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1 de janeiro de 2026

‘É só um vírus’. Dias depois, ele estava morto – 01/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

‘É só um vírus’. Dias depois, ele estava morto – 01/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

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No sábado, 16 de setembro de 2023, Sam Terblanche, um estudante do terceiro ano da Universidade Columbia, foi a uma partida de futebol no Yankee Stadium. Durante a viagem de metrô, ele comentou com os amigos que se sentia mal. No domingo, foi ao pronto-socorro queixando-se de dor de cabeça e calafrios. Na segunda-feira, ainda se sentindo pior, voltou ao pronto-socorro. Em ambas as visitas, Sam recebeu alta com um prognóstico tranquilizador: “Síndrome viral aguda”.

Sam enviou uma mensagem de texto aos pais enquanto saía do hospital na noite de segunda-feira. “Só um vírus forte, vou ter que tomar ibuprofeno, vomitar e me hidratar para passar”, escreveu ele.

“Ufa”, respondeu o pai, “Boas notícias, não há nenhum problema grave conhecido (eu acho)”.

Na quinta-feira, 21 de setembro, o pai de Sam, Villiers Terblanche, recebeu um telefonema de um reitor da Universidade Columbia. “Quando ele disse ‘tenho notícias tristes’, eu soube que algo ruim tinha acontecido”, relembrou Terblanche em depoimento. Ele estava com a ligação no viva-voz na sala de estar da família. “A situação ficou realmente caótica por alguns minutos porque Louise” —a mãe de Sam— “estava gritando com o grito primal mais penetrante que já ouvi na vida e Ben” —o irmão mais novo de Sam— “perdeu a cabeça”.

Dois anos após a morte de Sam, seu pai (conhecido como “VT”) ainda não consegue entender como o filho de 20 anos pôde ter procurado ajuda no pronto-socorro do Mount Sinai Morningside duas vezes em 24 horas e, dois dias depois, ter morrido sozinho em seu quarto no dormitório.

Dois meses após a morte de Sam, Terblanche se reuniu com a diretora-médica, Tracy Breen (que desde então se tornou presidente do hospital). Ele gravou a reunião e a entregou como parte do processo de descoberta de provas pré-julgamento.

Em uma sala bem iluminada, sentada à mesa de reuniões, Breen explicou que, após uma revisão interna, o Mount Sinai Morningside havia concluído que estava “confortável, satisfeito, ou qualquer palavra totalmente inútil” com a decisão de dar alta a Sam. Foi um “golpe baixo”, disse Terblanche.

Breen admitiu que a morte de Sam era o “pior pesadelo” de um profissional de emergência e provavelmente levaria a equipe a “se questionar e sentir: ‘será que errei?'”. Ao mesmo tempo, ela informou a Terblanche que os detalhes da revisão eram confidenciais e não podiam ser compartilhados com ele.

Terblanche dedicou toda a sua vida profissional à advocacia e considera aquele encontro um ponto de virada. Como um executivo pode reconhecer que até os melhores médicos erram e, ao mesmo tempo, insistir, sem apresentar provas, que o hospital não teve culpa? A partir daquele momento, ele percebeu que, se quisesse respostas, teria que lutar. Em agosto de 2024, ele processou o Mount Sinai Morningside e cinco médicos que trabalham lá por negligência médica e homicídio culposo. Em um comunicado, o Mount Sinai expressou condolências à família Terblanche, mas se recusou a comentar o caso de Sam.

“Qualquer perda de paciente afeta profundamente não apenas as famílias, mas também as equipes de atendimento que se dedicam a fornecer cuidados da mais alta qualidade”, diz o comunicado.

‘Movendo a Carne’

Os procedimentos legais de Terblanche contra Mount Sinai Morningside se concentrarão na definição legal restrita de “padrão de atendimento”. Mas o caso de Sam Terblanche destaca questões iminentes para todos que utilizam os serviços de emergência: podemos esperar que os médicos, pessoas imperfeitas que tratam pacientes com necessidades específicas, tenham um desempenho quase impecável em um sistema que está sobrecarregado? E quando o atendimento é falho, onde está a linha divisória entre o adequado e o inadequado —e quem, além de juízes e júris, faz essa avaliação?

