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- Author, Juan Francisco Alonso
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 7 min
Donald Trump é um grande fã de escudos.
Quase um ano depois de apresentar seu Domo de Ouro, um sofisticado sistema de defesa antimíssil que custará US$ 175 bilhões e deverá entrar em funcionamento em 2029, o presidente dos EUA anunciou sua intenção de lançar o Escudo das Américas.
O presidente republicano confiou a tarefa de executar o projeto, descrito por Washington como “uma nova iniciativa de segurança no Hemisfério Ocidental”, a Kristi Noem, que ele exonerou do cargo de Secretária de Segurança Interna nesta quinta-feira.
“O Hemisfério Ocidental é absolutamente crucial para a segurança dos EUA”, declarou Noem em sua conta X (antiga conta do Twitter), onde agradeceu a Trump por nomeá-la “Enviada Especial para o Escudo das Américas”.
A iniciativa está sendo lançada neste sábado (7/3), com uma cúpula em Miami, na Flórida, com a presença de Trump e de líderes de 12 países da região que ele convidou para aderir ao seu plano, todos alinhados a ele em termos ideológicos.

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O que se sabe
Ao contrário do Domo de Ouro, o chamado Escudo das Américas não tem como objetivo repelir mísseis, drones ou outras ameaças militares contra o território ou os interesses dos EUA. Em vez disso, está voltado para o combate ao narcotráfico, ao crime organizado e à imigração irregular, segundo as autoridades americanas.
“Espero trabalhar (…) para desmantelar os cartéis que inundaram nossa nação com drogas e mataram nossos filhos e netos”, declarou Noem, cujas responsabilidades e deveres daqui para frente não estão totalmente claros.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ecoou esses sentimentos, afirmando: “O presidente conversará com os líderes desses países, que formaram uma coalizão histórica para trabalhar juntos contra os cartéis de drogas criminosos e a imigração ilegal em massa”.
As declarações sugerem uma busca por acordos para fortalecer a cooperação policial no combate ao crime organizado, o que poderia levar a operações conjuntas como as realizadas recentemente pelas forças americanas e equatorianas em outras partes da região, previu o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) em um relatório.
No entanto, a ausência notável dos presidentes do México e da Colômbia, Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro, respectivamente, na cúpula da Flórida levanta suspeitas sobre a eficácia da iniciativa.
O México compartilha uma fronteira de 3 mil quilômetros com os EUA, e uma parcela significativa das drogas e dos migrantes que entram no país irregularmente passa por ela, sem mencionar os poderosos cartéis e grupos criminosos que operam em seu território.
Por sua vez, a Colômbia é um dos maiores produtores de drogas do mundo.
“Esta é uma conferência focada em novos parceiros de segurança para os EUA”, explica Carlos Solar, especialista em segurança e defesa na América Latina do Royal United Services Institute (RUSI) no Reino Unido, à BBC News Mundo, serviço de notícias da BBC em espanhol.

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O especialista chileno acredita que a cúpula tem um viés ideológico: os 12 líderes convidados são de direita e apoiaram Trump ou foram apoiados por ele em algum momento.
No entanto, Solar insiste que o objetivo de Washington é outro.
“Os países que foram convidados ou aceitaram o convite não têm a mesma relação de segurança com os EUA que o México e a Colômbia historicamente tiveram”, aponta.
“Por exemplo, a Argentina se aproximou muito mais da China na última década, e a Bolívia agora tem um presidente disposto a colaborar com os EUA depois de mais de uma década de governos do MAS [Movimento ao Socialismo]”, acrescenta o especialista.
Ainda assim, alguns acreditam que a exclusão do México e da Colômbia é temporária e não pode ser mantida indefinidamente.
“O escudo de Trump precisará da Colômbia e do México”, afirma Juan Luis Manfredi, professor de Jornalismo e Estudos Internacionais da Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha) e da Universidade de Georgetown (EUA).
“A ausência do México e da Colômbia pretende destacar uma diferença e deixar claro que existem países menos comprometidos, até o momento, com esse escudo”, aponta ele.
“No caso da Colômbia, o argumento pode ser eleitoral, já que as eleições presidenciais estão se aproximando; e no caso do México, porque um relacionamento mais próximo pode ser construído fora do escudo”, afirma.
Mas o narcotráfico e a imigração podem não ser os únicos temas incluídos no plano.
“Não se deve descartar que questões de segurança mais gerais, como a situação do Canal do Panamá ou do Estreito de Magalhães, sejam apresentadas na cúpula”, alerta Solar.
Assim como tentou anexar a Groenlândia, ao retornar à Casa Branca, Trump levantou a possibilidade de retomar o controle do Canal do Panamá, após denunciar as “taxas exorbitantes” cobradas dos navios americanos e alegar que a China controla a hidrovia.

