A sul-africana Caster Semenya, bicampeã olímpica dos 800 metros, declarou neste domingo (29) que a reintrodução pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) dos testes de feminilidade para os Jogos Olímpicos de Los Angeles-2028 é “uma falta de respeito às mulheres”.
A ex-atleta hiperandrogênica também expressou sua decepção pelo fato de a medida ter sido tomada sob a liderança da nova presidente do COI, a ex-nadadora zimbabuense Kirsty Coventry, primeira mulher a ocupar o cargo.
“Para mim, pessoalmente, o fato de ela ser uma mulher que vem da África, sabendo como as mulheres africanas ou as mulheres do Sul Global são afetadas por isso, é claro que causa dor”, disse Semenya durante uma entrevista coletiva na Cidade do Cabo, à margem de uma competição esportiva.
O COI anunciou na quinta-feira (26) o restabelecimento dos testes genéticos de feminilidade a partir dos Jogos de 2028 em Los Angeles, excluindo do esporte feminino as atletas transgênero e grande parte das atletas intersexuais.
Testes cromossômicos até 1996
A admissão nas competições olímpicas femininas “está agora reservada a pessoas de sexo biológico feminino”, não portadoras do gene SRY, explicou o COI em um comunicado.
O comitê já recorreu a testes cromossômicos de feminilidade entre 1968 e os Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, antes de abandoná-los em 1999 sob pressão da comunidade científica, que questionava sua pertinência, e de sua própria comissão de atletas.
“Isso terminou em fracasso. Por isso foi abandonado”, lembrou Semenya no domingo. “Como mulher, por que eu deveria ser submetida a um teste para provar que sou?”, questionou.
“É como se agora tivéssemos que provar que nós, mulheres, merecemos participar do esporte. É uma falta de respeito às mulheres”, insistiu.
Semenya se tornou o símbolo da luta das atletas hiperandrogênicas, uma batalha para fazer valer seus direitos que ela trava desde seu primeiro título mundial nos 800 m em 2009, primeiro nas pistas de atletismo e depois nos tribunais.
Trump contra as atletas transgênero
O restabelecimento dos testes de feminilidade elimina o principal foco de conflito potencial com o presidente americano Donald Trump, anfitrião dos próximos Jogos de verão.
Logo após retornar à Casa Branca em 2025, Trump proibiu por decreto a participação de atletas transgênero no esporte feminino.
Embora Washington deva aplaudir essa guinada do COI, nos últimos meses se multiplicaram os alertas contra o retorno dos testes genéticos ao esporte, vindos de cientistas, relatores das Nações Unidas, juristas e organizações de defesa dos direitos humanos.
A ministra de Esportes francesa, Marina Ferrari, também se opôs à reintrodução desses testes, uma medida que classificou como “retrocesso”.
Os testes de feminilidade já foram instaurados no ano passado no atletismo, no esqui e no boxe, um esporte que trouxe essa questão à tona nos Jogos de Paris-24, com os ouros da argelina Imane Khelif e da taiwanesa Lin Yu-ting, acusadas por várias personalidades, como Trump ou a criadora de “Harry Potter”, J.K. Rowling, de serem mulheres transgênero.
Khelif admitiu recentemente ser portadora do gene SRY, indicador de masculinidade, de forma “natural”, que se submeteu a um tratamento hormonal para reduzir seu nível de testosterona e que não se opõe aos testes de gênero, visando participar em Los Angeles-28.
Fonte.:Folha de S.Paulo


