
Crédito, Reuters
Tempo de leitura: 6 min
A diplomacia é tradicionalmente vista com sinônimo de discrição, e a maior parte dela continua acontecendo a portas fechadas.
As revelações mais recentes, no entanto, se enquadram em uma categoria diferente.
Aqui estão as mensagens na íntegra e o que especialistas disseram à BBC que é possível interpretar a partir delas:
Troca de mensagem de texto entre Trump e primeiro-ministro da Noruega, Jonas Støre
Divulgado pelo gabinete de Støre após um pedido de acesso à Informação feito pela BBC.
Jonas Støre, 18 de janeiro às 15h48 (11h48 horário de Brasília):
Caro senhor presidente, caro Donald — sobre o contato através do Atlântico — sobre a Groenlândia, Gaza, Ucrânia — e sobre o seu anúncio de tarifas ontem.
Você sabe nossa posição sobre essas questões. Mas acreditamos que todos devemos trabalhar para reduzir a tensão e desescalar — há tanta coisa acontecendo ao nosso redor que precisamos ficar unidos.
Estamos propondo uma ligação com você ainda hoje — com nós dois ou separadamente — diga-nos o que prefere!
Atenciosamente — Alex [em nome do primeiro-ministro da Finlândia, Alexander Stubb] e Jonas.
Resposta de Trump, 18 de janeiro às 16:15 (12:15 horário de Brasília):
Caro Jonas: Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter interrompido oito guerras, além de outras coisas, não me sinto mais na obrigação de pensar puramente na paz, embora ela seja sempre predomiannte, mas agora posso pensar no que é bom para os Estados Unidos da América.
A Dinamarca não consegue proteger o território da Rússia ou da China, e por que eles possuem um “direito de posse, afinal”?
Não há documentos escritos, é apenas o fato de que um barco chegou lá centenas de anos atrás, mas nós também tivemos barcos chegando lá. Fiz mais pela Otan do que qualquer outra pessoa desde a sua fundação, e agora a Otan deveria fazer algo pelos Estados Unidos.
O mundo não estará seguro a menos que tenhamos Controle Completo e Total da Groenlândia. Obrigado! Presidente DJT.
Isso é uma evidência de que “as normas diplomáticas vêm mudando há algum tempo e não é apenas para o presidente Trump”, disse a ex-porta-voz da Otan, Oana Lungescu, à BBC.
“É bastante incomum que mensagens privadas entre líderes se tornem públicas, mas isso faz parte da propensão do presidente Trump de conduzir a diplomacia publicamente. Pode-se dizer que é a diplomacia do megafone.”
Mark Weller, professor da Universidade de Cambridge, que já assessorou governos e organizações internacionais, concorda.
“Trocas de mensagens entre governos em alto nível são normalmente cuidadosamente escritas. Isso evita mal-entendidos ao responder a pontos importantes sem a devida reflexão”, afirma Weller.
“Isso não é um problema para o presidente Trump, que prospera ao frustrar expectativas.”
Mas ele observa que é incomum “para os noruegueses, conhecidos por sua frieza, revidar da mesma forma — claramente há a sensação de que é preciso combater fogo com fogo, além da frustração pessoal com a perda de toda a formalidade diplomática”.
Mensagem do presidente da França, Emmanuel Macron, para Trump
Publicado por Trump na rede social Truth Social
19 de janeiro, às 05h01 (09h01 horário de Brasília):
Do presidente Macron para o presidente Trump
Estamos totalmente alinhados em relação à Síria.
Podemos fazer grandes coisas no Irã.
Não entendo o que você está fazendo em relação à Groenlândia.
Vamos tentar construir grandes coisas:
1) Eu posso organizar uma reunião do G7 após Davos, em Paris, na tarde de quinta-feira. Posso convidar ucranianos, dinamarqueses, sírios e russos à margem do encontro.
2) Vamos jantar juntos em Paris na quinta-feira, antes de você voltar para os EUA.

Crédito, Truth Social
A divulgação das mensagens de Macron pode ser “constrangedora” para o presidente, disse o ex-diplomata francês Francios-Joseph Schichan, já que algumas partes o expõem.
“No início da mensagem, Macron claramente reconhece algo que ele não reconheceria em público, que é o fato dele não entender o comportamento de Trump com a Groenlândia”, afirma Schichan.
“Eu acho que isso é prejudicial, porque você não quer ser exposto dessa forma, então é bastante constrangedor.”
Contudo, Schichan observa que o convite de Macron para Trump para um encontro do G7 “não é constrangedor, apenas algo que ele precisa fazer”.
As mensagens também mostram como “Macron está tentando se engajar na diplomacia clássica”, disse ele, alertando que “isso não funciona com Trump, porque ele coloca tudo no Truth Social e o plano vai por água abaixo”.
“Esse é mais um elemento da diplomacia global que está desmoronando. Antes, era possível ter uma conversa privada, cara a cara, mas agora você não sabe se isso vai acabar nas redes sociais.”
Mensagem do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, para Trump
Publicado por Trump no Truth Social
20 de janeiro, às 01:53 (05:53 horário de Brasília):
Senhor presidente, caro Donald — o que você conquistou na Síria hoje é incrível. Usarei minhas aparições na mídia em Davos para destacar seu trabalho lá, em Gaza e na Ucrânia.
Estou comprometido em encontrar um caminho a seguir em relação à Groenlândia. Mal posso esperar para vê-lo.

Crédito, Truth Social
Assim como com Macron, a divulgação da mensagem privada de Rutte para Trump é “incomum”, diz Lungescu, a porta-voz mais antiga da Otan e agora pesquisadora sênior do think tank de defesa Royal United Services Institute.
Segundo Lungescu, a mensagem de Rutte foi “coerente entre o que ele diz publicamente e em particular” — enquanto outros líderes “podem parecer mais fortes em público e mais conciliadores em particular”.
“Portanto, há muitos riscos de que aquilo que era privado deixe de ser”, disse ela, acrescentando que “se as pessoas se sentem tentadas a parecer poderosas nas redes sociais, isso corre o risco de levar a uma escalada retórica em vez de trabalhar nos bastidores para encontrar soluções em que todos ganhem.”
“O espaço para a diplomacia terá mais foco em ligações telefônicas e encontros presenciais. Nesse caso, isso pode nos trazer de volta à diplomacia tradicional”, disse Lungescu.
Marc Weller, que também é diretor de programas de direito internacional no think tank Chatham House e ex-especialista sênior em mediação da ONU, alerta que “a tendência de publicar tudo à medida que acontece torna praticamente impossível qualquer diplomacia séria e confidencial em situações de crise, onde, na verdade, são necessárias ações e diálogos rápidos e confidenciais”.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