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Nova ordem
O fato de esta cúpula estar sendo realizada quatro meses após o adiamento da 10ª Cúpula das Américas é, segundo os especialistas consultados, mais um sinal de que Trump está determinado a alterar a ordem internacional vigente.
“Trump não está utilizando os canais regulares do multilateralismo, mas sim optando por formar novos grupos onde se sinta cercado por pares e indivíduos com ideias semelhantes”, indica Solar.
Manfredi lembra que, em janeiro passado, Trump retirou os EUA de três organizações regionais (o Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudanças Globais, o Instituto Pan-Americano de Geografia e História e a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe).
Além do viés ideológico, outro motivo pelo qual alguns duvidam da eficácia da proposta de Trump é a saturação do hemisfério com organizações e iniciativas regionais.
“Atualmente, existem mais de 40 organizações e entidades — incluindo blocos comerciais, órgãos políticos formais e entidades sub-regionais — específicas para as Américas”, alertou o especialista em relações internacionais Adam Ratzlaff em um artigo.
Ratzlaff, fundador da consultoria Pan-American Strategic Advisors, advertiu que organizações movidas por motivações ideológicas tendem a desaparecer, citando como exemplo a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), promovida pelo falecido presidente venezuelano Hugo Chávez no início dos anos 2000.

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De olho na China
Especialistas acreditam que o Escudo das Américas também tem outro objetivo não declarado: conter a expansão chinesa na região.
“A doutrina de segurança nacional busca estabelecer uma barreira contra potências adversárias e, embora não seja explicitamente declarada, é claramente direcionada à China”, afirma Solar.
Manfredi ecoa esse sentimento, afirmando: “O Escudo das Américas visa reduzir, ou pelo menos mitigar, o impacto dos investimentos chineses na região.”
O comércio entre a América Latina e a China tem aumentado constantemente nos últimos anos.
Em 2024, a troca de bens e serviços atingiu um recorde de US$ 518 bilhões.
A China é atualmente o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo mais importante para a América Latina como um todo, depois dos EUA, de acordo com o Conselho de Relações Exteriores (CFR).
Além disso, Pequim emprestou mais de US$ 120 bilhões a governos em todo o Hemisfério Ocidental, informou o CSIS. A região contém inúmeros recursos naturais de interesse tanto para os EUA quanto para o gigante asiático.
O CSIS não descarta a possibilidade de que o acesso aos recursos naturais dos países convidados e os compromissos de investimento sejam firmados durante a reunião em Miami.

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Especialistas também sugerem que o escudo é mais um passo na implementação da Doutrina de Segurança Nacional que Washington publicou em dezembro passado.
Ela anunciou que os EUA buscariam “restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental” e retratou a China como “uma economia predatória”.
“A Doutrina Donroe é ofensiva, enquanto a Doutrina Monroe era defensiva e protetiva contra invasões de potências coloniais”, explica Manfredi.
“A nova perspectiva trumpista considera a América Latina como um espaço que precisa ser apoiado, defendido e protegido por meio do poder político, incluindo influência nos processos eleitorais e apoio a certos atores, mas sobretudo por meio da geoeconomia”, indica ele.
Solar alerta que o conteúdo do documento deve ser levado a sério.
“A captura de Nicolás Maduro deixou claro para muitos de nós que a doutrina será aplicada por meio de ações concretas na região”, conclui ele.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


