9:29 AM
30 de novembro de 2025

Está relampeando em Marte – 30/11/2025 – Mensageiro Sideral

Está relampeando em Marte – 30/11/2025 – Mensageiro Sideral

PUBLICIDADE


Era esperado que acontecesse, mas até agora ninguém havia conseguido detectar atividade elétrica na atmosfera de Marte. Para quem vive num planeta com atmosfera, como o nosso, não chega a ser surpreendente que relâmpagos existam em outros mundos com características similares. E já sabíamos que os gigantes gasosos, como Júpiter e Saturno, com seus enormes invólucros de ar, tinham poderosos relâmpagos e tempestades, registrados por sondas como indiscretos flashes de luz na atmosfera.

Marte, contudo, tem uma atmosfera muito mais rarefeita e com pouquíssima presença de água. Apesar disso, os cientistas planetários especulavam que o planeta deveria ter alguma atividade elétrica, embora jamais a tivessem observado. Por sinal, um equipamento colocado na sonda de pouso europeia Schiaparelli teria como um de seus objetivos fazer essa detecção, mas a espaçonave se espatifou na superfície do planeta em 2016, sem obter qualquer resultado.

Agora, um grupo de pesquisadores liderado por Baptiste Chide, do Instituto de Pesquisa em Astrofísica e Planetologia, em Toulouse, França, descobriu que o rover Perseverance, da Nasa (agência espacial americana), acabou registrando o fenômeno com um microfone, originalmente instalado nele para estudar os ventos marcianos.

Não imagine nada como os grandes trovões que ouvimos aqui na Terra com frequência. Esses eventos estão mais para estalidos de eletricidade estática, gravados ao longo de 28 horas de ativação do microfone, distribuídas por um período de aproximadamente dois anos marcianos (tenha em mente que o ano marciano dura 687 dias terrestres, de modo que estamos falando de quatro anos do calendário terrestre).

O importante é que as gravações revelaram 55 desses estalidos, em geral associados a momentos em que os ventos estavam mais intensos. Isso leva os estudiosos a especular que há uma relação direta entre as duas coisas –vento mais intenso levanta mais poeira na atmosfera, as partículas atritam mais umas com as outras e transferem elétrons, que eventualmente acumulam potencial suficiente para formar pequenos arcos elétricos, com uns poucos centímetros ou milímetros, produzindo uma onda de choque detectável pelo microfone.

Esse acúmulo de eletricidade estática pelo mesmo mecanismo é comum em desertos na Terra, mas não costuma ter potencial suficiente para criar descargas elétricas. Em Marte, com a pressão atmosférica baixa e sua composição em que predomina o dióxido de carbono, a quantidade que precisa ser acumulada para resultar em uma descarga é bem menor, o que torna esses eventos bastante comuns.

A descoberta vai além da mera curiosidade científica. A compreensão desses processos elétricos na atmosfera marciana é importante para entender os mecanismos pelos quais moléculas orgânicas se destroem com tanta facilidade na superfície (há muita coisa agindo contra elas lá, da radiação ultravioleta do Sol aos percloratos na composição do solo, e as descargas elétricas entram como mais um item nessa lista). Além disso, a caracterização do fenômeno pode ser importante na concepção de missões robóticas e trajes espaciais para astronautas que sejam mais resilientes a esses efeitos.

Após anos de especulação e teoria, o primeiro passo para o estudo observacional desse fenômeno está dado com o estudo de Chide e seus colegas, publicado na última edição da revista Nature.

Siga o Mensageiro Sideral no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.





Fonte.:Folha de S.Paulo

Leia mais

Rolar para cima