11:13 AM
25 de março de 2026

Existe uma epidemia de micropênis em crianças? Entenda vídeos que circulam nas redes

Existe uma epidemia de micropênis em crianças? Entenda vídeos que circulam nas redes

PUBLICIDADE



Ler Resumo

“Pais, prestem atenção no pênis de seu filho. Nós vamos entrar em uma geração de micropênis, porque as crianças estão com severas dificuldades na produção de testosterona na puberdade”.

É com esse discurso que, entre uma trilha sonora de suspense, o médico Renato Cariani aparece em um vídeo que já rendeu mais de 77 mil curtidas na plataforma TikTok.

O corte é um dos diversos conteúdos de médicos e influenciadores que têm bombado nas redes sociais sobre o tema. Segundo os vídeos, o mundo estaria vivendo uma “epidemia de micropênis” em crianças e, por isso, os pais deveriam conferir, em casa, as medidas das partes íntimas de seus filhos “antes que seja tarde”.

As publicações orientam que contar os centímetros seria importante por causa de uma “janela de oportunidade” que permitiria reverter a condição com a reposição de testosterona (mas somente antes dos 18 anos).

A situação descrita realmente assusta. Mas tem um porém: ela não tem embasamento científico.

Diante da avalanche de conteúdos sobre o assunto, quatro entidades médicas se uniram para divulgar uma nota conjunta que visa refutar e esclarecer esse fenômeno.

Em um posicionamento inédito, publicado nesta quarta-feira, dia 25, as sociedades brasileiras de Pediatria (SBP), Urologia (SBU), Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e de Cirurgia Pediátrica (CIPE) alertam que trata-se de uma notícia falsa e apontam que a saúde infantil fica em risco frente a intervenções sem indicação correta.

Umas das preocupações, segundo as sociedades, é que os conteúdos façam pais e responsáveis acreditarem que essa é uma condição comum ou que todas as suspeitas de um tamanho menor exigem tratamento hormonal.

Continua após a publicidade

O que dizem os vídeos

O micropênis é uma condição médica definida por um órgão que não se desenvolve adequadamente, sendo muito menor do que a média nacional. Segundo os conteúdos, esse quadro estaria cada vez mais comum, por diversos motivos, incluindo a alimentação das novas gerações.

Para que os responsáveis possam checar se há um caso na família, os posts que têm circulado nas redes orientam os pais a fazer uma medição caseira da genitália das crianças, comparando-a com uma tabela de valores referência para cada faixa etária.

Em seguida, as postagens dizem que, se nada for feito, o quadro persistirá por toda a vida. Além disso, elas afirmam que, uma vez atestado o tamanho abaixo da média, a solução para reverter o quadro seria administrar doses de testosterona nos pequenos.

Continua após a publicidade

Casos de micropênis estão aumentando?

Por outro lado, as entidades médicas atestam: “não existe epidemia de micropênis”, crava o urologista Roni Fernandes, presidente da SBU.

“As informações que circulam nas redes sociais não têm qualquer respaldo na medicina baseada em evidências e podem levar famílias a decisões perigosas”, avalia.

“O micropênis verdadeiro é uma condição rara“, atesta o endocrinologista Luiz Cláudio Gonçalves de Castro, coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da SBEM, para a VEJA SAÚDE.

Na nota, as sociedades ponderam, ainda, que o diagnóstico dessa condição é feito por meio de uma análise clínica criteriosa que inclui uma bateria de testes e o envolvimento de médicos de diferentes especialidades.

Por exemplo, essa avaliação deve englobar: “exame físico adequado, análise do histórico de saúde da criança, avaliação do desenvolvimento puberal e, quando indicado, exames laboratoriais e genéticos”, diz a nota.

Por isso, Fernandes também define o movimento nas redes como um ato de banalização de diagnósticos complexos e incentivo ao uso indevido de hormônios. O urologista reforça que esse abuso pode ser nocivo para a saúde das crianças, causando “consequências graves e irreversíveis”.

Continua após a publicidade

O perigo nas medições caseiras

Na nota das entidades, é esclarecido que a própria medição caseira do pênis apregoada nas redes é imprecisa.

“A medição do pênis não é um procedimento simples. Exige técnica adequada, ambiente clínico e profissionais treinados. Quando feita de forma incorreta, resulta em erros frequentes e interpretações equivocadas”, diz a urologista Veridiana Andrioli, que coordena o Departamento de Urologia Pediátrica da SBU.

Veridiana, inclusive, foi responsável por um estudo que constatou essa dificuldade. Na pesquisa, 48% dos responsáveis entrevistados disseram considerar o tamanho do órgão sexual dos filhos dentro da normalidade e 24% acreditavam que ele estaria abaixo da média.

No entanto, os médicos descobriram que as medições caseiras subestimavam o comprimento peniano, calculando entre 2,5 e 3 centímetros a menos. O problema é que a consequência desse erro pode ser a ansiedade desnecessária ou, pior, a busca por tratamentos indevidos propagados por médicos picaretas ou sem formação e especialização na área.

Os especialistas também explicam que o tamanho peniano tende a permanecer o mesmo dos quatro anos até a chegada da puberdade, quando começam as mudanças, geralmente.

“Então, um menino que ainda não entrou na puberdade terá ainda um pênis e os testículos com as mesmas características e tamanho dos anos iniciais da infância”, diz Veridiana.

Continua após a publicidade

Além disso, em algumas circunstâncias, devido às características do órgão ou do corpo da criança, como no excesso de peso, cria-se uma falsa sensação de que ele é pequeno demais.

É por isso que o presidente da SBP, Edson Liberal, orienta: “não se recomenda realizar medições em casa ou tomar qualquer decisão com base em informações de redes sociais”.

Reposição de testosterona na infância é arriscada

Um dos principais alertas das sociedades – que são respaldadas pela Associação Médica Brasileira (AMB) -, é sobre o uso indiscriminado dos tratamentos hormonais para crianças com o suposto micropênis.

As entidades esclarecem que a reposição de hormônios é uma ferramenta terapêutica segura, mas só quando existe a comprovação de uma deficiência, após investigação.

“O uso indevido de um hormônio, como a testosterona, em crianças sem diagnóstico rigoroso pode acarretar efeitos adversos irreversíveis, como aceleração da maturação óssea, comprometimento da estatura final, antecipação da puberdade e interferência no equilíbrio hormonal do organismo”, explica Castro.

Outro ponto é que, isoladamente, o tamanho do pênis não é critério para concluir se o órgão está ou não dentro dos padrões. “Diante de qualquer dúvida, uma avaliação médica especializada é a melhor opção. Qualquer tratamento só traz benefício diante de uma real necessidade”, afirma o presidente da CIPE, Fábio Antonio Perecim Volpe.

Por fim, as sociedades reiteram que a ideia de uma “janela de oportunidade” rígida, como é difundido nos vídeos que correm na web, é apresentada de forma distorcida ou simplista. E isso pode induzir as famílias a tomarem decisões precipitadas.

Devido à gravidade do fenômeno, as quatro sociedades irão acionar o Ministério da Saúde e o Ministério Público Federal para investigar irregularidades na prática médica e impedir ações que coloquem crianças saudáveis em risco.

Continua após a publicidade

Adolescência: 6 alertas da série da Netflix para os pais



Fonte.:Saúde Abril

Leia mais

Rolar para cima