A dor é 100% produzida no cérebro. A dor só vira dor quando o cérebro a interpreta como tal.
Neuroplasticidade é a capacidade que o cérebro tem de se organizar, reorganizar e fortalecer suas conexões neurais durante a vida toda, moldando-se a partir de estímulos, aprendizados, lesões e até dor. Essa capacidade é essencial para aprender continuamente ao longo da vida, preservar a saúde cognitiva e física, recuperar funções após lesões neurológicas e lidar com a dor de forma mais eficaz.
Atividades como leitura, exercício físico, raciocínio, interações sociais e estímulos intelectuais atuam como estímulos potentes para promover essa reorganização cerebral, sobretudo no contexto da dor.
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A dor persistente e de difícil controle desorganiza a forma como o cérebro interpreta os estímulos do corpo e do ambiente. Tudo passa a ser percebido como uma ameaça — até mesmo sinais que normalmente não causariam dor. Com isso, os sinais de dor se intensificam, e a percepção do próprio corpo se altera, levando a sensações de dor, frio ou calor de maneira exagerada e desproporcional.
Nesse cenário, o cérebro fica “viciado”, mantendo a sensação de dor ativa, mesmo sem nenhuma lesão. A adaptação cerebral, nem sempre é boa, ela pode ser mal adaptativa, causando muito sofrimento e dificuldade de adesão a um plano de tratamento. No caso da dor, o cérebro aprende respostas que a mantém funcionando em “modo de alerta permanente”.
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Como o cérebro aprende a sentir dor?
A dor é uma experiência real, mas também pode ser transformada.
Assim como o corpo aprendeu a sentir dor de forma persistente, é possível desaprender esse padrão. Esse processo de mudança se chama neuroplasticidade positiva — a habilidade do cérebro de se reorganizar com base em novas experiências. Podemos, pouco a pouco, construir caminhos neurais mais gentis e menos ameaçadores.
“A neuroplasticidade é a prova de que o cérebro é dinâmico e adaptável — capaz de se reconstruir, aprender e proteger sua funcionalidade conforme somos estimulados. É um conceito esperançoso tanto para a educação contínua quanto para a recuperação neurológica”, diz Drauzio Varella.
O que acontece fisiologicamente na dor crônica? Áreas do cérebro se reorganizam, distorcendo o “mapa” do corpo. O sistema nervoso central se torna hiperreativo: toques e movimentos leves podem causar dor. Essa dor se torna um “hábito neural”, mesmo sem perigo real.
O medo do movimento agrava o ciclo, causando mais dor e limitação. A pessoa evita movimentos, o que reforça o mapa distorcido e o ciclo doloroso, gerando mais medo, mais ansiedade e consequentemente mais dor.
Como reverter a dor crônica
A boa notícia é que podemos reverter esse cenário com a neuroplasticidade adaptativa e positiva. O cérebro pode ser reeducado a perceber o corpo e o movimento como seguros e não ameaçadores.
Como fazer isso? Com uma boa avaliação de especialista em dor, com protagonismo e informação:
- Educação em neurociência da dor – ensinar sobre os mecanismos da dor, como ela se manifesta no corpo, orientando de forma segura e eficiente.
- Exposição gradual ao movimento – um programa de exercício específico que gradualmente convida a prática física sem gerar dor com foco na funcionalidade.
- Atividades cognitivas – exercícios que estimulam a tomada de decisão, coordenação, destreza, raciocínio e duplas tarefas (movimentar o corpo enquanto faz conta matemática).
- Gerenciamento das emoções, redução do estresse – prática de meditação, relaxamento, diário e psicoterapia.
- Terapias que reduzem medo, ansiedade e isolamento – durante os exercícios, introduzir movimentos corporais que tragam segurança.
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O papel do exercício na reeducação do cérebro
O exercício pode ajudar (e muito!) a reorganizar a neuroplasticidade mal adaptativa na dor crônica. É uma das ferramentas terapêuticas mais poderosas quando bem dosada, compreendida e contextualizada para cada pessoa, trazendo vários benefícios:
- Reorganiza o mapa corporal cerebral. → Movimento consciente melhora a representação da parte dolorosa.
- Reduz a sensibilização central. → Libera neurotransmissores que inibem a dor, como endorfinas.
- Reconstrói a relação entre movimento e segurança. → Movimento deixa de ser associado à dor.
- Melhora o humor, o sono e a cognição. → Emoções e hábitos influenciam diretamente a dor.
O exercício precisa ser individualizado e progressivo. Antes de se mover, é essencial entender e acolher o medo da dor. Educar primeiro, mover depois.
A dor é uma opinião do cérebro. E boas experiências reescrevem essa opinião. Cuidar das conexões cerebrais é cuidar de si.
*Mariana Schamas-Esposel, BSc Kin, Cinesiologista, professora da USP e criadora do Programa LibertaDor
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Fonte.:Saúde Abril