Última filha de Clarice e Luciano, a jovem que levava o nome da mãe foi a única entre os irmãos a conseguir um diploma universitário. Graduada em odontologia em 1966, seguiu os passos do pai, também dentista, assim como carregou o nome da mãe.
Desde pequena Clarice Fabiano Costa da Silva mostrou alegria e disposição, como lembra Sulamita Reis, 97, que ajudou a cuidar da menina e a viu crescer no Grajaú, na zona norte do Rio de Janeiro. “Sempre teve esse espírito de desbravadora.”
Clarice, segundo o filho, o jornalista Marcelo Pinto, 55, sempre ensinou pelo exemplo. “Não fazia sermões nem discursos longos. Ensinava vivendo”.
Aos 17 anos, ele juntou-se à mãe em aulas de ioga. Passando por uma fase ruim na escola, comum na adolescência, só entendeu a estratégia e os benefícios anos depois. “Uma forma delicada de me introduzir em algo que pudesse me dar mais equilíbrio e disciplina. Sem bronca, sem imposição.”
Durante a faculdade, Clarice conheceu o aluno de engenharia química Edison Pinto, com quem se casou na igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Tiveram Marcelo e Cristiane Pinto, 52.
Antes do nascimento da filha mais nova, a família havia se mudado do Rio para Campinas (SP), por causa do trabalho de Edison. Clarice continuou a atender em um consultório montado na garagem de casa.
Cristiane nasceu sem a tireoide, e os cuidados levaram Clarice a interromper a carreira. Após a separação, em 1979, e a volta para o Grajaú, no Rio, a mãe se desdobrou para criar os filhos e voltar a atender. Também trabalhou como dentista de um supermercado para completar a renda e comprou uma casa na Tijuca, na zona norte carioca.
Clarice teve câncer de mama em 2001, depois foi acometida novamente por outro tipo da doença. Mas embalava as festas com “O Que É, O Que É?”, de Gonzaguinha, que para o filho representa a forma com que ela encarou a vida. Também viu a filha se formar em letras aos 40 anos e fazer uma pós-graduação na área.
Tinha nos netos Vieno, 25, e Matias, 21, filhos de Marcelo, seu xodó. Ajudou na criação e ensinou a tomar café e fazer bolo. E nos últimos anos também os recebia em casa para “o brechó da vovó”, abrindo o armário e deixando os dois pegarem o que quisessem.
Após a aposentadoria, encontrou na Universidade Aberta à Terceira Idade, um projeto financiado pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), uma forma de se manter ativa. “Fez inglês, musculação, dava volta no Maracanã, falava que estava com a vida social agitada”, diz Marcelo. Um corte de verbas no programa interrompeu as atividades, o que chateou Clarice.
Em 2015, ela sofreu uma isquemia e, segundo o filho, pareceu se cansar. A diminuição do ritmo não pôde impedir, porém, que ela aproveitasse o tempo com família e amigos. Internada por complicações na saúde no começo de janeiro, ela morreu em 26 de janeiro após um acidente vascular cerebral tronco-encefálico. Ela deixa Marcelo, Cristiane, Vieno e Matias.
Fonte.:Folha de S.Paulo


