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12 de fevereiro de 2026

É Carnaval e ninguém sabe onde estou – 12/02/2026 – Zeca Camargo

É Carnaval e ninguém sabe onde estou – 12/02/2026 – Zeca Camargo

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Quantas vezes você já ouviu alguém te responder que este ano vai ficar quieto no Carnaval? Às vésperas de encarar não apenas um, mas dois destinos tremendamente carnavalescos da temporada, não é sem certa perplexidade que recebo essa informação.

A festança bate à nossa porta e tem gente que quer fugir dela? Como assim? Essa me parece uma opção absurda, até eu me lembrar de momentos de tranquilidade que já experimentei pelo planeta.

Por exemplo, no Parque Nacional das Montanhas Simiens, na Étiópia. Num raio de alguns quilômetros, só o que via era um bando de babuínos-gelada, que certamente não davam a menor bola para mim e seguiam coçando as costas uns dos outros como se o Homo erectus ainda nem estivesse no horizonte da evolução.

Ali, fui atravessado por um curioso pensamento: o de que, naquele exato momento, ninguém que era importante para mim sabia onde eu estava. E eu não me senti angustiado —foi libertador.

No meio do nada na Etiópia, identifiquei essa sensação que certamente já havia me cruzado antes, sem que eu pudesse então elaborar: a de estar, por um momento raro, apenas você e o mundo, conectados, em comunhão.

O oposto do Carnaval, eu sei, mas a festança que estou prestes a abraçar pode esperar minha memória passar por aqui, revisitando paisagens que me inspiraram infinita tranquilidade.

Como uma manhã em Papua-Nova Guiné, em que remei até a ilhota onde a linda pele escura da pequena população de lá contrasta com o dourado natural de seus cabelos. Tanto na ida como na volta do trajeto, atravessava as águas só e feliz, como se fosse o primeiro.

Ou quando estava na Suíca, em Vals, admirando os picos nevados das piscinas do spa de concreto e luz, obra o grande arquiteto Peter Zumtor. Ainda sem saber o que sentia, me lembro de registrar um frisson simplesmente porque ninguém poderia me achar ali.

Num mokoro frágil em Botsuana, só com o barqueiro deslizando seu remo pelas águas rasas e infestadas de jacarés do delta de Okavango, a mesma sensação: a certeza de que estou longe de tudo, longe de todos.

Não foi diferente minha primeira vez no mar de Baía Formosa (RN), numa solitária ponte em Veneza, num arrozal em Bali, num balão em Dubai, procurando lêmures em Madagascar, numa cachoeira na chapada dos Guimarães (MT), na ilha do Fogo em Cabo Verde, andando pelas ruínas de Petra.

Não estava exatamente sozinho nesta última situação. Visitar aqueles monumentos sem ninguém por perto é privilégio que não sei se o dinheiro compra. Mas o bom dessa sensação, percebi depois, é que eu posso vivê-la mesmo rodeado de um mundaréu.

Para mim, essa cápsula mágica que algumas viagens me oferecem chegam como um antídoto da movimentação de 97% do meu dia-a-dia. E me fazem lembrar como viajar tem esse poder. O de te levar longe de tudo. De estar consigo mesmo. De entender como isso é necessário. E de viver essa paz.

Amanhã o Brasil começa a festejar o Carnaval –oficialmente, já que, sabemos, o povo está nas ruas há alguns fins de semanas. Eu posso ouvir o rumor da minha janela, sentir o chão vibrando nos meus pés.

Serei capaz de experimentar de novo essa solitude nos rios de folia por onde estou prestes a embarcar? Nem sei se devo torcer para que sim ou para que não…


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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