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- Author, Natasha Lindstaedt
- Role, The Conversation*
Em 1946, o então primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) anunciou que uma “cortina de ferro” havia descido na Europa, “de Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático”.
Mas, desta vez, quem está construindo as barreiras é o Ocidente.
Todos os países europeus que fazem fronteira com a Rússia e Belarus, sua nação aliada, estão acelerando os planos de construção de centenas de quilômetros de fronteiras fortificadas para se defender contra uma possível agressão russa.
Finlândia
A Finlândia detém 1.339 km de fronteira com a Rússia.
Em 2023, o país propôs a construção de um muro que cobriria cerca de 15% da fronteira, ao custo de mais de US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,17 bilhões). A previsão é que ele esteja pronto até 2026.
A obra é motivada, em parte, pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, e também pelo aumento do número de cidadãos russos que fogem para a Finlândia para escapar do recrutamento militar.

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O governo finlandês aprovou uma lei em julho de 2023 que prevê a construção de cercas mais altas e fortes na fronteira. As cercas de madeira existentes até então foram projetadas apenas para evitar o cruzamento de animais.
Foram construídos oito postos de fronteira, incluindo ao norte do Círculo Polar Ártico, além de obstáculos maiores na faixa mais ao sul do país.
Existem defesas em construção até mesmo em áreas remotas do nordeste da Finlândia, onde, em um passado não muito distante, um fluxo constante de cidadãos russos e finlandeses cruzava a fronteira para fazer compras.
Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia
A Finlândia não é a primeira.
Em agosto de 2015, a Estônia anunciou a construção de uma cerca ao longo da sua fronteira leste com a Rússia após a anexação da Crimeia por Moscou no ano anterior.
Em 2024, a Polônia e os Estados bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) propuseram aumentar a fortificação de suas fronteiras com um muro de defesa. Ele teria 698 km de comprimento e custaria mais de 2 bilhões de libras (cerca de R$ 14,7 bilhões).
Os planos de construção estão, agora, sendo acelerados, já que os líderes dos países bálticos estão receosos com a perspectiva de que um cessar-fogo entre a Ucrânia e a Rússia possa fazer com que Moscou redirecione seu exército em sua direção.

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A Letônia irá investir nos próximos anos cerca de US$ 350 milhões (cerca de R$ 1,9 bilhão) para reforçar sua fronteira de 386 km com a Rússia.
Já a Lituânia planeja uma linha de defesa de 48 km contra uma possível invasão russa. E a Polônia começou a construir uma cerca permanente na sua fronteira com Belarus, como parte das suas defesas contra potenciais aliados de Moscou.
Esses muros serão acompanhados por outras barreiras físicas, como fossos antitanques, dentes de dragão de concreto de 15 toneladas (que podem impedir o avanço de tanques russos), pirâmides e blocos de concreto maciço, bloqueios em rodovias, fortes portões metálicos, campos minados e bloqueios em pontes.
A Lituânia planeja construir até 48 km de valas de recuperação (para drenagem de água), pontes preparadas contra bombardeios e árvores projetadas para cair sobre estradas em caso de necessidade.
Os Estados bálticos também estão construindo mais de mil bunkers, depósitos de munição e abrigos de suprimentos, para proteger ainda mais seus 966 km de fronteira com a Rússia.
Os bunkers devem ter cerca de 35 m². Eles serão capazes de abrigar até 10 soldados e suportar ataques de artilharia da Rússia.
As nações bálticas, ao lado da Finlândia e da Polônia, também anunciaram em 2025 sua retirada do tratado internacional de proibição de minas terrestres, de 1997.
A Lituânia também retirou seu compromisso com um tratado sobre bombas de fragmentação e a Polônia anunciou, em junho de 2025, a inclusão de campos minados aos seus planos de fronteira conhecidos como ‘Escudo Oriental’.

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Muro de drones
Estas defesas fronteiriças usarão a última tecnologia disponível, sistemas de alerta precoce e unidades de artilharia.
Em 2024, Lituânia, Letônia, Estônia, Polônia, Finlândia e Noruega se reuniram em Riga, na Letônia, para iniciar os planos de construção de um “muro de drones” com quase 3 mil quilômetros de extensão para proteger suas fronteiras.
Esse muro de drones terá uma rede de sensores que consiste de radares e instrumentos de guerra eletrônica. Seu objetivo é identificar e destruir drones russos.
Em questão de segundos após a detecção de um cruzamento de fronteira, haveria um sistema rigoroso de reconhecimento de drones.
Este projeto irá exigir alto grau de cooperação entre os Estados participantes.
Empresas da Estônia já estão projetando drones que possam detectar e neutralizar ameaças ao longo do complexo terreno que cobre a fronteira entre a Rússia e os Estados bálticos, com lagos, pântanos e florestas.
Paralelos históricos
A cooperação entre todos os países europeus que fazem fronteira com a Rússia e o conhecimento do terreno são fundamentais para evitar a repetição do fracasso da Linha Maginot, que fez parte de um conjunto de barreiras defensivas construído pela França ao longo das suas fronteiras, nos anos 1930.
A Linha Maginot não conseguiu evitar a invasão alemã na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Na ocasião, os franceses acreditavam que os alemães não conseguiriam atravessar a floresta de Ardennes, na Bélgica.

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As fortificações da Linha Maginot, de fato, fizeram os alemães repensarem seus planos de ataque, mas a Bélgica ficou vulnerável.
Atualmente, as nações europeias sabem que não podem evitar totalmente um ataque da Rússia. Mas talvez possam definir a natureza de uma eventual invasão.
O objetivo dessas barreiras é dissuadir e tentar controlar o local da incursão.
Os líderes das nações bálticas receiam que, se for anunciado um cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia, o Kremlin possa destacar tropas para suas fronteiras.
Os países vizinhos à Rússia estão tentando se preparar ao máximo possível para eventuais ações do presidente russo, Vladimir Putin, no futuro.
* Natasha Lindstaedt é professora do Departamento de Governo da Universidade de Essex, no Reino Unido.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL