
Recebi recentemente um convite para palestrar em um evento científico com médicos, pacientes e pessoas envolvidas direta ou indiretamente no cuidado de pacientes com câncer de mama, e me encantou o nome da palestra: Não é só sobre câncer. É sobre viver.
Achei então, que, às vésperas do Dia Internacional das Mulher, trazer essa pauta aqui poderia influenciar na melhoria do cuidado de muitas mulheres que todo ano recebem o diagnóstico de câncer.
Quando a medicina é sobre pessoas — e não apenas sobre doenças
Todos nós, que trabalhamos com câncer, aprendemos cedo a falar sobre prevenção, tumores, tratamentos, protocolos e resultados.
Mas a medicina — a medicina de verdade — nunca foi só sobre isso.
Ela é sobre pessoas. Pessoas que nos pedem ajuda no cuidado, mas que até o momento que entram em nosso consultório não conhecemos. Pessoas que não são previsíveis e cuja história pessoal nunca tivemos acesso.
Essa é uma das primeiras lições que a prática clínica ensina. A medicina exige conhecimento técnico, rigor científico e tomada de decisão baseada em evidências, mas exige também algo que raramente aparece nos livros: gostar de gente — e quando faço isso é qualquer tipo de gente — porque seu paciente não é a doença, mas sim a pessoa.
Gostar de gente significa ouvir antes de falar, escutar sem julgar e acolher para poder ajudar, sem que a nossa própria história, nossos vieses e nossa cultura interfira no nosso cuidado, porque, no final das contas, não é sobre nós, é sobre os nossos pacientes.
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Quando a médica descobre o outro lado da mesa
Quem acompanha esta coluna já conhece um pouco dessa história. Mas, para quem chegou agora, vale começar do começo. Durante muitos anos vivi a medicina de um lado muito específico da mesa: o lado da médica. Até que, um dia, passei a conhecer também o outro lado — o da paciente.
No mesmo ano, recebi dois diagnósticos: o de câncer de pele e o de câncer de mama. Costumo dizer às minhas pacientes que foi algo que chegou sem notificação prévia de catástrofe. Brinco que, diferente dos alertas de tempestade que hoje aparecem no celular avisando sobre chuvas intensas ou caos meteorológico, para certas notícias da vida ainda não existe aviso antecipado.
E foi assim, simples e direto: eu, mastologista, que diariamente cuido de mulheres com câncer de mama, recebi também um diagnóstico de câncer de mama.
Com muita frequência, ouço das minhas pacientes:
- “Doutora, por que eu?”
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Talvez uma diferença na minha jornada tenha sido essa. A pergunta que eu me fiz foi outra:
- “Ok, deu ruim. Eu imaginava que poderia acontecer comigo, afinal, por que não eu?”
O dia em que decidi ser tratada como paciente
No entanto, uma escolha que fiz foi: vou tirar meu jaleco, vou tirar meu crachá e vou seguir como qualquer outra profissional da saúde e como uma de minhas pacientes.
Disse à minha equipe: cuidem de mim como cuidariam de suas pacientes, sem o peso do meu cargo como liderança. Claro, respeitando meu conhecimento e minha trajetória, mas sem medo ou receio de me tratar como pessoa.
Na área médica existe uma frase que diz que “médicos sempre têm seus casos complicados”, quase como uma sina, um sinal, uma fatalidade.
Quando um médico vira paciente, algo curioso acontece: a formação técnica continua lá, mas ela não impede certos comportamentos, pelo contrário.
Percebemos que, frequentemente, quando colegas médicos adoecem, acabam se automedicando, se deixam levar por vieses afetivos, e com frequência, entram em tratamentos com quebra de protocolos. Minha escolha, portanto, foi simples: quero ser tratada como paciente.
A verdade é que nenhum jaleco protege alguém da vulnerabilidade humana, nem do medo.
O impacto emocional de um diagnóstico de câncer
O medo não é racional, mas é real. Quem recebe um diagnóstico de câncer não pensa apenas em estatísticas. Pensa na família, nos filhos, no trabalho e em tudo aquilo que ainda não viveu.
Por isso nunca é “só sobre o cabelo que cai”, nunca é “só uma cirurgia”, nunca é “só um resultado de exame”.
Cada um desses eventos carrega um peso enorme na vida de quem está passando por uma doença grave como o câncer de mama.
E pode parecer estranho a você, leitora, mas nem tudo nesta vida nós, médicos, aprendemos nos livros — e nem tudo está disponível para os pacientes nos manuais de tratamento. Percebi isso desde o início da minha carreira, quando o acesso à informação não era tão imediato como é hoje, com a presença constante da inteligência artificial. E, quando me tornei paciente, isso ficou ainda mais evidente.
Por mais que ofereçamos informações às nossas pacientes, as dúvidas quase sempre são maiores do que a nossa capacidade de respondê-las.
Percebi, sendo paciente, que nós médicos entregamos diagnósticos, indicamos tratamentos e explicamos probabilidades. Mas quem precisa lidar com o impacto disso todos os dias são os nossos pacientes.
E há algo nessa conta que também não fecha: nós não conhecemos completamente nossos pacientes para além do que perguntamos na consulta, e não temos idéia de qual é a rede de apoio deles.
Cada pessoa vive a doença dentro de uma história de vida única, e, por mais estranho que isso possa parecer, às vezes a única ou a principal rede de apoio somos nós, os médicos desta paciente.
Lições que o câncer ensina sobre viver
É por tudo isso que, quando me perguntam o que o câncer mudou em mim ou na minha vida, minha resposta é que “ele” não mudou quem eu sou, mas “ele” certamente me lembra todos os dias quem eu quero continuar sendo.
O câncer — e aqui não falo apenas do meu, mas do de todas as pessoas que já cruzaram meu caminho com esse diagnóstico — me faz revisitar meus propósitos diariamente. E hoje sei, mais do que nunca, que as palavras que dizemos em uma consulta têm um peso enorme.
Uma paciente me disse uma frase que nunca esqueci:
“As frases que vocês nos dizem ficam gravadas na alma, e nos dão o suporte necessário para seguir, mesmo quando não estamos com vocês.”
E de todas as mensagens que eu coloquei na minha palestra e que eu levo para a minha vida as principais são:
- Doença não é identidade;
- Ser paciente não define quem alguém é;
- Ser médico não nos torna invulneráveis;
- E por fim, a vida não espera o fim do tratamento para acontecer.
Ela continua acontecendo — silenciosamente — entre consultas, exames e tratamentos. Porque, no final, a verdade é simples: nunca é sobre câncer, é sobre viver, apesar do câncer.
E a vida real segue acontecendo todos os dias, entre as consultas.
Fonte.:Saúde Abril


