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- Author, Jonathan Head
- Role, Correspondente do Sudeste Asiático em Bangkok
O Tribunal Constitucional da Tailândia voltou a intervir na política do país, destituindo mais um primeiro-ministro do cargo.
Na conversa, Paetongtarn foi ouvida chamando Hun Sen de “tio” e criticando um de seus comandantes do Exército. Ela se mostrava conciliadora em relação à disputa de fronteira entre os países, em meio ao agravamento das tensões.
A primeira-ministra se defendeu dizendo que vinha tentando abrir um canal diplomático com Hun Sen, amigo de longa data de seu pai, Thaksin Shinawatra, e que a conversa deveria ter permanecido confidencial.
A destituição de Paetongtarn é um golpe duro para dinastia política da família Shinawatra, que presidiu vários governos tailandeses.
Ela se torna a terceira Shinawatra a ter seu mandato de premiê interrompido: seu pai, Thaksin, foi deposto por um golpe militar em 2006 e sua tia, Yingluvk, também foi destituída pelo Tribunal Constitucional em 2014.

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O vazamento prejudicou a reputação de Paetongtarn e de seu partido, o Pheu Thai, gerando pedidos para que ela renunciasse, já que seu maior parceiro de coalizão abandonou o governo, a deixando com uma pequena maioria.
Em julho, sete dos nove juízes do tribunal votaram para suspender o mandato da primeira-ministra.
Eles afirmaram que ela tinha um “relacionamento pessoal” que “parecia alinhado com o Camboja” e rejeitaram suas alegações de que a ligação telefônica foi uma “negociação pessoal para restaurar a paz sem o uso da violência.”
Esse posicionamento dava indícios de que Paetongtarn teria o mesmo destino que seus quatro antecessores.
Assim, a decisão desta sexta-feira (29/08) não foi uma surpresa.
Paetongtarn é a quinta primeira-ministro tailandesa a ser afastada do cargo pela corte desde 2008, todos os casos de governos apoiados pelo seu pai.
Isso deu origem a uma crença generalizada na Tailândia de que o tribunal tende a decidir contra pessoas vistas como ameaça pelas forças conservadoras e monarquistas.
O tribunal já baniu 112 partidos políticos, muitos deles pequenos, mas também duas versões anteriores do Pheu Thai e o Move Forward (Movimento Adiante, na tradução literal para o português), o movimento reformista que venceu as últimas eleições em 2023.
Em poucos países do mundo a vida política é tão rigorosamente policiada por um ramo do judiciário.

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Neste caso, foi o vazamento da conversa telefônica que selou o destino de Pateongtarn.
Não está claro porque Hun Sen decidiu romper sua amizade com a família Shinawatra.
Antes disso, ele reagiu com raiva a um comentário de Paetongtarn, que chamou de “pouco profissional” o uso que ele fazia das redes sociais para sustentar seus argumentos. Hun Sen classificou a fala como “um insulto sem precedente”, que o levou a “expor a verdade”.
Mas sua decisão causou uma crise política na Tailândia, inflamando as tensões na fronteira entre os dois países — que, no mês passado, explodiram em uma guerra de cinco dias, deixando mais de 40 mortos.
Agora, a Constituição tailandesa exige que os membros do parlamento escolham um novo primeiro-ministro a partir de uma lista bem reduzida.
A escolha de um novo primeiro-ministro
Antes das últimas eleições, cada partido foi obrigado a apresentar três candidatos para disputar o cargo de primeiro-ministro.
O Pheu Thai já usou dois dos três nomes apresentados, já que Srettha Thavisin também foi afastado pela Corte no ano passado por nomear um aliado para seu gabinete, que havia sido preso por tentar subornar um juiz.
O terceiro candidato do partido, Chaikasem Nitisir, é um ex-ministro e veterano na política, mas tem pouca projeção pública e enfrenta problemas de saúde.
A alternativa seria Anutin Charnvirakul, ex-ministro do Interior, cujo partido Bhumjaithai deixou a coalizão governista após o vazamento da ligação.
A relação entre os dois países está estremecida. Para assumir o governo, Anutin dependeria do apoio do Pheu Thai, que tem muito mais cadeiras no parlamento, o que está longe de trazer estabilidade.
O maior partido do parlamento, com 143 deputados, integrava o extinto Move Forward e se transformou no The People’s Party (Partido do Povo), prometeu não se juntar a nenhuma coalizão, mas permanecer na oposição até a realização de uma nova eleição.
Embora uma nova eleição pareça ser a saída mais óbvia para resolver a crise, o Pheu Thai resiste a isso.
Depois de dois anos no poder, o partido não conseguiu cumprir suas promessas de recuperação econômica.
Golpe duro para dinastia Shinawatra
A inexperiente Paetongtarn, de 39 anos, ingressou no partido apenas em 2021 e não conseguiu consolidar qualquer autoridade real sobre o país, com a maioria dos tailandeses presumindo que seu pai tomava todas as grandes decisões.
Mas Thaksin Shinawatra — que se aposentou há alguns anos da política, mas permanecia influente — parece ter perdido seu “toque de mágica”.

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A principal promessa eleitora do Pheu Thai — uma carteira digital que colocaria 10 mil baht (cerca de R$1.300) no bolso de cada adulto tailandês — estagnou e foi amplamente criticada como ineficaz.
Outros grandes planos, como legalizar cassinos e construir um “corredor terrestre” ligando os oceanos Índico e Pacífico, também não saíram do papel.
Em um momento em que o nacionalismo tailandês foi inflamado pela guerra na fronteira com o Camboja, a amizade de longa data — agora rompida — da família Shinawatra com Hun Sen aumentou a desconfiança em setores conversadores de que eles sempre colocarão seus interesses econômicos acima do país.
A popularidade do partido despencou e é provável que perca muitas das 140 cadeiras em uma eleição agora.
Por mais de duas décadas, o Pheu Thai foi uma força eleitoral imbatível que dominou a política na Tailândia. É difícil imaginar como ele irá recuperar esse domínio algum dia.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL