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Introdução
A dor crônica, como a fibromialgia, é um enigma que a medicina tradicional nem sempre decifra. A jornada de Chiara Gusmini revela o impacto devastador da falta de escuta e de uma ciência desatualizada, destacando a importância da validação e de novas abordagens focadas no paciente.
- A emocionante história de Chiara Gusmini, que sofreu por anos com fibromialgia devido à falta de escuta e validação médica.
- Desmistificação da dor crônica: entenda que ela não é sinônimo de lesão, mas sim um ‘sistema de alarme’ do corpo sensível demais.
- Estigma de gênero: como mulheres ainda enfrentam maior descrédito e dificuldades no diagnóstico de dores persistentes.
- Novas diretrizes: conheça as abordagens científicas atuais que recomendam educação sobre a dor, exercícios e autogerenciamento.
- O poder da escuta: a importância vital da comunicação empática e da validação do paciente para um tratamento eficaz e redução do sofrimento.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Este texto é do meu amigo cientista André Pontes-Silva que, com generosidade e carinho, aceitou meu convite para escrever sobre saúde e ciência de forma honesta e acessível.
Nossos cafés — sempre atravessados por ciência e filosofia — renderam muitas reflexões, e é um pouco delas que compartilhamos aqui com vocês.
Quando a dor começa cedo e decide ficar
Certa vez, uma menina de doze anos caiu no pátio da escola. Nada de extraordinário: passos rápidos, risadas, um empurrão sem querer e o corpo no chão. Não houve sangue, nem fratura. Só poeira no uniforme e aquela dorzinha que, em teoria, passa logo. Mas não passou. Ela ficou. Cresceu com ela.
Com o tempo, aquela dor deixou de ser uma “visita” e se transformou em uma “moradora”. Subiu pelas costas, tomou o pescoço, apertou as têmporas e desceu pelas pernas. Os exames não mostravam nada.
Os profissionais diziam tudo: ansiedade, sensibilidade, somatização, “coisa da idade”, “coisa da cabeça”. Mas ninguém dizia a frase que poderia mudar tudo: “eu acredito em você”.
O peso de não ser acreditada
Vieram tratamentos acumulados como tentativas frustradas. Vieram também palavras que machucam mais que a própria dor. E, por fim, veio um nome: fibromialgia. O diagnóstico parecia uma resposta, mas acabou sendo só uma etiqueta – sem explicação, sem direção.
Décadas depois, ela encontrou alguém disposto a escutar, conversar e reconstruir. Só então percebeu que a dor não precisava desaparecer para que a vida recomeçasse.
Essa história não é ficção. É o relato real de Chiara Gusmini, publicado no British Journal of Sports Medicine, e mostra como falhas na comunicação e na formação profissional podem produzir anos – anos! – de sofrimento evitável.
Dor crônica não é sinônimo de lesão
A história de Chiara não é um caso isolado. Ela representa milhares de pessoas que convivem com dor persistente e, além disso, enfrentam descrença, olhares de dúvida e explicações que não ajudam a entender a situação. E é justamente aqui que ciência e experiência de vida se encontram.
Hoje sabemos, graças ao avanço da ciência da dor, que muitos quadros de dor crônica, incluindo a fibromialgia, não têm relação direta com lesões. O corpo não está “quebrado”, mas sim com o sistema de alarme sensível demais.
É como um semáforo que resolve ficar vermelho o tempo todo. Mesmo sem carros atravessando a rua, sem risco e sem movimento, ele insiste em sinalizar perigo. O problema não está na rua – está no sinal.
Assim acontece com a dor nociplástica: o sistema nervoso passa a interpretar estímulos comuns como ameaças, mesmo quando não há dano acontecendo. Só que esse conhecimento, apesar de sólido na ciência, ainda circula pouco nos consultórios e hospitais.
Assim, quando o exame de imagem não mostra nada, muitas pessoas acabam ouvindo que “não há nada ali”, como se ausência de lesão fosse sinônimo de ausência de dor – embora já saibamos que imagem e dor se correlacionam mal.
