6:18 PM
2 de março de 2026

Deputado quer saber quantos perfis foram censurados nas redes

Deputado quer saber quantos perfis foram censurados nas redes

PUBLICIDADE



Um projeto de lei (PL) de autoria do deputado Amom Mandel (Cidadania-AM) quer que o Judiciário divulgue quantos perfis em redes sociais foram censurados por decisão judicial de 2019 para cá no Brasil. O PL 6378/2025 pretende alterar o Marco Civil da Internet, obrigando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a publicar relatórios estatísticos que mostrem quantas decisões da Justiça mandaram bloquear, suspender ou apagar contas em redes sociais e plataformas digitais, de que tribunal vieram, que tipo de medida foi aplicada, quais fundamentos legais foram usados e a natureza dos processos (criminal, cível, eleitoral, etc.). Os nomes dos envolvidos, no entanto, devem permanecer em anonimato.

Embora a data de 2019 coincida com o início do “inquérito das fake news” pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – apelidado de “inquérito do fim do mundo” –, quando a censura a perfis na internet foi intensificada no país, o deputado afirmou à Gazeta do Povo, por meio de assessoria de imprensa, que o projeto não tem a ver “somente” com a Corte. “É uma lei em nome da transparência de decisões judiciais que atinjam as liberdades digitais, como um todo. Ou seja, tem a ver com o Poder Judiciário.”

A matéria foi apresentada em dezembro e está na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). “Embora tais medidas possam ser necessárias em determinadas circunstâncias para coibir ilícitos, é imperativo que, em um Estado Democrático de Direito, a sociedade tenha clareza sobre a dimensão e a frequência com que o Estado Juiz utiliza tais instrumentos excepcionais”, diz o PL.

O deputado recorda que a Constituição prevê como competência do CNJ “elaborar semestralmente relatório estatístico sobre processos e sentenças prolatadas”. “Trata-se, portanto, de medida de accountability [prestação de contas] essencial para o monitoramento das garantias fundamentais na rede, sem qualquer interferência na autonomia administrativa ou na atividade judicante dos tribunais”, justifica o texto.

STF não sabe quantas pessoas foram censuradas em inquéritos

No ano passado, a Gazeta do Povo questionou oficialmente quantas vozes foram caladas pelo Supremo brasileiro desde 2019 – quando o então presidente do STF, Dias Toffoli, abriu o Inquérito 4.781 – das “fake news – entregando a relatoria a Alexandre de Moraes. Em abril daquele ano, Moraes censurou uma reportagem da revista Crusoé que ligava Toffoli, sob o codinome “amigo do amigo de meu pai”, às delações Lava Jato. A partir de então, um número incontável de jornalistas, políticos, influenciadores e cidadãos comuns foram silenciados nas redes sociais por críticas ao STF.

Os dados nunca foram divulgados pelo Judiciário, e pedidos feitos pelo jornal à Corte (via assessoria de imprensa e Lei de Acesso à Informação – LAI) ficaram sem resposta exata. Quando questionada por meio de LAI, a Ouvidoria do STF afirmou não ter números consolidados sobre essas decisões e sugeriu uma busca por palavras-chave na página de jurisprudência do Supremo.

Como grande parte das decisões de censura tomadas desde 2019 ocorreram a partir de processos sigilosos, é impossível chegar a um número exato por esses meios. Estima-se que os censurados sejam milhares.  

Opinião dos parlamentares

Entre setembro e novembro de 2025, a Gazeta do Povo questionou os 81 senadores brasileiros sobre a falta de transparência em decisões do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que derrubaram perfis nas redes sociais, com a seguinte pergunta: “Considerando os direitos e princípios básicos e fundamentais de um estado democrático de direito, o (a) sr. (a) considera importante tornar público o número de brasileiros que tiveram suas contas de redes sociais bloqueadas por decisões dos tribunais superiores desde 2019?”

Mais de 40% dos senadores (33 parlamentares) disseram ser importante saber esse número. Já 59,26% (48 no total) preferiram não responder ou ignoraram os contatos da reportagem. Ninguém, no entanto, disse que os dados não são relevantes.

Já entre os 513 deputados federais brasileiros, 247 atenderam a reportagem, o que representa quase metade do total. Deles, 56 (23% dos que responderam) informaram que não participariam da pesquisa, seis (2,5%) disseram não achar a informação relevante, e 185 parlamentares de diferentes espectros políticos afirmaram considerar importante saber o número de brasileiros que tiveram contas de redes sociais bloqueadas por decisões de tribunais superiores desde 2019.

Na ocasião, o deputado Amom Mandel respondeu “sim”. “Em qualquer democracia digna desse nome, a transparência não é um favor – é um dever. Quando o Estado toma uma decisão que impacta o direito fundamental à livre expressão, como o bloqueio de contas em redes sociais, a sociedade tem o direito de saber quantas vezes isso aconteceu, por quê, e com base em quais fundamentos. Não estou discutindo se os bloqueios foram corretos ou não – essa é outra conversa. O que estou dizendo é que esconder esse tipo de informação mina a confiança pública nas instituições, e sem confiança, não há democracia que sobreviva. Se queremos fortalecer o debate público e combater tanto a desinformação quanto o autoritarismo, o mínimo que podemos fazer é garantir que os dados estejam abertos para todos os cidadãos. Quem tem medo da transparência, talvez esteja escondendo mais do que deveria”, disse.



Fonte. Gazeta do Povo

Leia mais

Rolar para cima