta o motorista de turismo Guillermo Pizarro, 57. Há uma década na bodega Matetic, ele conhece cada curva do vale e cada letra das tonadas, gênero musical e poético tradicional do país.
Na manhã seguinte, o roteiro segue em direção à foz do rio Maipo, em uma área à beira-mar onde a natureza insiste em se recompor. O espaço entre o rio e o Pacífico já foi um antigo lixão que, durante anos, sofreu com o descarte de entulhos e resíduos. Até carros eram abandonados ali. Quem visita hoje o Humedal Río Maipo encontra um porto de abrigo e preservação.
O ponto de encontro entre as águas doces e salgadas virou refúgio para a vida silvestre, atraindo observadores de aves de diferentes partes do mundo. O parque reúne aproximadamente 190 espécies catalogadas, o que representa mais de um terço de toda a avifauna chilena, e conta com passarelas de madeira e mirantes voltados à observação científica. Funciona também como uma esponja natural que filtra a água que corre para o mar, retendo nutrientes.
Para a guia de ecoturismo e ilustradora naturalista Thaís Rodríguez de Souza, 30, o “humedal” guarda histórias que a paisagem não conta sozinha. “Quando percebemos que uma ave tão frágil cruza continentes para passar a primavera neste canto do Chile, o lugar passa a fazer outro sentido”, diz. “Proteger isso deixa de ser dever ecológico e vira reverência à vida”, opina Thaís, chilena de mãe mineira.
Cerca de 35 minutos dali, a brisa do Pacífico sopra mais forte na costa rochosa de Isla Negra, a mais lúdica e marítima das casas de Pablo Neruda (1904-1973). O ideal é chegar perto da hora do almoço, caminhar sem pressa pela residência, observar o voo das gaivotas e terminar a visita no restaurante vizinho, na companhia de um pisco, o famoso destilado de uva.
No fim da tarde, quando a luz dourada bate nos rochedos escuros, o nome da morada se explica por si só. Inspirado pela cor escura das pedras, o poeta decidiu, em 1938, rebatizar o antigo balneário de Las Gaviotas como Isla Negra.
Atrás dos muros de pedra e sob o teto de zinco, projetado originalmente para amplificar o som da chuva, repousa o acúmulo obsessivo de um homem que precisava se cercar de coisas. Caminhar pelos cômodos é tropeçar em uma vida inteira guardada nas prateleiras. Janelas imensas emolduram as ondas que, nas palavras do próprio morador, eram tão grandes e azuis que não cabiam em nenhuma parte.
Pelos cantos, tudo isso ganha forma em mascarões de proa que parecem flutuar no salão, conchas de mares distantes e barcos aprisionados em garrafas de vidro. Nas vigas de madeira do bar, os nomes de amigos mortos aparecem talhados à mão, resistindo à umidade do litoral. A casa guarda ainda garrafas preenchidas com areias coloridas de praias brasileiras, presente do escritor Jorge Amado (1912-2001), amigo próximo do poeta.
Do lado de fora, diante do mesmo horizonte que atravessa a residência, está o túmulo de Neruda e de sua companheira, Matilde Urrutia. Ali, entre o mar e as pedras, fica mais fácil compreender o pedido que o escritor fez para ser enterrado no local.
pós sua morte, em 1973, seu corpo passou anos sepultado em Santiago. Só em 1992, com o Chile de volta à democracia, os restos mortais foram transferidos para o jardim da casa-museu. O retorno tardio cumpria o desejo eternizado nos versos de “Disposiciones”: que a casa, o mar e a terra escura de Isla Negra guardassem, enfim, aquilo que Neruda havia escolhido como destino.
Fonte.:Folha de S.Paulo


