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Introdução
Estudos recentes revisam a prevalência de Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre gêneros. Embora mais diagnosticado em meninos na infância, a diferença se reduz com a idade, podendo ser quase igual na vida adulta. Fatores biológicos, como genética, e sociais, como vieses diagnósticos e “camuflagem” em meninas, contribuem para essa distinção complexa e multifatorial.
- O diagnóstico de TEA, tradicionalmente mais comum em meninos, tem sua proporção entre gêneros reavaliada por novos estudos.
- Pesquisa sueca de 35 anos sugere que a diferença nos diagnósticos de TEA entre homens e mulheres quase se iguala na idade adulta jovem.
- A psicóloga Andréa Chamon aponta para diagnósticos femininos mais tardios, indicando vieses no reconhecimento do TEA.
- Fatores biológicos, como genética e o “efeito protetor feminino”, são considerados, mas não são a única explicação para a diferença.
- Fatores sociais, incluindo vieses em modelos diagnósticos históricos e a “camuflagem” de sintomas por meninas, contribuem significativamente para a subnotificação.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada, entre outros aspectos, por dificuldades persistentes na interação social e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades.
Historicamente, os diagnósticos dessa condição foram mais frequentes em meninos. No entanto, estudos recentes indicam que essa diferença pode ser menor do que se imaginava, especialmente com o avançar da idade.
Segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, para cada menina diagnosticada, haveria cerca de quatro meninos com o transtorno. Porém, pesquisas mais recentes vêm revisando essa conta e indicam que a diferença pode ser mais próxima de três para um.
E os cálculos têm sido cada dia mais revisitados. Por exemplo, um estudo sueco, divulgado em dezembro de 2025 na revista The BMJ, deu certa estremecida nesse paradigma.
A pesquisa averiguou mudanças na proporção entre homens e mulheres nos diagnósticos de TEA ao longo de 35 anos, com base em dados de mais de mais de 2,7 milhões de suecos entre 1985 e 2020.
Os resultados sugerem que, embora os meninos sejam diagnosticados com mais frequência na infância, essa diferença nos números vai diminuindo a partir da adolescência. Segundo a análise, ao chegar à idade adulta jovem, os diagnósticos de autismo entre homens e mulheres seriam quase iguais.
“Esse estudo sugere que, ao longo da vida, as taxas entre homens e mulheres se aproximam, o que aponta para diagnósticos femininos mais tardios. Isso indica que nós não estamos falando apenas da prevalência, mas, principalmente, de quem é reconhecido como uma pessoa autista e em qual momento da vida”, avalia a psicóloga Andréa Regina Chamon, conselheira do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
Apesar disso, não dá para cravar que a distinção não é real. Ainda existe muito mistério em torno do autismo e as diferenças entre os gêneros que o regem. “Não há uma explicação única”, explica Flavia Zuccolotto, psiquiatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
A maior proporção do espectro em homens pode ser explicada por uma combinação de fatores biológicos, diferenças no comportamento e vieses no diagnóstico que ainda dificultam a identificação em meninas.
Além disso, os pesquisadores não sabem mais sobre por que o autismo tende a afetar meninos com mais frequência justamente porque a maioria dos estudos ter sido baseada em amostras predominantemente masculinas.
O que a ciência já sabe sobre a diferença de gênero
Para começar, parte da história pode estar nos genes. “Os homens são mais suscetíveis às doenças hereditárias de uma forma geral”, diz o médico geneticista Ciro Martinhago, da Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM).
Essa tendência tem relação com os cromossomos sexuais. Enquanto as mulheres têm dois cromossomos “X”, homens têm apenas um. Isso significa que, se houver uma variação genética em um dos cromossomos X, as mulheres ainda contam com uma “cópia extra”, que pode compensar ou reduzir seus efeitos.
De acordo com Martinhago, essa diferença ajuda a explicar por que certas condições de origem genética aparecem com mais frequência em meninos. No caso do autismo, esse é um dos fatores biológicos considerados pela Ciência.
