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30 de maio de 2026

Êxito de resgate de ararinhas mantém dúvidas sobre futuro – 30/05/2026 – Ambiente

Êxito de resgate de ararinhas mantém dúvidas sobre futuro – 30/05/2026 – Ambiente

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Nos últimos anos, o Brasil se (mal) acostumou a ver cenas da Polícia Federal chegando de madrugada em residências de suspeitos de malfeitos para surpreendê-los. Uma operação cinematográfica realizada na última quarta (27) no sertão baiano repetiu esse script, mas, numa situação rara, os alvos do mandado de busca e apreensão eram 69 inocentes ararinhas-azuis (e duas araras maracanãs).

Ainda mais singular que o perfil da operação é a espécie que a motivou: a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), endêmica da caatinga brasileira, foi considerada extinta da natureza em 2000 e é uma das aves mais raras e cobiçadas do mundo.

Para isolá-las de um surto de circovírus, uma iniciativa conjunta entre o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a PF as retirou de um criadouro particular em Curaçá, na caatinga, e as transferiu para um centro de quarentena na Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), em Petrolina (PE).

Comandada pela bióloga Cláudia Sacramento, chefe da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio, a megaoperação durou 16 horas e contou com 40 pessoas, sendo 31 envolvidas diretamente na transferência (veterinárias e veterinários, entre os quais três peritos criminais da Polícia Federal especializados na área, biólogas, tratadores etc) e mais nove integrantes da PF –dois delegados e sete agentes.

Participaram também o Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, do governo da Bahia) e o Cemafauna (Centro de Conservação e Manejo da Fauna da Caatinga), da Univasf. A chefe de operações foi a bióloga Julia Barbosa, analista ambiental do ICMBio.

A reportagem da Folha acompanhou tudo. O grupo saiu de Petrolina num comboio de nove veículos (vans e picapes) às 2h50 da madrugada, chegando pouco antes das 6h ao Criadouro Ararinha-azul, na zona rural de Curaçá, quando o dia começava a raiar. Uma viatura com o delegado Ulisses Ultchak, da PF em Juazeiro (BA), e cinco agentes, foi a primeira a entrar no local.

Havia uma atmosfera de tensão, pois a empresa ignorou orientações do ICMBio desde a descoberta do surto e mantém uma relação tensa com as autoridades. O segurança não mostrou resistência. O australiano Tyson James Chapman, funcionário responsável pelo criadouro, já estava acordado e se preparava para alimentar as aves. Ele foi uma das testemunhas a assinar o mandado de busca autorizado pela Justiça Federal em Juazeiro em resposta à solicitação do delegado Fabio Muniz, da PF em Salvador. Chapman parecia desconsolado e não quis dar entrevista.

Para retirar as aves dos recintos –divididos na sede principal e na vizinha Fazenda Concórdia–, as equipes vestiram EPIs (equipamentos de proteção individual), que eram borrifados com álcool 70% e sanitizante à entrada e à saída.

Com ajuda de um puçá, veterinários e tratadores capturavam as ararinhas e seguiam um protocolo antes de colocá-las nas caixas de transporte: leitura do microchip de identificação de cada uma, exame detalhado dos bichos e preenchimento de ficha de avaliação.

Ao menos quatro aves contaminadas com o circovírus (segundo teste feito em dezembro) estavam no mesmo recinto de outras que testaram negativo, o que causou revolta na equipe. Causador da doença do bico e das penas dos psitacídeos, o patógeno é extremamente contagioso entre essa família de pássaros que inclui araras, papagaios e periquitos –mas não entre humanos nem aves de produção, como galinhas.

O circovírus não tem cura, pode matar as aves e tem como principais sintomas o embranquecimento das penas e deformidades no bico.

Em nota, o Criadouro Ararinha-azul disse cumprir os protocolos de biossegurança e que, em 31 de março, enviou às autoridades cópia de teste negativo das 103 aves do plantel. A informação é contestada pelo ICMBio, pois não há como aves já comprovadamente contaminadas se livrarem do vírus. O órgão também só considera testes feitos por dois laboratórios estatais (da USP e LFDA, do Ministério da Agricultura e Pecuária).

A transferência ocorreu quase seis meses depois de a PF deflagrar uma operação para investigar um surto de circovírus no local. Batizada de Blue Hope (esperança azul), teve agora sua segunda fase.

