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- Author, Redação
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O Cartel Jalisco Nova Generação (CJNG) controla a maior parte do dinheiro, das armas, do contingente e das drogas no México.
Em menos de uma década, o grupo conseguiu se transformar em uma poderosa máquina criminosa, com ramificações que se estendem por todo o continente americano, ultrapassando organizações historicamente dominantes, como o Cartel de Sinaloa.
Seu principal negócio tem se concentrado no envio de heroína, cocaína, metanfetamina e fentanil para os Estados Unidos, de acordo com autoridades em Washington.
O grupo também é acusado de comercializar anfetaminas na Europa e já teve conexões identificadas com o tráfico de drogas na Ásia.
O CJNG não é apenas o mais poderoso em termos militares e de presença territorial no México, onde continua a se expandir, mas também é “extremamente poderoso nos mercados criminosos em que opera: não apenas na produção e tráfico de drogas, mas também em esquemas de extorsão em regiões agrícolas e de mineração do México”, explicou David Mora, analista sênior no México do International Crisis Group e pesquisador sobre crime organizado, à BBC News Mundo — o serviço em espanhol da BBC.
Como surgiu o CJNG
O CJNG surgiu como um braço armado local do poderoso cartel de Sinaloa. Sua existência foi documentada pela primeira vez em 2007, com uma missão de proteger as áreas de influência do grupo em Jalisco.
O grupo foi criado por Ignacio Coronel, “El Nacho”, um dos principais operadores financeiros do cartel de Sinaloa e associado de Joaquín “El Chapo” Guzmán, que também havia trazido para a região outro grupo conhecido como Cartel do Milênio.

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Naquela época, seus principais rivais na região eram os Los Zetas, um grupo violento — que também surgiu como braço armado de outro cartel, o do Golfo — com quem disputavam o controle de Jalisco.
Mas eles se depararam com um braço armado criado por “El Nacho”, que ganhou o nome de “Mata Zetas” (Matadores de Zetas) devido ao derramamento de sangue.
O grupo ganhou destaque em setembro de 2011, quando 35 corpos apareceram na avenida principal da cidade turística de Boca del Río, em Veracruz. Os Mata Zetas reivindicaram a autoria do massacre em um vídeo divulgado nas redes sociais.
Naquele momento, eles já haviam rompido com seus antigos aliados do Sinaloa.
“El Nacho” havia morrido um ano antes em um confronto com as forças de segurança, e sua morte abriu espaço para que “El Mencho”, que até então fazia parte do Cartel do Milênio, assumisse o controle e passasse a enfrentar seus antigos aliados na região montanhosa de Sinaloa.
Como ‘El Mencho’ assumiu o controle
“El Mencho” conseguiu chegar até o topo do narcotráfico mexicano partindo de uma das camadas mais baixas da hierarquia.
Nos primeiros anos, ele fazia parte do círculo de proteção do traficante Armando Valencia Cornelio, conhecido como “El Maradona”, um dos líderes do Cartel do Milênio, também chamado de Cartel dos Valencia.
Mais tarde, consolidou sua posição dentro do grupo ao se casar com uma das irmãs do líder do clã.
Antes disso, Oseguera Cervantes, nascido na região de Tierra Caliente, em Michoacán, havia sido policial em um município de Jalisco.
Sua entrada para a polícia ocorreu após ser deportado dos Estados Unidos — para onde havia imigrado com sua família na década de 1980 — por envolvimento com tráfico de drogas.

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Quando o líder do Cartel do Milênio foi detido, o grupo se dividiu em duas facções rivais.
“El Mencho” liderou uma delas, os Mata Zetas, que conseguiu se impor e, anos depois, passou a se chamar Cartel Jalisco Nova Generação (CJNG).
O CJNG deixou de ser uma quadrilha local dos Estados de Jalisco e Colima para se tornar uma organização presente em mais da metade do território mexicano.
O que mais surpreendeu os especialistas foi a rapidez com que o grupo ascendeu ao poder.
Em apenas cinco anos, destronou o poderoso Cartel dos Cavaleiros Templários, que controlavam o sul de Michoacán, e expulsou os Zetas do norte de Jalisco, conquistando parte do território vizinho de Zacatecas.
E isso era apenas o começo. Nos anos seguintes, o CJNG expandiu sua presença pelo país e, o mais importante, conseguiu disputar o mercado de drogas sintéticas com grupos maiores e mais antigos, como o Cartel de Sinaloa.
O cartel de Sinaloa passou por uma crise interna após a terceira captura e extradição para os Estados Unidos de Joaquín Guzmán Loera, o “El Chapo”.
O CJNG aproveitou o momento para disputar o mercado com seus adversários e chegou a sequestrar, em Puerto Vallarta, dois dos filhos de “El Chapo” — Iván Archivaldo Guzmán Salazar e Jesús Alfredo Guzmán Salazar —, que foram libertados poucas horas depois.
A partir desse episódio nasceu o CJNG, e a carreira criminosa de “El Mencho” acelerou de forma decisiva.
Como o CJNG cresceu
Há várias razões por trás do crescimento meteórico do grupo.
Uma delas é a captura de muitos dos principais líderes de carteis rivais, o que, em alguns casos, levou à divisão desses grupos ou até à sua extinção, como aconteceu com o Cartel dos Cavaleiros Templários no Estado de Michoacán.
O Cartel Jalisco Nova Geração aproveitou a lacuna deixada por seus concorrentes para ocupou o espaço.
Outra razão foi que o CJNG recrutou especialistas em finanças e químicos capazes de criar novas fórmulas para a produção de drogas sintéticas.
A violência do cartel também foi um fator fundamental.
Nas últimas décadas, as autoridades apontaram “El Mencho” como um personagem extremamente perigoso, com grande poder de fogo. Especialistas no tema afirmam que ele cresceu justamente à custa de “triturar” seus grupos rivais.
Os interesses do CJNG e de seu líder não se restringiram ao narcotráfico.
Eles aproveitaram o boom econômico da pecuária, agricultura e construção em Jalisco para criar negócios nesses setores, criando formas para lavar o dinheiro oriundo do tráfico de drogas.