Houve 155 milhões de visitas a serviços de emergência em 2022, um aumento em relação aos 130 milhões em 2018, e esse número deve aumentar à medida que os cortes no Medicaid do presidente Trump entrarem em vigor. Um terço dos americanos não tem médico de atenção primária, um aumento em relação há 10 anos, quando eram um quarto.

Outrora o último recurso para casos de febre alta, lesões esportivas de fim de semana e vítimas de acidentes de carro, o pronto-socorro se tornou o consultório médico de milhões de pessoas. Os pacientes chegam com dor de estômago, dor no peito, tosse, traumatismo craniano, overdoses e queixas inespecíficas, depressão, hipertensão e fome.

“O espectro das doenças é simplesmente inacreditável”, disse Reuben Strayer, médico de emergência do Maimonides Health no Brooklyn, Nova York, cuja palestra, “Pensamento de Emergência”, foi vista quase 80 milvezes no YouTube.

A primeira tarefa de qualquer médico de emergência, como ele me explicou, é identificar e tratar pacientes que precisam de reanimação. Essas avaliações geralmente são simples. “Se alguém acabou de levar um tiro no peito e está inconsciente, você sabe exatamente onde essa pessoa está”, disse ele.

Muito mais difícil é determinar quais pacientes estão em perigo iminente. Isso exige uma avaliação rigorosa, focada e minuciosa de cada paciente que não esteja obviamente em estado terminal nem obviamente bem.

“Você pode aferir os sinais vitais e, se eles forem tranquilizadores e aparentarem estar bem, a grande maioria está bem. Mas nem todos”, disse Strayer. O paciente que aparenta estar bem, mas está em perigo, é tanto uma preocupação urgente para o médico quanto uma agulha em um palheiro —e “quanto mais pacientes ‘bem’ utilizarem o pronto-socorro como seu principal serviço de saúde, mais difícil se torna encontrar essas agulhas”, afirmou.

A equipe de emergência está sob crescente pressão para dar alta aos pacientes o mais rápido possível: os mais céticos chegam a chamar seu trabalho de “movimento de caixa”. Os hospitais estão próximos da capacidade máxima devido às instalações antigas e às pressões econômicas. Em uma carta de 2022 ao presidente Joe Biden, o Colégio Americano de Médicos de Emergência classificou a “superlotação” —com pacientes aguardando por dias e, às vezes, semanas para serem internados— como “uma emergência de saúde pública“. Enquanto esperam, esses pacientes gravemente enfermos se acumulam nos corredores da emergência, consumindo o tempo da equipe, enquanto novos pacientes chegam constantemente.

“Como você pode imaginar, quando alguém chega com sintomas mais sutis, há um risco maior de que o diagnóstico passe despercebido”, disse Allen Kachalia, vice-presidente sênior de segurança e qualidade do paciente da Johns Hopkins Medicine.

Apesar da dificuldade do trabalho, a precisão diagnóstica no pronto-socorro é, em geral, alta. No entanto, uma revisão sistemática recente de pesquisas publicadas estimou que 5,7% dos pacientes atendidos no pronto-socorro apresentam pelo menos um erro diagnóstico e 2% sofrem alguma piora em decorrência disso.

Uma pequena parcela, 0,3%, sofre danos graves —incluindo 50 mortes por ano em um pronto-socorro médio com 25.000 atendimentos anuais. Os médicos têm contestado esses dados, mas o problema do diagnóstico incorreto é bem documentado. Um fator comum nos erros diagnósticos, escreveram os autores, foi o que chamaram de “desafio cognitivo” de identificar condições perigosas em pacientes com sintomas inespecíficos, leves ou transitórios.

Em sua segunda consulta, Sam disse que ainda tinha dor de cabeça. “Não era a pior dor de cabeça da sua vida”, dizia o prontuário médico.

Duas visitas ao pronto-socorro

VT e Louise Terblanche são sul-africanos de nascimento. Seus filhos nasceram na cidade de Nova York e foram criados principalmente em Abu Dhabi, onde VT era sócio da Latham & Watkins. Os Terblanches são ricos, mas o adjetivo que VT usa com mais frequência para se descrever é “calvinista”. Ele é um homem sensato e bem-sucedido, predisposto a confiar que as autoridades conquistaram seus cargos. Em todas as minhas conversas com ele, ao longo de quase um ano, ele raramente usou a palavra “luto”.