No ano passado, vistorias técnicas dos órgãos envolvidos na operação constataram que as instalações em Curaçá não cumpriam os protocolos de biossegurança para impedir a disseminação do vírus –como a limpeza e a desinfecção diária dos recintos e utensílios e uso de EPIs pelos funcionários. O criadouro foi multado em R$ 1,8 milhão (R$ 1,3 milhão a empresa que o administra e R$ 500 mil o seu dono, Ugo Vercillo).

Vercillo é ligado à ONG alemã ACTP (Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados, em inglês), que chegou a ter 90% de todas as ararinhas-azuis no mundo.

Em 2016, o ICMBio iniciou uma parceria com a ACTP para reprodução e reintrodução da espécie na natureza, reforçada com a assinatura de um acordo de cooperação técnica em 2019. Ao tomar conhecimento de que a ONG alemã vendeu espécimes de ararinha-azul a criadores privados sem seu consentimento, o órgão do governo brasileiro anunciou, em 2024, que não renovaria o acordo.

Em junho do ano passado,uma investigação da Folha em conjunto com o jornal alemão Süddeutsche Zeitung (SZ) revelou que a ACTP fez transações milionárias com ararinhas-azuis. A ONG negou irregularidade e disse ter como objetivo a conservação da espécie.

Após a saída da ACTP de cena, Ugo Vercillo assumiu as atividades do criadouro, que mudou seu nome inicialmente para BlueSky Caatinga (braço brasileiro de outra ONG alemã), antes de trocar novamente para Criadouro Ararinha-azul.

O trajeto de volta para Petrolina (cerca de 150 km, dos quais 50 km em estrada de terra) foi percorrido em três horas. Todos os veículos tinham ar-condicionado. Duas ararinhas com histórico de convulsão não tiveram problema. Uma outra teve hipoglicemia, mas recebeu soro e chegou bem ao destino.

Assim como na partida 16 horas antes, era escuro quando a equipe envolvida na operação se reuniu diante do quarentenário da Univasf para uma foto. Alguém puxou uma salva de palmas. Cláudia Sacramento fez um discurso de agradecimento emocionado.

Centro de tudo aquilo, as ararinhas já não gritavam. Provavelmente exaustas pelo transporte, descansavam na residência provisória, onde não se sabe por quanto tempo ficarão nem para onde vão. O êxito no resgate não dissipou questões importantes.

Um inquérito da PF investiga como as aves contraíram o circovírus (uma hipótese é que alguma tenha vindo contaminada da Alemanha, de onde parte delas foi transferida em 2022, o que o criadouro nega), se foram vítimas de maus-tratos e se houve obstrução da investigação por parte da empresa.

O Criadouro Ararinha-azul enviou comunicado ao Inema sobre “a iminência do encerramento” das suas atividades. “As recentes ações de fiscalização”, prossegue o texto, “conduzidas sem interlocução institucional apropriada e sem a necessária coordenação prévia, produziram severos impactos sobre a continuidade do programa, especialmente em razão da insegurança gerada junto aos patrocinadores e apoiadores financeiros da iniciativa”.

A empresa deu a entender que não pretende mais cuidar das 34 ararinhas comprovadamente contaminadas pelo circovírus que restaram em suas instalações, pois solicitou ao Inema “a adoção, com a máxima urgência, das providências necessárias para a destinação” das aves e “a indicação de equipe técnica especializada para acompanhar e viabilizar o processo de transição, desmobilização das estruturas existentes e encerramento definitivo do programa” de reprodução e reintrodução das ararinhas na natureza.

O ICMBio disse que, embora a contaminação tenha sido de responsabilidade do criadouro, já está mapeando parceiros que possam assumi-las e garantir a contenção do circovírus. Foi descartada a possibilidade de eutanásia. “Elas são provas do inquérito [da PF]. E a gente precisa assegurar que estejam num espaço adequado, com qualidade de vida às aves e para não disseminar o vírus para outras espécies nativas da caatinga”, disse Cláudia Sacramento.

Sobre as recém-transferidas, o ICMBio estuda uma estratégia para evitar novo surto que comprometa o plantel saudável, para então retomar o programa de reintrodução da espécie na natureza. “O que nos move a fazer tudo isso é um dia ver essas ararinhas voando no céu da caatinga. Esse é o nosso maior objetivo.”

O repórter viajou a convite do ICMBio



Fonte.:Folha de S.Paulo

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