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O CJNG também se destacou pelo seu poder de corrupção sobre autoridades locais e alfandegárias.
Isso facilita a entrada de substâncias químicas iniciais para a fabricação de drogas sintéticas pelos portos da costa oeste do México, segundo especialistas em narcotráfico.
Outra fonte de renda do grupo tem sido a extorsão de pequenas e médias empresas na região oeste do país.
O grupo conseguiu se expandir não apenas pela maioria dos Estados mexicanos, onde mantém presença própria ou alianças, mas também em diversas países.
De acordo com a Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), o Cartel Jalisco Nova Geração está presente em mais de 40 países.
O grupo também mantém, segundo a DEA, uma vasta operação de lavagem de dinheiro por meio de seu braço financeiro, “Los Cuinis”, liderado pelo cunhado de “El Mencho”, Abigael Sánchez Valencia.
Segundo a agência americana, esse grupo seria dedicado a supervisionar “a diversificada rede de operações de lavagem de dinheiro do cartel para repatriar lucros ilícitos do narcotráfico para o México”, e afirma que eles utilizam “redes chinesas de lavagem de dinheiro, corretoras de criptomoedas, contrabando de grandes quantias em dinheiro vivo, lavagem de dinheiro baseada no comércio e outros métodos para lavar lucros ilícitos relacionados ao narcotráfico”.
Esse grupo seria responsável por supervisionar “a diversa rede de operações de lavagem de dinheiro do cartel, repatriando para o México os lucros obtidos com drogas ao redor do mundo”.
Para isso, segundo o órgão americano, eles utilizam “redes chinesas de lavagem de dinheiro, trocas de criptomoedas, contrabando de dinheiro em espécie, lavagem de dinheiro baseada no comércio e outros métodos para legalizar os ganhos ilícitos relacionados ao tráfico”.
O que pode acontecer agora sem ‘El Mencho’
A morte do líder do grupo levanta agora uma série de perguntas sobre quem poderá sucedê-lo e se outros grupos se aproveitarão desse vácuo de poder para tentar ocupar o seu lugar.
“A grande pergunta é: nas próximas semanas e meses, como o cartel vai se reorganizar internamente e nas disputas que mantém contra grupos locais menores em diferentes Estados?”, observa o pesquisador David Mora.
Desde 2022, surgiram rumores sobre a saúde de “El Mencho”, e chegou-se a noticiar em algumas ocasiões que ele havia morrido.
Alguns especialistas acreditam que “El Mencho” provavelmente já não estava diretamente à frente das operações do CJNG quando foi morto neste domingo.
Mas ele também não tinha sucessores claros.
Um de seus filhos, Rubén Oseguera González, considerado o segundo em importância do grupo e conhecido como “El Menchito”, foi extraditado em 2020 do México para os EUA, no que foi classificado como um dos golpes mais duros contra a organização até a morte de seu pai.
“El Mencho” nunca permitiu que nenhuma das inúmeras alianças e células criminosas com as quais Jalisco operava se fortalecesse o suficiente para desafiar seu poder central, explica David Mora.
“Portanto, não há clareza absoluta — nem por laços de sangue, nem por laços familiares, nem por conexões — que nos permita ver quem será o próximo. Esse realinhamento em Jalisco é uma grande incógnita. E esses processos de reorganização geralmente vem acompanhados por tensão e também por violência”, observa o especialista do International Crisis Group.
Embora a onda de violência que se observa atualmente nas ruas do México possa “passar rápido”, o especialista acredita que nos próximos dois meses se veja como os grupos rivais reagirão às ações do CJNG e como o próprio cartel se reorganizará após a morte de “El Mencho”, o que poderá desencadear uma luta interna pelo poder.
“E se a história serve de exemplo, a mera decapitação de um cartel não significa a extinção da organização”, alerta David Mora.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


