10:54 PM
8 de janeiro de 2026

Dosimetria ainda enfrenta obstáculos de Lula e STF

Dosimetria ainda enfrenta obstáculos de Lula e STF

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Aprovado no fim de 2025 pelas duas Casas do Congresso após articulação da direita e da centro-direita, o projeto que altera regras para o cálculo das penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro, o chamado PL da Dosimetria, abre a perspectiva de redução significativa do tempo de prisão e de progressão mais rápida de regime, com efeito nos próximos meses.

O avanço legislativo, porém, ainda precisa superar barreiras políticas e jurídicas relevantes, começando pelo veto integral do texto já anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um dia depois da aprovação pelo Senado. Depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) será questionado quanto à constitucionalidade da nova lei e avaliará a sua aplicação caso a caso.

Lula transformou o veto em gesto político: deverá confirmar o veto em cerimônia nesta quinta-feira (8), no Palácio do Planalto, para marcar o terceiro aniversário dos atos ocorridos na Praça dos Três Poderes e que terminaram com a depredação das sedes do Executivo, Legislativo e Judiciário. Convidados, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não confirmaram presença. Ambos ajudaram a costurar o acordo para aprovar o texto.

Nos bastidores do governo, houve divergências sobre o momento do anúncio do veto. Parte dos aliados defendeu a assinatura no próprio 8 de janeiro, por seu simbolismo e visibilidade política; outros sugeriram adiar a decisão para reduzir o atrito com o Congresso. Lula, contudo, optou pelo tom de campanha eleitoral proposto pela área de comunicação do governo.

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Senado e Câmara devem derrubar o veto de Lula à dosimetria

O projeto da dosimetria foi aprovado no Senado com ajustes no texto aprovado dias antes pela Câmara para não favorecer grupos criminosos, alterando critérios de cálculo das penas e de progressão de regime apenas para os condenados do 8/1. Confirmado o veto presidencial, a apreciação do seu veto caberá ao Congresso, em uma sessão conjunta.

Para derrubá-lo, será necessária maioria absoluta em ambas as Casas — ao menos 41 senadores e 257 deputados —, com contagem separada de votos. Caso Senado ou Câmara não alcance o número mínimo, o veto é mantido. A dosimetria passou na Câmara com 291 votos favoráveis e 148 contrários, além de uma abstenção. Já no Senado, foram 48 a favor e 25 contra.

O argumento de “correção de excessos” na dosimetria encontrou apoio além da direita, alcançando parlamentares de vários partidos, dificultando uma reversão articulada pelo Palácio do Planalto, que queria ganhar tempo para tentar tirar apoio ao texto. A tendência de derrubada do veto, contudo, segue firme. PT e PSB já acionaram o STF para tentar barrar o projeto.

O texto aprovado restringe efeitos da redução de pena a crimes cometidos no contexto dos atos do 8 de janeiro, afastando o benefício a condenados por outros delitos. Ainda assim, juristas alertam que, mesmo se o veto cair e o STF considerar a nova lei constitucional, sua aplicação vai requerer a análise de caso a caso, após a Corte receber pedidos de revisão das defesas.

Com a nova lei em vigor, Bolsonaro poderá ser solto até o início de 2029

Caberá ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, recalcular penas, tempos de prisão e critérios de progressão, especialmente diante da incorporação e da interpretação dos chamados crimes contra a democracia. O processo tende a ser burocrático, sujeito a recursos e a diferentes entendimentos no tribunal, o que pode retardar eventuais algumas solturas.

Entre os beneficiados estaria o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e três meses de prisão. Pelas regras atuais, ele teria de cumprir cinco anos e 11 meses em regime fechado. Com a dosimetria, haveria absorção de penas de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, além de critério favorável de progressão.

Nesse cenário, Bolsonaro poderia cumprir três anos e três meses em regime fechado, com possibilidade de redução ainda maior — até dois anos e três meses — conforme a interpretação da norma, o que permitiria sua saída da prisão no início de 2029. A Lei de Execuções Penais prevê progressão de regime para réus primários condenados por crimes sem violência ou grave ameaça após o cumprimento de 16% da pena, percentual que sobe para 25% nos casos com violência.

O projeto estende o patamar mais brando aos condenados do 8 de janeiro, inclusive ao ex-presidente, o que explica parte da controvérsia jurídica em torno da medida. Especialistas ressaltam, contudo, a legitimidade do Congresso para definir novos parâmetros para casos específicos.

Lei da dosimetria é reconhecimento de excessos do STF, diz especialista

Para o cientista político Ismael Almeida, a aprovação do projeto vai além do ajuste técnico e representa um marco político e institucional ao reconhecer excessos nas condenações. Segundo ele, o texto não concede anistia nem extingue punições, mas reafirma princípios constitucionais como proporcionalidade e individualização da pena, evitando a soma automática de sanções e a equiparação entre líderes e participantes ocasionais.

Ao aprovar a Lei da Dosimetria, afirma Almeida, o Congresso admite que o padrão punitivo adotado no caso do 8 de janeiro ultrapassou limites razoáveis, sem negar o Estado de Direito. “Ainda que insuficiente para reparar todas as injustiças, a iniciativa tem peso simbólico ao reabrir o debate sobre a pacificação nacional. Ele aponta a incoerência de setores que rejeitam qualquer correção de condenações, apesar de terem sido beneficiados no passado pela anistia, preservada pela Constituição”, diz.

Advogados de condenados têm expectativas divergentes para a dosimetria

A advogada Carolina Siebra, integrante da Associação dos Familiares e Vítimas do 8 de Janeiro (Asfav), mantém expectativa otimista quanto à derrubada do veto na primeira sessão conjunta do Congresso, estimada para fevereiro ou março, o que permitiria efeitos imediatos da nova lei.

Para ela, a dosimetria é um alento concreto para familiares de réus que seguem presos e “nunca voltaram para casa”. Carolina considera pouco provável que o plenário do STF barre a proposta, citando informações de bastidores segundo as quais o próprio ministro Alexandre de Moraes teria participado da elaboração do texto, o que reforçaria a leitura de que a medida busca corrigir distorções sem configurar anistia.

Já o advogado Cláudio Caivano, que atua na defesa de réus do 8 de janeiro, vê o projeto como portador de “vício de origem”. Segundo ele, a iniciativa foi articulada por políticos à margem das negociações centrais — como Aécio Neves (PSDB), Michel Temer (MDB) e Paulinho da Força (Solidariedade) — em parceria com integrantes do STF, criando uma expectativa irreal de soltura imediata.

Caivano afirma que jamais apoiou a dosimetria e prevê que o veto presidencial será explorado como espetáculo político no aniversário do 8 de janeiro. Na sua avaliação, o resultado prático tende a ser limitado: dos cerca de 155 condenados ainda presos, apenas 80 poderiam ser beneficiados, com eventuais solturas a partir de junho ou julho, e outros 20, no máximo, de forma imediata. “É uma vitória com sabor de derrota”, critica.

Para ele, a anistia continua necessária, mas a aprovação da dosimetria criou um obstáculo político adicional para retomar o tema nesta legislatura, já que os regimentos podem barrar a reapresentação da matéria. Caberá ao presidente da Câmara decidir se o assunto já foi apreciado. “Fomos enganados e agora é tarde”, opina.



Fonte. Gazeta do Povo

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