+Leia também: Dor crônica: as novidades da ciência contra o problema que só cresce
Estigma, gênero e falhas no cuidado
Essa falta de preparo leva a dois problemas frequentes: diagnósticos atrasados e interpretações que colocam a culpa no psicológico do paciente (“coisa da cabeça”). Isso recai especialmente sobre mulheres que, ainda hoje, em pleno século XXI, sofrem mais estigma quando relatam dor – um reflexo de velhos modelos biomédicos e de pouca familiaridade com os mecanismos modernos da dor.
Para piorar, muitos tratamentos oferecidos continuam sem comprovação de benefício para esse tipo de dor. O uso crônico de anti-inflamatórios, opioides ou benzodiazepínicos, por exemplo, funciona pouco e pode fazer mal em casos de dor nociplástica, mas ainda é comum.
O que a ciência recomenda hoje
Por outro lado, as diretrizes internacionais mais recentes apontam para caminhos diferentes e eficazes. Elas defendem uma abordagem que coloca a pessoa, e não apenas os sintomas, no centro do cuidado, com educação sobre dor, exercícios graduais e desenvolvimento de estratégias de autogerenciamento.
A educação em dor, especialmente, tem mostrado efeitos importantes: reduz medo, catastrofização e aquela sensação de que “qualquer esforço piora tudo”.
Já exercícios estruturados, tanto aeróbicos (como caminhada) quanto de força (como musculação), vêm apresentando resultados consistentes na melhora da dor e da capacidade funcional em pessoas com fibromialgia.
+Leia também: Descubra os 6 pilares essenciais para aliviar a dor de forma eficaz
Quando escutar também é tratar
Certa vez, tomando um cafezinho com a Mari [Mariana Schamas], enquanto conversávamos sobre esse tema, ela me disse:
— Às vezes, a pessoa não precisa de um remédio novo. Precisa ser ouvida.
— E validada, respondi. Só isso já reduz metade do peso que ela carrega.
Mari fez um silêncio breve… desses que cabem uma vida inteira. Sabe? Depois disse:
— Curioso, né? Quando o corpo dói, é a escuta que faz a diferença.
— E muito — completei. Porque sem validação, até a dor dói mais.
A comunicação clínica como ponto de virada
Outro ponto essencial, frequentemente subestimado, é exatamente esse: a comunicação clínica. A forma como um profissional valida ou deslegitima a dor de alguém pode mudar completamente o desfecho. Estudos recentes mostram que a validação empática (ouvir, acolher, levar a sério) melhora adesão, reduz sofrimento e até melhora a função física.
Já discursos duros ou duvidosos fazem o oposto. A história de Chiara escancara isso: não foi apenas uma falha técnica; foi uma falha humana.
Por isso, antes de diagnosticar fibromialgia, os profissionais de saúde precisam reconhecer suas próprias lacunas. É necessário abandonar explicações simplistas, atualizar-se sobre os mecanismos contemporâneos da dor, aplicar intervenções realmente baseadas em evidências científicas sólidas e, acima de tudo, comunicar-se de forma responsável.
Ignorância clínica não é falta de inteligência. É apenas a distância entre a ciência atual e a prática cotidiana. Mas essa distância custa caro – às vezes, custa décadas de qualidade de vida. O caso de Chiara é um alerta, mas também um convite: quando conhecimento e escuta caminham juntos, vidas mudam.
* Mariana Schamas-Esposel, é cinesiologista pela California State University, pós-graduada em dor, coordenadora do curso Dor e Movimento – Prescrição de Exercícios para Pessoas com Dor do HCXUSP. André Pontes-Silva é cientista brasileiro e autor de mais de 150 artigos científicos, entre eles a proposta de diagnóstico biopsicossocial da fibromialgia, publicada pelo grupo Oxford no periódico oficial da Sociedade Britânica de Reumatologia.
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Fonte.:Saúde Abril


