
Crédito, Ernesto Benavides / Getty
- Author, Guillermo D. Olmo
- Role, Da BBC News Mundo
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O Congresso do Peru censurou nesta terça-feira (17/2) o presidente do país, José Jerí, o que, na prática, deixa a Presidência vaga e abre uma nova crise política.
Com 75 votos a favor, 24 contra e três abstenções, os parlamentares aprovaram uma das moções de censura apresentadas contra Jerí, acuado pelos escândalos que se acumularam nas últimas semanas.
A queda de Jerí, que estava havia apenas quatro meses no cargo, abre caminho para a eleição de seu sucessor no Congresso. Ele será o oitavo presidente do Peru em 10 anos, o que confirma o país como um caso único na região.
Jerí havia se envolvido em uma sucessão de escândalos que acabou lhe custando o cargo.
Em dezembro passado, ele foi flagrado por câmeras em uma reunião fora do palácio com empresários chineses em um restaurante de chifa, comida de origem chinesa muito popular no Peru, no distrito de San Borja, em Lima. O episódio deu origem ao que a imprensa peruana batizou de escândalo do “chifagate”.
Semanas depois, vários veículos denunciaram que o presidente havia recebido no Palácio de Governo um grupo de mulheres jovens que, depois, teriam sido beneficiadas com contratos com o Estado.
As diferentes e contraditórias versões de Jerí sobre ambos os casos não convenceram os congressistas, que, por ampla maioria, optaram por afastá-lo do cargo ao qual havia chegado havia apenas quatro meses, quando o Congresso aprovou a vacância da então presidente, Dina Boluarte.
Na ocasião, Jerí era presidente do Congresso e, conforme estabelece a Constituição peruana, sucedeu Boluarte na chefia do Estado. Ele deveria exercer a função até que as eleições, marcadas para daqui a menos de dois meses, definam um novo presidente para o Peru.
Após a votação da destituição, o Congresso anunciou em um comunicado que “tendo sido aprovadas as moções de censura, a mesa diretora declara a vacância do cargo de presidente do Congresso da República. Em consequência, encontra-se vago o cargo de presidente da República”.
Como Jerí caiu
O Congresso recebeu até sete moções de censura contra Jerí, todas fundamentadas em sua suposta conduta inadequada desde que assumiu a Presidência.
A maioria dos grupos políticos já havia se mostrado favorável ao afastamento, e a votação confirmou que ele havia perdido apoio no Parlamento.

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A votação foi o desfecho de uma sequência de escândalos que marcaram sua breve passagem pelo cargo.
Em 11 de janeiro, o programa Punto Final revelou a reunião de Jerí com empresários chineses no “chifa” de San Borja, no qual ele entrou encapuzado e onde foi filmado por câmeras de segurança.
O encontro com o empresário chinês Zhihua Yang não constava na agenda oficial do presidente, que inicialmente afirmou que haviam conversado sobre como “fazer algo diferente” para a celebração do Dia da Amizade Sino-Peruana.
O “chifagate” ganhou novas proporções quando o programa Cuarto Poder informou que outro empresário chinês, Xiaodong Ji Wu, visitou o Palácio de Governo até três vezes desde a posse de Jerí, acompanhado por Yang — apesar de estar em prisão domiciliar por sua suposta participação em uma trama de comércio ilegal de madeira.
O presidente do Conselho de Ministros, Ernesto Álvarez, disse então que no Palácio “não há nenhum filtro” que permita saber se os convidados estão sob investigação e afirmou que Jerí havia sido vítima de “uma armadilha”.
Os fatos levaram à abertura de uma investigação preliminar pelo Ministério Público por supostos crimes de patrocínio ilegal e tráfico de influência. Jerí teve de prestar depoimento.
Poucos dias depois, veio à tona o segundo escândalo: mulheres que visitaram Jerí no Palácio teriam sido contratadas pelo Estado.
Diversas reportagens apontaram que até 11 jovens obtiveram contratos estatais, embora algumas tenham apresentado renúncia após o escândalo. Jerí defendeu as contratações: “Muitas dessas pessoas trabalhavam comigo e era preciso ter pessoas de confiança para reestruturar o que havia sido encontrado”.
Para ele, dizer que foram contratadas apenas por sua proximidade com o presidente ou por serem mulheres era “completamente falso e injusto para suas carreiras”.
As explicações, no entanto, não convenceram os congressistas. Eles decidiram que Jerí não poderia continuar na Presidência, e suas tentativas de se apresentar como um governante duro e eficaz contra a criminalidade — em um país atingido por altos índices de roubos e extorsão — não foram suficientes para recuperar sua imagem.
Seus antecedentes também pesaram. Jerí já havia sido acusado de estupro em um caso em que a Justiça determinou que ele se submetesse a tratamento psicológico.
Em suas redes sociais, eram frequentes comentários e publicações que seus críticos consideravam sexistas.

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Um procedimento polêmico
O método escolhido para afastar Jerí também gerou controvérsia.
Na véspera, o próprio presidente havia afirmado que o correto seria iniciar o processo de vacância presidencial previsto na Constituição peruana para casos de “incapacidade moral permanente”.
Constitucionalistas de renome haviam se manifestado na mesma linha.
Ainda assim, o Congresso optou por censurá-lo como presidente do Congresso, procedimento que exige menos votos do que a vacância presidencial.
A censura requer apenas maioria simples dos deputados, enquanto a vacância presidencial exige maioria qualificada de 87 votos.
O ex-presidente do Tribunal Constitucional Óscar Urviola disse à emissora RPP que optar pela censura equivale, “na prática, a um golpe de Estado”.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