Ele me disse que ainda sonha com Sam várias vezes por semana, “mas não acordo mais me perguntando: ‘será que isso realmente aconteceu?’ Eu sei que aconteceu.”

Após a morte de Sam, os Terblanches se mudaram para Nova York. VT tirou uma licença do escritório de advocacia e se matriculou em um mestrado em políticas de saúde na Universidade de Nova York. Em seu esforço para entender a segurança e os riscos hospitalares, ele se deparou com estas projeções frequentemente citadas: mais de 200 mil pessoas morrerão a cada ano devido a erros médicos evitáveis. Ele ficou chocado. De forma conservadora, essas estimativas equivalem a pelo menos um acidente fatal com um Boeing 747 por semana, calculou Terblanche.

No domingo, um dia depois da partida de futebol no Yankee Stadium, Sam começou a se sentir muito mal. À noite, ele caminhou um quarteirão até o pronto-socorro do Mount Sinai Morningside com um amigo. Lá, descreveu sua dor de cabeça e calafrios. Com o exame físico, os médicos descartaram meningite e o testaram para gripe, covid e vírus sincicial respiratório, conhecido como VSR (todos os resultados foram negativos). Sam recebeu Tylenol e Zofran e foi liberado para casa.

No dia seguinte, ele se sentiu pior, “muito mal mesmo, rsrs”, como escreveu em uma mensagem para sua namorada, Kayla Francais. Ele passou o dia todo vomitando. Acordou de um cochilo com tremores incontroláveis e sofreu cãibras dolorosas nas pernas durante o banho.

Kayla, que tinha 20 anos e estava conversando com a mãe, disse que achava que ele deveria ir ao pronto-socorro novamente. “Eu também acho”, respondeu Sam.

Sam retornou pouco depois das 20h da segunda-feira, 18 de setembro. Na linguagem do pronto-socorro, ele foi um caso de “recuperação rápida”, um paciente que retorna em pouco tempo, o que é sempre um sinal de alerta.

Além das queixas anteriores, Sam agora ficava ofegante ao caminhar. Ele tinha tosse. De acordo com seu prontuário médico, ele apresentava febre de 38,1°C e sua frequência cardíaca era de 126 batimentos por minuto. A frequência cardíaca normal de um adulto varia de 60 a 100 batimentos por minuto.

Quando Aditya Banerjee, então residente do primeiro ano, examinou Sam, ele trabalhava no pronto-socorro havia menos de um mês. “Naquela época”, disse ele em seu depoimento, “eu delegava todas as minhas avaliações e decisões médicas ao médico responsável”. Naquela noite, quem o atendeu foi Samuel Agyare, um médico veterano, que afirmou em depoimento que trabalhava em tempo integral no Mount Sinai Morningside e em tempo parcial no Lincoln Hospital, no Bronx.

Após a covid, o Mount Sinai Morningside enfrentou dificuldades. Ao longo de 2023, o número de enfermeiros no pronto-socorro estava tão baixo que, em fevereiro de 2024, um painel de arbitragem concedeu aos enfermeiros sindicalizados quase um milhão de dólares por trabalharem em turnos com pessoal insuficiente. Nos três anos a partir de 2022, o Mount Sinai Morningside recebeu nota “C” em segurança do Leapfrog Group, uma organização sem fins lucrativos de fiscalização.

Na noite da segunda visita de Sam, o pronto-socorro estava “muito movimentado”, testemunhou Agyare. Ao passar pela sala de espera, ele reconheceu Sam, a quem havia atendido na noite anterior. Agyare acompanhou Sam até uma maca no pronto-socorro pediátrico, disse ele em depoimento, e o examinou.

Banerjee testemunhou que também examinou Sam, depois consultou Agyare e juntos elaboraram um plano. A tarefa de Banerjee era documentar o atendimento de Sam e, ao começar a fazê-lo, uma janela pop-up apareceu na tela do seu computador. A febre e a frequência cardíaca de Sam haviam acionado um alerta automático de sepse, uma condição potencialmente fatal na qual o sistema imunológico reage de forma perigosa a uma infecção. Isso exige intervenção imediata. Para ajudar o hospital a cumprir as normas estaduais de sepse, a janela pop-up fornece uma lista de verificação de exames e procedimentos usados para identificar e tratá-la.

