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3 de junho de 2026

Diga-me onde andas e te direi que turista és – 03/06/2026 – Zeca Camargo

Diga-me onde andas e te direi que turista és – 03/06/2026 – Zeca Camargo

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Estamos acertados que somos todos turistas, não é mesmo? Saímos de casa para viajar, seja de carro, ônibus, trem, barco, avião e até a pé. Seja de mochila nas costas ou com malas de grife com rodinhas indestrutíveis, tu és turista.

Não tome isso como uma acusação. Só reforço aqui o que afirmei no nosso último encontro. Que a frase mais besta que alguém pode dizer numa viagem é “eu não sou um turista como os outros”. Especialmente quando dita com a soberba de quem acha que a experiência num jato particular vale mais do que a de um busão com karaokê e um bando de gente cantando o sucesso de Tayrone: “Edilene, desce desse pole dance, Edilene!”

Dito isso, acrescento que mesmo dentro dessa categoria única, temos nossas distinções. Somos, é claro, humanos, indivíduos com características próprias. E agora, na recente passagem por Roma, tive uma epifania sobre o que nos faz ser diferentes quando viajamos.

Ela me veio quando passava de carro pelo monumento a Vittorio Emanuele, no centro histórico da cidade. Eu cantava alto uma música que ouvi na minha primeira passagem pela cidade, “Vacanze Romane”, do Matia Bazar.

Tinha acabado de sair de uma loja incrível, Emporio Centrale, onde você encontra presentinhos retrô repaginados para o viajante moderno. Eufórico (mais uma vez) com a beleza de Roma, a caminho para comer um belo carbonara, puxei o refrão da canção e cantávamos felizes quando o carro parou diante de uma multidão.

Tratava-se de mais um grupo de turistas atravessando aquelas ruas cheias de história. Parecia uma cena ordinária mas, de repente, como numa foto do grande Martin Parr, aquele instantâneo comum me revelou outra dimensão.

Aqueles viajantes estavam em Roma. Era um dia de sol. Tudo em volta era belo. E eles reagiam a tudo aquilo com a euforia de uma turba eufórica. Era como se a cidade iluminasse o coração daqueles turistas, jorrando dopamina na corrente de todos.

Logo antes de Roma eu passei por Amsterdã, cidade de beleza indiscutível. Mas de alguma maneira os turistas que lá encontrei não me pareciam andar por aqueles canais com um êxtase sequer parecido com o dos seus colegas de vocação na Itália.

Comecei a pensar se as cidades, de certa maneira, não influenciam o comportamento dos turistas que as visitam. Se em Amsterdã os grupos circulavam tranquilos pela delicada paisagem urbana, em Roma eles eram o elogio da balbúrdia.

Veja bem, não estou comparando os dois comportamentos, muito menos julgado se um é melhor que o outro. Apenas divido aqui a curiosidade de perceber essas diferenças e fazer um despretensioso exercício de projetar essas ideias em outras cidades.

Comecei a achar que os turistas em Londres estão sempre com pressa. Na capital espanhola, eles se contaminam com o frenesi da movida madrilenha. Quem tem o olhar sequestrado pelo Tejo, em Lisboa, caminha por suas ladeiras pela sombra da saudade.

Eu mesmo, você, nós podemos ser cada um desses turistas conforme nosso destino. Anônimos em Tóquio, vibrantes em Salvador, intrépidos num safári em Botsuana, devotos no Círio em Belém, contemplativos em Luang Prabang, atônitos em Mumbai, serenos em Veneza.

Somos todos, e sempre, turistas, levando na bagagem todas as sensações com as quais o mundo quiser nos presentear.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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