Há também estudos que mencionam um “efeito protetor feminino”. Uma pesquisa de 2021, feita pela Universidade de Yale e publicada na revista Brain, surgiu com o conceito, apontando que mulheres precisariam de uma carga genética maior para manifestar sinais do TEA.
Já pesquisas mais antigas mencionam que algumas crianças que posteriormente desenvolvem autismo podem ter sido expostas a níveis elevados de testosterona no útero, explicando por que o transtorno seria mais comum em meninos.
Mas essa teoria é bastante rebatida. “A hipótese da testosterona fetal é historicamente relevante, embora também apresente resultados inconsistentes”, considera Flávia.
Por isso, segundo os especialistas, é importante destacar que o autismo é uma condição complexa e multifatorial, influenciada não apenas por aspectos biológicos, mas também por fatores sociais.
“Esses fatores são importantes e bastante estudados, mas, isoladamente, não explicam as diferenças observadas entre homens e mulheres”, alerta a psiquiatra.
Ou seja, é um risco atribuir uma explicação exclusivamente biológica a uma questão que também é atravessada por questões históricas e políticas, como explicam os especialistas.
Ciro reforça: “a forma como o cérebro se expressa é diferente entre homens e mulheres. Por exemplo, homens têm uma visão espacial melhor, enquanto mulheres conseguem enxergar mais cores. Mas, em relação a córtex ou outro tipo de coisa, é tudo muito parecido”, diz o geneticista.
O problema da subnotificação de mulheres
Andréa lembra que, se fizermos uma análise sociohistórica do autismo, iremos dar de cara com o fato de que os modelos para o diagnóstico sempre privilegiaram o sexo masculino. Além disso, a maioria dos dados epidemiológicos não incluía as mulheres nas suas contas.
“Quem historicamente conseguia acessar um diagnóstico diferencial para ser localizado dentro do grupo de pessoas autistas? Um perfil masculino, branco e com determinada classe social. Por isso, esses são critérios importantes de se pensar”, critica a psicóloga.
É por essa razão que, além da biologia, fatores sociais ajudam a explicar a diferença dos números de diagnóstico.
Soma-se a isso a possibilidade de as meninas esconderem melhor os sinais, imitando comportamentos sociais, além de frequentemente receberem outros diagnósticos antes do autismo.
“As meninas tendem a desenvolver estratégias de “camuflagem”, que tornam os sinais considerados típicos da condição menos visíveis”, destaca Andréa.
Conforme também exemplifica Flávia, podem existir diferenças na apresentação comportamental, de linguagem e de socialização, que podem levar a um atraso no diagnóstico de garotas, diz a psiquiatra.
Desse modo, muitas mulheres passam anos recebendo diagnósticos como ansiedade, depressão, ou outros quadros, sem que o autismo seja considerado.
Ainda assim, embora existam tendências descritas de como seria um comportamento típico, é importante evitar generalizações. “Não existe um perfil único de autismo. O autismo é múltiplo”, diz Andréa.
É também por isso que as especialistas destacam que nenhuma hipótese deve ser considerada isoladamente. “Nenhuma delas vai explicar as diferenças que são observadas nos diagnósticos, porque a gente está falando de pessoas que têm suas individualidades”, reforça Andréa.
Mas, com certeza, os vieses são uma influência importante nos dados. “Por último, como explicação para a diferenciação, está a própria influência dos dados científicos atuais e até mesmo da expectativa cultural, que pode facilitar ou não o acesso do indivíduo ao diagnóstico”, completa Flávia.
Por isso, a psiquiatra reforça que a proporção do quadro entre homens e mulheres é provavelmente menor do que se acredita hoje. E finaliza:
“Do meu ponto de vista, esse questionamento é de grande relevância, pois, de fato, utilizamos para os mais variados transtornos critérios iguais para fazer o diagnóstico em sexos diferentes, e uma melhor compreensão sobre essas diferenças pode levar a maior acurácia”, explica.
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Fonte.:Saúde Abril