Agyare instruiu Banerjee a hidratar Sam imediatamente, mas aguardar os resultados dos exames laboratoriais antes de solicitar uma radiografia do tórax ou os antibióticos fortes usados para tratar a sepse.

Mas Banerjee, um novato, ficou preso. Ele não conseguia descobrir como navegar pelo modelo para fazer alguns, mas não todos, os pedidos preenchidos automaticamente. “Este foi meu primeiro paciente que acionou o protocolo de sepse”, explicou ele em depoimento. Então, ele pediu ajuda a Connor Welsh, um residente do terceiro ano.

Às 20h50, Welsh mostrou a Banerjee como fazer. Em seu próprio computador, ele clicou em um campo do prontuário de Sam para afirmar que a sepse era improvável: “Com base na minha avaliação”, dizia a anotação automática, “este paciente não preenche os critérios clínicos para sepse bacteriana”. E então Welsh registrou o que Banerjee disse que Agyare havia dito anteriormente: “Provável síndrome viral. Investigação pendente”.

O nome de Welsh aparece na anotação, mas em seu depoimento ele disse que nunca interagiu com Sam. Residentes mais experientes costumam ajudar os mais jovens dessa maneira, disse ele. “Assinei esta anotação com base na conversa com o médico, Dr. Banerjee, com base em sua avaliação e no tratamento clínico do Sr. Terblanche”, testemunhou.

Enquanto isso, Sam estava deitado na cama 36, com uma aparência exausta. Seu amigo Charlie Sagner estava na sala de espera, fazendo a lição de casa. Em uma atualização para os amigos, Charlie escreveu que Sam parecia um zumbi. Por volta das 21h, Sam mandou uma mensagem para seus pais em Abu Dhabi. “De volta ao pronto-socorro”, escreveu ele. “Estão me dando soro e fazendo exames de sangue.”

“Oh, querido”, respondeu sua mãe, Louise. “Posso ligar?”

A ficha de Sam tem 51 páginas, um catálogo de códigos e abreviações de faturamento, caixas de seleção e abreviações, atualizações e adendos. O registro da segunda consulta contém inúmeras contradições: a frequência cardíaca de Sam foi documentada em 126, mas Banerjee marcou a caixa “normal”. Em um trecho, consta que Sam não tinha tosse, enquanto em outro, consta que sim. As assinaturas de médicos que testemunharam nunca terem visto Sam —incluindo um que não estava no hospital naquela noite— acompanham as anotações. Os sinais vitais foram solicitados, mas não aferidos, assim como o eletrocardiograma.

Terblanche leu o prontuário inúmeras vezes, sempre em busca de pistas. Ele acha o prontuário ridículo: por que um médico decidiria ignorar um alerta criado para proteger Sam do perigo?

Os médicos descrevem os registros médicos eletrônicos como uma tarefa desagradável e frustrante. Eles criticam a forma como os prontuários evoluíram, priorizando o faturamento e a defesa contra processos judiciais em detrimento do atendimento clínico. E consideram a profusão de alertas e notificações bem-intencionadas, na melhor das hipóteses, uma distração.

O termo “inchaço de prontuários” refere-se ao volume de mensagens redundantes e supérfluas geradas por um prontuário eletrônico. Os alertas automatizados que auxiliam na tomada de decisões médicas ainda são relativamente rudimentares, explicou Kachalia, executivo de segurança do paciente da Johns Hopkins, em uma ligação telefônica. “Embora possam ajudar, o problema é que muitas vezes emitem alertas em excesso”, como um carro que buzina quando há um obstáculo no caminho e também quando não há, disse ele. Esses avisos pouco confiáveis podem levar à “fadiga de alertas” e, às vezes, ao hábito mental de ignorá-los.

Os médicos de emergência com quem conversei se mostraram, em sua maioria, compreensivos com a decisão de ignorar o alerta de sepse. Eles me lembraram que, em 2023, no final da era da covid, as salas de espera do pronto-socorro estavam lotadas de pacientes jovens com infecções virais apresentando febre, dor de cabeça e náusea. A grande maioria se recuperava.

