Os Estados Unidos têm interesse em processar minerais críticos no Brasil. A afirmação é de Caleb Or, secretário de Estado adjunto para Assuntos Econômicos, Energéticos e Comerciais, em entrevista a jornalistas na tarde desta quarta-feira (11).
Segundo Or, os norte-americanos veem o Brasil como um parceiro estratégico para o desenvolvimento de minérios críticos, matérias-primas cruciais para tecnologias relacionados à transição energética e à defesa, entre outros usos.
O país possui uma grande reserva da matéria-prima, mas faltam recursos financeiros suficientes para custear o desenvolvimento da cadeia produtiva deles no país, incluindo o refino. Em alguns casos, falta também capacidade tecnológica. Por isso, um apoio dos EUA é bem visto pelo setor e por alguns integrantes do governo Lula.
A declaração do secretário americano ocorre poucos dias após uma reunião ministerial sobre minerais críticos, realizada na semana passada e que contou com a participação de 55 países.
Os Estados Unidos têm buscado expandir sua reserva de minerais críticos a fim de reduzir a dependência da China, que detém a maior parte dessas reservas no mundo.
No evento da semana passada, o secretário do Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou que a formação de um bloco comercial internacional é essencial para evitar que crises ou monopólios interrompam as cadeias de suprimentos.
Apesar da presença brasileira na reunião, não há confirmação sobre a assinatura de algum acordo nessa área.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já afirmou que o país discute a exploração de minerais críticos, mas que o objetivo não é apenas permitir que outros países explorem suas reservas, e sim investir no processamento local desses materiais.
Caleb Or lembrou que os Estados Unidos já financiam dois projetos no país: um relacionado à mineradora Serra Verde e outro à Aclara. “O Brasil tem reservas ricas, especialmente em terras raras”, disse.
O secretário destacou que o processamento desses minerais é ainda mais concentrado globalmente do que a mineração em si. “Os Estados Unidos estão buscando soluções ‘ganha-ganha’ para diversificar o mercado de processamento e torná-lo mais distribuído globalmente”, afirmou.
Ele acrescentou que, devido às altas concentrações de terras raras no Brasil e aos financiamentos já realizados, o país seria um próximo passo natural para incentivar o processamento local.
O interesse americano nas reservas brasileiras não é novo, mas ganhou força no ano passado, em meio às tarifas impostas pelo governo Trump sobre produtos brasileiros. Desde então, membros do governo Lula já se encontraram com autoridades norte-americanas, mas nenhum acordo oficial foi firmado.
Nos bastidores, fontes afirmam que o Brasil só aceitaria garantir o fornecimento de minerais críticos aos EUA se houvesse a garantia de processamento local, algo que, até o momento, não foi formalmente assegurado pelo governo americano. A União Europeia, por exemplo, tem se comprometido a apoiar mineradoras brasileiras com projetos no país.
Enquanto um acordo oficial não é fechado, os EUA avançam por meio de contratos diretos com mineradoras brasileiras, sem intermediação do governo.
O DFC, banco estatal americano, garantiu financiamento às mineradoras Serra Verde e Aclara, em contratos que permitem ao banco deter participação acionária nas empresas.
Na semana passada, a Serra Verde anunciou que receberá US$ 565 milhões do DFC para ampliar suas operações no norte de Goiás. Controlada por dois fundos americanos e um britânico, a empresa é a única mineradora de terras raras em operação no Brasil e considerada estratégica globalmente por estar fora da China.
Por enquanto, a Serra Verde não planeja avançar na cadeia de processamento de terras raras, essenciais para ímãs usados em carros elétricos e equipamentos de defesa. Já a Aclara, que ainda não iniciou operações, se comprometeu no ano passado a abrir uma planta de processamento nos EUA, com minerais provenientes de uma mina no norte de Goiás.
Fonte.:Folha de S.Paulo


