Quando as negociações entre os Estados Unidos e o Irã terminaram pouco antes do amanhecer deste domingo (12), sem um cessar-fogo permanente, os americanos disseram que haviam feito sua melhor oferta final e que o Irã não a havia aceitado.
“Deixamos muito claro quais são nossos limites, o que estamos dispostos a acomodar e em que não estamos dispostos a ceder”, afirmou o vice-presidente J. D. Vance após 21 horas de reuniões com altos funcionários iranianos no Serena Hotel, em Islamabad, capital paquistanesa.
Vance não disse quais eram os limites. Nos dias que antecederam as negociações, ambos os lados divulgaram declarações públicas indicando que continuavam distantes em várias questões críticas. Eles nem sequer concordaram se a trégua de duas semanas firmada na terça-feira (7) se aplicava aos combates no Líbano —uma divergência que quase inviabilizou o encontro.
No início de domingo, três principais pontos de impasse permaneciam, segundo dois funcionários iranianos que tiveram contato com as negociações: a reabertura do estreito de Hormuz; o destino de cerca de 900 libras (cerca de 400 quilos) de urânio altamente enriquecido; e a exigência do Irã de que aproximadamente 27 bilhões de dólares (cerca de R$ 135 bilhões) em receitas congeladas no exterior fossem liberados.
Os Estados Unidos exigiram que o Irã reabrisse imediatamente o estreito para todo o tráfego marítimo. Mas o Irã se recusou a abrir mão de sua vantagem sobre esse ponto estratégico crucial para petroleiros, afirmando que só o faria após um acordo de paz final, segundo os dois funcionários iranianos, que falaram sob condição de anonimato.
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O Irã também buscou reparações pelos danos causados por seis semanas de ataques aéreos e pediu que receitas de petróleo congeladas no Iraque, Luxemburgo, Bahrein, Japão, Qatar, Turquia e Alemanha fossem liberadas para a reconstrução, disseram os funcionários. Os americanos recusaram esses pedidos.
Outro ponto de discórdia foi a exigência do presidente Donald Trump de que o Irã entregasse ou vendesse todo o seu estoque de urânio enriquecido próximo ao nível usado em armamento nuclear. O Irã apresentou uma contraproposta, mas as partes não conseguiram chegar a um compromisso, disseram os funcionários.
“Quando duas equipes sérias com intenção de fechar um acordo se sentam à mesa, tem que haver um ganho para ambos. É irrealista pensar que podemos sair disso sem fazer concessões significativas; o mesmo vale para os americanos”, disse Mehdi Rahmati, analista em Teerã, em entrevista por telefone.
Embora as reuniões tenham terminado sem acordo, o simples fato de terem ocorrido já foi visto como um sinal de progresso. Apenas seis semanas antes, os Estados Unidos e Israel haviam matado o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em um ataque aéreo, e autoridades iranianas prometeram vingar sua morte. Na época, a perspectiva de qualquer reunião de alto nível entre autoridades iranianas e americanas parecia remota.
Ainda assim, Mohammad Baqer Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e influente comandante militar, liderou a delegação iraniana e se reuniu pessoalmente com Vance. Os dois apertaram as mãos, e as conversas foram descritas como cordiais e calmas, segundo dois altos funcionários iranianos que tiveram contato com as negociações. Embora não tenha havido um avanço diplomático, um tabu — moldado por décadas de hostilidade, retórica agressiva e pedidos de “morte à América” no Irã— foi quebrado.
O encontro entre Vance e Ghalibaf foi o contato presencial de mais alto nível entre representantes do Irã e dos Estados Unidos desde o rompimento das relações diplomáticas em 1979, após a Revolução Islâmica. Pouco depois, os novos governantes do Irã invadiram a embaixada dos EUA e fizeram diplomatas americanos reféns.
“Estas são as conversas diretas mais sérias e prolongadas entre os EUA e o Irã, e refletem a intenção de ambos os lados de encerrar esta guerra”, disse Vali Nasr, professor e especialista em Irã da Universidade Johns Hopkins. “E houve claramente um impulso positivo para que as negociações durassem tanto tempo sem colapsar.”
Fonte.:Folha de S.Paulo