Mas eles também concordaram que o registro do atendimento de Sam durante sua segunda consulta é escasso. As caixas de seleção e os modelos podem aumentar a eficiência, disseram-me vários médicos, mas também podem distrair os médicos dos pacientes que estão bem à sua frente.

Até mesmo Breen, a executiva do Mount Sinai Morningside, admitiu durante sua reunião com Terblanche que a tomada de decisões não estava “bem documentada no prontuário médico em geral”. Após a morte de Sam, ela disse a ele: “Uma das coisas que discutimos com a equipe foi como talvez registrar melhor isso.”

O que faltava no prontuário de Sam era praticamente o porquê. Sam estava se sentindo pior. Por que Agyare afirmou desde o início que era “improvável que Sam precisasse de internação”, como constava no prontuário? Sam ficava sem fôlego ao caminhar, disse a pelo menos um médico que estava com tosse e não conseguia reter alimentos ou líquidos. Qual era a justificativa de Agyare para não prescrever antibióticos como precaução? Ele explicou seu raciocínio em seu depoimento. Além de uma febre baixa e frequência cardíaca elevada, o exame físico de Sam “não apresentou nenhuma anormalidade”, disse.

E Agyare disse que não solicitou uma radiografia do tórax porque os pulmões de Sam pareciam normais. “O paciente não apresentava insuficiência respiratória. Sua frequência respiratória estava dentro dos limites normais”, afirmou.

Cada um dos seis médicos do pronto-socorro com quem conversei observou a omissão da radiografia de tórax. Um médico que busca descartar sepse em um paciente que retorna ao hospital precisa demonstrar uma investigação minuciosa para identificar uma infecção. Uma radiografia de tórax poderia ter revelado (ou descartado) pneumonia, hemorragia ou líquido nos pulmões.

Mas, alertaram, poderia não ter sido assim. “Poderia ter sido normal e ele ainda assim poderia ter morrido”, disse Maria Raven, chefe do departamento de emergência do Centro Médico da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Cada médico também enfatizou que não estava presente. Eles não examinaram Sam.

Anormal, mas não preocupante?

Em maio, sentei-me com a família e Kayla à longa mesa da casa de campo dos Terblanche.

Conversávamos sobre como Sam, que adorava uma discussão política, podia ser irritante em sua certeza e tentava ser bom, até mesmo valente, em seus relacionamentos. Ele era o tipo de namorado que ajudava Kayla a fazer pulseiras antes de um show da Taylor Swift —e depois usava uma que dizia “namorado”.

Sam era ambientalista e defensor de longa data dos direitos palestinos. Empático, ele provocava o pai por sua postura inabalável de invulnerabilidade. Mas, em geral, era, como Kayla disse, citando Taylor Swift, “um agradador compulsivo de pessoas”.

Kayla tem uma teoria sobre o caso. O preconceito contra mulheres e negros em departamentos de emergência já foi documentado há muito tempo, apontou Kayla. Ela se formou em Estudos de Gênero em Barnard. Sam pode não ter alarmado a equipe de emergência porque era um jovem que não queria “parecer fraco”. Ela acredita que Sam sabia o quão doente estava: “Ele simplesmente não sabia como se defender. Ele não sabia como se manifestar.”

Sam era jovem. Era saudável e em boa forma. Isso por si só pode ser um obstáculo para o diagnóstico. Os médicos do pronto-socorro com quem conversei descreveram como o corpo dos jovens muitas vezes compensa doenças ou traumas até que não consiga mais. Eles parecem bem, ou suficientemente bem, e então “desabam”, como vários médicos me disseram.

Ao ser questionado sobre a aparência de Sam durante um depoimento em agosto, Agyare lembrou-se de “um jovem bem-disposto, que se comunicava bem e não demonstrava sinais de angústia”.

Os resultados dos exames de Sam começaram a chegar depois das 21h. Dos mais de 70 resultados listados em sua ficha, quase 30 estão sinalizados com pequenas setas e pontos de exclamação como “anormais”. Mas, em depoimento, Agyare disse que, no caso de Sam, esses alertas não eram clinicamente preocupantes. Os médicos do pronto-socorro com quem conversei concordaram em grande parte; “nenhuma evidência concreta”, disse um deles.

