
Ao identificar que o estado de cetose — provocado pela falta de carboidratos — era o mecanismo central desse benefício, a estratégia alimentar passou a ser aplicada como abordagem terapêutica para a epilepsia. Com isso, consolidou-se como um método eficaz para diminuir tanto a incidência quanto a gravidade das crises.
“No início do século XX, a dieta cetogênica assumiu o papel de principal tratamento da epilepsia“, confirma Gurgel.
“Com o advento de medicamentos cada vez mais eficazes, ela foi perdendo força, mas se mantém como importante tratamento adjuvante, especialmente nos casos em que há resistência do organismo à ação dos medicamentos“, explica o também doutorando pela Faculdade de Medicina da USP.
Riscos associados à cetogênica
O especialista afirma que o protocolo mais comum é prescrever essa dieta por até, no máximo, dois anos contínuos, já que é se trata de uma estratégia muito restrita, monótona e desafiadora, podendo levar a diferentes desconfortos gastrointestinais e outras condições de saúde.
“Há um risco, observado em nossos estudos experimentais, de aumento do acúmulo de gordura no fígado, podendo levar à esteatose. Há estudos que sugerem um aumento transitório do colesterol LDL. Portanto, ao se prescrever essa dieta é absolutamente fundamental que o paciente seja acompanhado e aconselhado pelo menos por um médico e um nutricionista, além de demais profissionais, dependendo do caso”, esclarece Gurgel.
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A esquizofrenia funciona igual a epilepsia?
Não. Elas possuem congruências, mas são diferentes.
Enquanto há “crises elétricas” na epilepsia, na esquizofrenia o que ocorre é uma alteração crônica nos circuitos cerebrais, resultando em descontrole de pensamentos, percepções, emoções e comportamento. Por isso, numa crise esquizofrênica, a pessoa pode sofrer com alucinações ou delírios.
Os principais neurotransmissores envolvidos nessa situação são a dopamina e o glutamato, além de também envolver alterações de GABA e serotonina.
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O que já se sabe sobre esquizofrenia e dieta cetogênica
Gurgel afirma que, de fato, cresceu nos últimos anos o interesse por pesquisar as consequências da cetogênica na esquizofrenia e em outras condições, como Alzheimer, esclerose múltipla, transtorno do espectro autista, depressão e ansiedade.
Uma recente revisão da literatura do ano passado, publicada por um grupo canadense na revista Frontiers in Pharmacology, reuniu algumas informações e teorias sobre a relação.
As pessoas com esquizofrenia poderiam, sim, se beneficiar do efeito gabaérgico da dieta cetogênica, mas o pulo do gato seria outro. “A lógica do uso desta dieta estaria ligada ao metabolismo energético cerebral, uma vez que os corpos cetônicos não dependem do metabolismo inicial da glicose, que estaria prejudicado na esquizofrenia, para fornecer energia”, explica Gurgel.
Em sua declaração de que a cetogênica curaria a esquizofrenia, Kennedy faz referência aos estudos do psiquiatra Christopher Palmer, que publicou um artigo sobre o tema em 2019. O trabalho descreve dois casos de pacientes com esquizofrenia que teriam entrado em remisssão dos sintomas após adotarem uma dieta cetogênica. Segundo o texto, ambos suspenderam o uso de medicamentos antipsicóticos.
Mas esses resultados ainda não provam muita coisa. “Os casos reportados por Christopher Palmer mostram que pode haver um efeito benéfico da dieta, assim como estudos de outros pesquisadores. Ainda não se tem, entretanto, clareza e certeza de que a dieta cetogênica possa levar à cura ou até a uma remissão duradoura da esquizofrenia“, pondera o especialista da USP.
Importante ressaltar ainda que há denúncias de conflito de interesse e problemas metodológicos nos trabalhos de Palmer.
“Tudo está no nível que poderíamos chamar de investigação promissora. Mas ainda não é possível falar em cura da esquizofrenia pelo uso da dieta cetogênica com o corpo de evidências de que dispomos no momento”, finaliza o especialista .
Fonte.:Saúde Abril


