No mesmo momento em que viajantes no aeroporto de Guarulhos são lembrados do limite de líquidos em bagagens de mão, a União Europeia festeja avanço tecnológico que permite o fim da restrição. Ou nem tanto, segundo concessionários e autoridades de diversos países do bloco. Como no caso brasileiro, o anúncio europeu não ocorre sem confusão.
A regra é clara e internacional. Apesar da onda de espanto nas redes sociais no Brasil, viajantes que embarcam na Europa e nos EUA enfrentam os mesmos limites impostos pela Anac desde 2019 na hora do raio X: frascos de até 100 ml reunidos devem ser reunidos em um saco plástico transparente com capacidade para até um litro. Em Berlim, por exemplo, a inspeção chega ao ponto de substituir o plástico se ele for de uma capacidade maior.
É assim em viagens internacionais desde 2006, quando autoridades americanas e europeias detectaram a possibilidade de líquidos serem usados durante o voo para a fabricação de explosivos. Foi uma das tantas normas impostas ao planeta pela TSA, a agência americana de segurança em transporte criada meses depois do 11 de Setembro.
Com o tempo, o limite acabou sendo relaxado em rotas nacionais ou quando os países envolvidos se entendiam em torno da conveniência da medida. Voos entre Brasil e Argentina e Chile, por exemplo, devem ser os únicos no mundo em que 12 litros de vinho podem ser distribuídos entre a bagagem de mão e a despachada.
Ainda que antiga, a regra começou a ser mais notada nos últimos anos, quando as grandes companhias aéreas, seguindo o padrão das low cost, passaram a cobrar por malas despachadas.
Na União Europeia, a novidade é a homologação de um novo tipo de equipamento de inspeção, um tomógrafo, semelhante aos utilizados em exames de saúde e hospitais. A tecnologia não é nova, mas estava pendente de aprovação há mais de ano em Bruxelas. O que ocorreu agora em julho é que o dispositivo foi finalmente liberado, passo festejado pelas autoridades de transporte do bloco. Só faltou combinar com os aeroportos.
Um acalorado debate público nas redes sociais, semelhante ao percebido no Brasil, se seguiu. Confrontava o discurso de Bruxelas ao cotidiano inalterado das inspeções de segurança em diversos países europeus. Apesar da liberação, não são todos os aeroportos que têm o equipamento e, os que têm, ainda não conseguem universalizar o serviço para todos os passageiros.
É o caso de Frankfurt, maior hub da Alemanha, que tem 40 tomógrafos para 160 linhas de inspeção. A Fraport, proprietária e operadora do aeroporto, anunciou que o limite de líquidos continuará sendo observado, já que não é possível prever qual fila o passageiro poderá pegar na inspeção. A empresa, que no Brasil tem a concessão do Salgado Filho, em Porto Alegre, e do Pinto Martins, em Fortaleza, também aguarda a homologação de outros fabricantes para não ficar refém da única marca autorizada até aqui.
Segundo a UE, os equipamentos existentes precisam de uma atualização de software, que torna as imagens mais precisas para os agentes de segurança. Esses aparelhos recertificados permitem um novo limite para os recipientes com líquidos, de dois litros. Não há prazo definido para a universalização da regra.
A ACI Europe, entidade que congrega os aeroportos europeus, comemorou a novidade, mas lamentou em comunicado que ela chegou tarde neste ano, quase no fim da alta temporada de verão no continente. O grupo notou que liberação parecida ocorreu em abril no Reino Unido, o que denota “ineficiências do processo europeu”.
“Não podemos continuar a depender de um sistema essencialmente baseado na cooperação de boa vontade entre os países-membros da UE”, disse Olivier Jankovec, diretor-geral da ACI.
Até segunda ordem, portanto, se o voo sair da Europa, a garrafa de vinho ou de azeite precisa voar na bagagem despachada. Ou na memória.
Fonte.:Folha de S.Paulo