Não existe um único exame de sangue para diagnosticar sepse. A contagem de glóbulos brancos de Sam estava normal, e em casos de sepse, ela costuma estar alta (ou, em casos de sepse grave, muito baixa). Seu lactato, outro marcador de sepse, também estava normal.

Há um ditado na medicina: “Quando você ouvir passos de cascos, pense em cavalos, não em zebras”. Os sintomas de um paciente geralmente corroboram o diagnóstico mais plausível, não a possibilidade mais rara. Villiers Terblanche acredita que seu filho morreu de sepse, uma das principais causas de morte em hospitais e notoriamente difícil de diagnosticar.

Benjamin Miko, professor-assistente de doenças infecciosas na Universidade de Columbia, está preparado para testemunhar como perito no caso de Sam. O prontuário eletrônico alertou sobre a sepse de duas maneiras diferentes, disse-me ele, “então não cabe aos médicos dizer: ‘não queremos fazer um raio-X. Não queremos administrar antibióticos'”.

Mas o relatório da autópsia de Sam é inconclusivo quanto ao papel da sepse. De acordo com o Gabinete do Médico Legista da Cidade de Nova York, a causa primária da morte de Sam foi “hemorragia pulmonar de etiologia desconhecida”: ele sangrou maciçamente pelos pulmões, mas o legista não soube dizer o motivo.

Uma hemocultura coletada na segunda visita de Sam ao pronto-socorro não apresentou crescimento bacteriano, o que significa que, se Sam tinha uma infecção perigosa, ela ainda não era detectável em seu sangue. O coração de Sam, após a morte, estava aumentado, assim como seu fígado. Seu baço estava congestionado. Seu rim apresentava danos teciduais (o exame toxicológico de Sam deu negativo).

David Strayer, um patologista forense especialista e coeditor do livro de medicina “Rubin’s Pathology”, analisou os documentos médicos deste caso. Ele é pai de Reuben, o médico do pronto-socorro e blogueiro. Strayer não viu as lâminas de patologia, mas acredita que a sepse é uma causa improvável da morte de Sam. Ele acha que era um caso atípico, um paciente raro com um diagnóstico fora do comum: uma doença autoimune, um distúrbio de coagulação ou uma reação exagerada a algo que ingeriu ou bebeu.

Uma autópsia adicional realizada pela Cleveland Clinic sugeriu a possibilidade de síndrome inflamatória multissistêmica associada à covid-19. Sam teve covid-19 algumas semanas antes, embora o teste no hospital tenha dado negativo.

No geral, os exames de Sam apresentaram resultados anormais. Suas plaquetas, glóbulos vermelhos e hemoglobina estavam baixos. “Ele tem 20 anos. A contagem de glóbulos vermelhos não deveria estar baixa. Ele não menstrua. Ele não tem um ferimento grave”, disse Strayer. Seu sódio estava baixo. Sua glicose estava alta. Sua creatinina, que mede a função renal, estava “dentro dos limites normais”, mas alta para uma pessoa da sua idade. Seu exame de urina mostrou a presença de sangue e um aumento nos glóbulos brancos.

Os resultados dos exames de Sam “indicam que algo sério está acontecendo. E não está nada claro o que seja”, disse Strayer.

Mas como os médicos de emergência lidam com esse nível de complexidade em seus ambientes de alto volume e alta rotatividade? Deve-se esperar que acompanhem resultados de exames de sangue misteriosos por dias? Ou que liguem para os pacientes após a alta para saber como estão? A realidade da superlotação hospitalar faz com que os médicos relutem em insistir na internação quando os detalhes não parecem justificá-la.

Uma médica do pronto-socorro pode insistir que um paciente faça acompanhamento com um médico de atenção primária, disse Raven, da UCSF. Às vezes, ela mantém o paciente em observação ou para verificar novamente valores que possam ser preocupantes, acrescentou. No Mount Sinai Morningside, os médicos do pronto-socorro pediátrico, onde Sam foi tratado, não têm essa prerrogativa, disse Agyare em seu depoimento: “você precisa tomar uma decisão sobre eles. Ou internam ou recebem alta.”

Raven fez uma pausa durante nossa conversa. “Eu penso muito nisso. Nosso trabalho é meio perigoso”, disse ela. “Acho que todos nós tentamos esquecer isso quando começamos nosso turno todos os dias, mas coisas ruins podem acontecer. E cabe a você ser extremamente vigilante. E, até certo ponto, ter sorte, honestamente.”

O delírio se instala

Por volta das 22h30, após a troca de turno no hospital, Neil Makhijani, outro residente, substituiu Banerjee e passou pelo leito 36 para ver como Sam estava. Nesse momento, Charlie Sagner já havia terminado sua lição de casa e estava sentado ao lado dele, conversando. “Paciente reavaliado. Relata estar se sentindo melhor”, dizia o bilhete de Makhijani. Ele conversou com Sam sobre os resultados dos exames. Sam se sentiu mais tranquilo: “todos os exames de sangue deram normais”, escreveu ele aos pais.

Sam disse a Makhijani que estava pronto para ir para casa. “Acho que ele estava tipo, ‘Me tirem daqui'”, Charlie me contou. “Não havia nenhum sinal óbvio de que ele ainda não estivesse bem.” O médico receitou um segundo litro de soro e começou o processo de alta. No campo “diagnóstico”, ele repetiu a conclusão anterior: “síndrome viral aguda”.

O documento de alta dizia: “Se você desenvolver quaisquer sintomas novos ou agravamento dos sintomas existentes, ou se os sintomas que você ainda apresenta persistirem por mais tempo do que o combinado, você deve retornar imediatamente ao pronto-socorro”. O documento também indicava que Sam deveria consultar um médico de atenção primária. A frequência cardíaca de Sam ainda estava anormalmente alta, mas ele conseguia se alimentar e beber. Makhijani lhe deu um atestado médico informando que ele estaria pronto para retornar à escola na quarta-feira. Ele também entregou a Sam uma cópia dos resultados de seus exames laboratoriais, que Sam organizou em uma pilha sobre sua mesa.

Courtney Mangus, médica de emergência da Universidade de Michigan, enfatizou a importância de os médicos serem honestos com os pacientes quando não têm certeza de um diagnóstico. Essa honestidade pode ajudar os pacientes a superar o constrangimento de retornar ao médico pela terceira vez, disse ela, falando em termos gerais.

“Não acredito que ainda só tenho um vírus”, escreveu Sam aos amigos ao sair do hospital. “Que decepção. Achei mesmo que ia morrer.” Mais tarde naquela noite, ele escreveu para Kayla: “A primeira coisa que vou comer quando puder comer de novo é Chick-fil-A”.

Essa é a parte que assombra a família e os amigos mais próximos de Sam. Sam foi ao pronto-socorro porque se sentia mal. Depois, voltou, ainda pior. Os médicos disseram que ele estava com um vírus. Ele — e todos que o conheciam— acreditaram neles. “Eu fui com o Sam ao hospital e eles disseram que estava tudo bem”, Charlie me contou. “Então, eu não tinha muitos motivos para duvidar do que estava acontecendo, porque confiava que o hospital faria seu trabalho.” Em seus últimos dias, Sam estava em quarentena. Ele não queria que seus amigos pegassem o que ele tinha.

Na terça-feira, Sam acordou se sentindo um pouco melhor. Por mensagem de texto, perguntou aos pais o que deveria comer. “Bagels simples”, escreveu seu pai. “Frango é muito bom”, sugeriu sua mãe.

Naquela tarde, o delírio tomou conta dele. “Sinto falta da sociedade humana”, ele mandou uma mensagem para Kayla por volta das 19h. “Me convenci de que era o líder dos vikings”, escreveu. “Preciso parar de criar religiões. Me convenci de que tenho seguidores, todos debaixo das cobertas comigo.””KKKKK”, escreveu Kayla. E depois: “Aguenta firme, por favor”.

Na quarta-feira, os pais de Sam entraram em contato novamente. O pai perguntou: “como está o paciente?” e lembrou Sam de desejar feliz aniversário a Ben. Por mensagem de texto, Kayla começou a enviar desenhos de animais com corações nos olhos para Sam. A ausência dele a estava deixando ansiosa, escreveu ela, e ela precisava que ele se comunicasse mais.

