Nada chacoalha mais o mundo da gastronomia que as listas, os rankings, as estrelas, as medalhas. Esse sistema é parte do que tornou o setor tão popular e desejado no mundo, mas é também gerador de uma cascata de problemas. Muitos perdem o juízo, a paz e até a vida por conta de premiações. Outros ganham rios de dinheiro e notoriedade.
Não é raro que ao longo de um único ano leiamos que diferentes vinhos, em diferentes momentos, são o melhor do mundo. Parte disso é um problema jornalístico, resultado da sanha por cliques, afinal, quem não quer saber qual vinho foi eleito o melhor entre todos feitos neste planeta? É claro que esse vinho não existe, e que mais correto seria dizer que o rótulo x é o melhor do concurso y. Mas aí teríamos menos apelo.
Assim como o 50 Best cresceu demais no mundo inteiro e virou o ranking mais respeitado dos restaurantes, há três anos é realizado, pelo mesmo grupo, o encontro do World’s Best Sommeliers (WBS), que culmina em uma lista de vinhos com a chancela da marca. Esses rótulos são chamados de “a seleção”, e chegam por indicações de alguns dos profissionais que chefiam o serviço de restaurantes da lista dos 50 melhores.
Uma vez por ano, os sommeliers se encontram e alguns dos vinhos indicados são reunidos para que, ao fim de um dia de debates e outro de provas, se feche a seleção. Os rótulos são divididos em seis lotes degustados por diferentes grupos de profissionais, evitando que se provem os vinhos do país de onde vêm. Depois, todos são dispostos numa feirinha para que todos vejam a seleção geral. Nada é às cegas e há informações cedidas pelas vinícolas à disposição a qualquer momento.
Além disso, os sommeliers discutem temas pertinentes ao mercado, que vão desde as bebidas sem álcool até a autonomia do sommelier em definir estilos e tendências. Do Brasil, neste ano, participaram Maíra Freire, do Lasai, no Rio; Danyel Steinle, do Nelita, e Thiago Frencl, do Tuju, em São Paulo.
Um vinho brasileiro, o paulista Casa Tés Grama Branco 2023, figura na seleção de 2026, que conta com 115 vinhos de 16 países, e tem sido chamado de o único brasileiro na lista dos melhores do mundo. É verdade que é o único brasileiro e que o rótulo é excelente. Mas dá para dizer que essa é a lista dos melhores vinhos do mundo? O que define um vinho como o melhor? Melhor para quem?
Já falei sobre o projeto da Casa Tés aqui na Folha. É fruto da paixão do casal Tessa Vieira e Pedro Testa, que compraram terras no chamado Vale da Grama (SP) e, depois de aventar a possibilidade de criar gado, descobriram o potencial vitivinícola do lugar, graças à técnica da dupla poda. O pulo do gato foi conseguir a consultoria informal de Pierre Lurton, membro de uma dinastia de Bordeaux e a cara de châteaux clássicos como o Cheval Blanc e d’Yquem.
Em poucos anos, a Casa Tés conseguiu fazer vinhos notáveis e já integrou a mesma lista do ano passado, com o tinto Casa Tés 2022. O escolhido deste ano já está esgotado. A produção é pequena, de boutique, e um dos efeitos da lista é justamente fazer as garrafas voarem. Ao que tudo indica, além disso, se continuar entrando em novas listas, outro efeito é o preço subir.
A maioria dos vinhos da World’s Best Sommeliers’ Selection é de italianos, com 20 rótulos (sendo 13 deles tintos), seguidos pelos portugueses, com 18. Depois vêm Estados Unidos (17), Espanha e Argentina (ambos com 12). Muitos deles estão no mercado brasileiro.
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Fonte.:Folha de São Paulo