“Vou verificar mais”, escreveu ele. “Prometo.” “Quando isso vai acabar?”, perguntou ela. “Falarei com você quando eu acordar de novo”, escreveu Sam.

Quando Sam não respondeu às suas mensagens na manhã de quinta-feira, Kayla ligou para Charlie, que informou a segurança do campus.

Os depoimentos no caso Terblanche contra Mount Sinai Morningside começaram em janeiro de 2025. VT sempre comparece. Ele sabe que é ingenuidade, mas gostaria que alguém na sala deixasse de lado a defensiva e assumisse a responsabilidade pelo que aconteceu com Sam. Os médicos do Mount Sinai Morningside estão bem preparados. Suas respostas são cautelosas e objetivas.

VT considera algumas dessas sessões tão angustiantes que tira o dia seguinte de folga e pedala 95 ou 110 quilômetros. Ele chama isso de seus “passeios de bicicleta antidepressivos”.

Para Louise também, as manobras legais são de partir o coração. Cada depoimento —relatado por seu marido, que toma notas detalhadas— traz de volta as lembranças do dia em que ela ficou parada no canto do quarto de Sam, segurando seu travesseiro enquanto seus amigos arrancavam seus pôsteres das paredes. A imagem da última semana de Sam está se tornando mais nítida aos poucos.

“O fato de todos nós acharmos que isso era evitável é simplesmente horrível”, ela me disse. “E também, quer dizer, acho que nunca saberemos do que ele morreu. Não sabemos qual era a infecção. Talvez fosse algo terrível e talvez ele tivesse morrido de qualquer maneira. Mas o fato de ele ter morrido sozinho, sem ajuda… isso, para mim, é difícil.”

Louise sente falta de sua comunidade em Abu Dhabi e, em Croton, dedicou-se à jardinagem. “Não conseguia parar de plantar”, disse ela. “Quero que as abelhas venham.” Ela acredita que uma colônia de abelhas próspera seria uma homenagem apropriada a Sam, seu filho ambientalista. Conforme os depoimentos continuam até o outono de 2025, VT deixará a Latham & Watkins.

Ele está em busca de uma nova carreira que honre Sam, talvez na área de conscientização sobre sepse e segurança do paciente, talvez com um trabalho paralelo lecionando direito “em alguma faculdade tranquila”, como me disse. Ele está se aposentando mais cedo do que pretendia, mas a morte de Sam o transformou demais para que ele continue em sua trajetória.

Em agosto, Ben Terblanche foi para a faculdade. Quando conversei com ele na primavera passada, ele comentou sobre a empolgação que sentia “para descobrir quem eu sou agora, para ter conversas e pensar em coisas além disso”. Ele ficou devastado com a morte do irmão. “Conversei com ele sobre tudo”, Ben me disse. A perspectiva de uma nova cidade com pessoas diferentes lhe deu uma sensação de possibilidade.

E então, em setembro, quase exatamente dois anos após a morte de Sam, Ben adoeceu. Seus pais o aconselharam a ir ao serviço de saúde estudantil, onde ele foi diagnosticado com faringite estreptocócica e recebeu antibióticos. Mas “ele continuou piorando”, VT me contou, “então ele voltou. E eles o examinaram novamente e disseram: ‘OK, isso é mais sério'”.

O serviço de saúde estudantil o encaminhou ao pronto-socorro urbano de grande porte da região.

No fim, Ben ficou bem, a equipe do pronto-socorro foi competente e eficiente. Drenaram um abscesso em sua amígdala e o mandaram para casa. Mas antes da alta, enquanto o tratamento ainda estava em andamento, Ben enviou uma selfie para os pais: ele estava deitado em uma maca, conectado a máquinas e tubos. Era uma réplica assustadora de uma foto que Sam havia enviado dois anos antes. “Nós dois entramos em pânico”, disse VT. “Isso é irracional e paranoico. Só estou contando como me senti. Meu Deus, não podemos —alguma coisa não pode— acontecer com o outro filho.”



Fonte.:Folha de S.Paulo

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