
- Author, Noor Nanji
- Role, Repórter de cultura, BBC News
- e
- Author, Georgia MacPherson
- Role, BBC Panorama
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Tempo de leitura: 7 min
A direção do programa de TV Married at First Sight UK, do Canal 4 britânico, adotou foco “doentio” sobre a possibilidade dos participantes terem sexo, declararam à BBC News profissionais que trabalharam no programa.
Os produtores tentaram deliberadamente irritar ou perturbar os participantes, para tornar o drama agradável para a audiência, segundo eles.
Duas ex-participantes afirmam terem sofrido estupro por parte dos seus parceiros de programa e uma terceira alegou ato sexual não consensual. Seus parceiros da TV negaram todas as acusações contra eles.
Os advogados da produtora CPL, responsável pelo MAFS UK, afirmam que as recentes acusações provêm de uma pequena minoria de ex-funcionários e que a empresa mantém “compromisso com o bem-estar… que é evidenciado pelo alto índice de retorno consecutivo do elenco ao longo da série MAFS”.
A produtora também acusou alguns dos ex-funcionários que conversaram com a BBC de terem “segundos interesses” contra a empresa.
O sindicato britânico da área de entretenimento Bectu criticou a resposta, declarando à BBC que a sugestão de que alguém faria a denúncia “simplesmente por ter ‘segundos interesses’ é inaceitável e um desserviço para os profissionais”.
O Canal 4 afirma que o bem-estar dos colaboradores é “sempre nossa principal preocupação em todas as produções”.
As novas denúncias surgiram após uma semana difícil para o programa.
Todos os episódios foram retirados do serviço de streaming do Canal 4, um dos principais anunciantes retirou seu patrocínio e o destino da última temporada, que foi gravada mas ainda não transmitida, é incerto.
‘Tóxico de cima abaixo’
O formato do MAFS UK mostra pessoas solteiras que concordam em “se casar” com completos estranhos, depois de se encontrarem pela primeira vez nos seus casamentos simulados.
Mas, segundo vários profissionais que conversaram com a BBC, havia ênfase no sexo desde o início da filmagem de cada temporada.
Os entrevistados, em sua maioria, pediram para permanecer anônimos, pois eles ainda trabalham no setor de TV.
Mas uma delas aceitou ser identificada. Soraya Spiers qualifica a cultura da série como “tóxica de cima abaixo”.
“Na noite do casamento, existe a expectativa, para quem trabalhava no programa, de que você teria algum tipo de indicação se os casais iriam dormir juntos”, conta ela à BBC. “Mesmo que eles só tivessem se conhecido por dois segundos até aquele momento.”
Outra ex-participante da equipe, que trabalhou no MAFS UK por vários anos e compareceu à filmagem de diversos eventos encenados, conta ter levantado o receio de que alguns casais podem não desejar dormir na mesma cama na primeira noite.
“Eles estavam sozinhos com um estranho e não eram realmente casados”, ela conta.
A entrevistada afirma que um membro de alto escalão da equipe de produção disse a ela: “Você não entendeu? Nós queremos que eles durmam juntos.”
Os membros da equipe apostavam em quem iria dormir junto primeiro, segundo ela. “Eles comemoravam quando isso acontecia.”
As apostas não eram em dinheiro, segundo ela, mas “ficava claro para [a equipe] que tudo era brincadeira”.
Os advogados da CPL afirmam que a acusação de que os funcionários apostavam se os participantes fariam sexo “não é algo que o nosso cliente admita”.
O foco na intimidade era mantido conforme prosseguiam as filmagens, segundo os ex-funcionários.
Os produtores de alto escalão expressavam sua preocupação se um casal não estivesse fazendo sexo, segundo um deles. “Não era bom para o roteiro”, afirma ele.
A ênfase no sexo era “doentia”, segundo Spiers.
“Você pode defender que, na vida real, ocorre o mesmo, mas, se você conhecer alguém em um encontro, pode sair se precisar”, ela conta. “Colocar isso na estrutura de um programa de TV dificulta muito se você quiser simplesmente ir embora.”
Os advogados da CPL afirmam que os colaboradores não são pressionados de nenhuma forma, nem se espera que eles tenham sexo.
Os membros do elenco são informados que não há expectativas de que eles durmam na mesma cama na noite do casamento e podem ser fornecidas condições alternativas para passar a noite, segundo eles.
‘Fogos de artifício, conflitos e drama’
Um ex-funcionário afirma ter sentido que os participantes eram “manipulados”, mesmo pelos padrões dos reality shows da TV.
Não é incomum que os produtores de reality shows tentem controlar o conteúdo, mas o MAFS UK se concentra em um dos tópicos mais sensíveis de todos: o sexo e a intimidade.
“A premissa do programa é que as pessoas encontrem o amor, mas não é isso que os espectadores querem, é maçante de assistir e fica desagradável”, segundo Spiers. “Eles estão em busca de fogos de artifício, conflitos e drama.”
Outros ex-funcionários afirmam que os produtores fabricavam confrontos entre os participantes.
“Eles iam até os participantes e diziam ‘você sabe que fulano disse tal coisa?'”, conta um deles. “A ideia era irritar aquela pessoa.”
Quando os atritos eram particularmente altos, grande parte da equipe se reunia para acompanhar os acontecimentos, segundo outro ex-funcionário.
“Era revoltante como eles viam aquilo”, ele conta.
A BBC também ouviu que a equipe de produção era orientada a “intensificar gatilhos”.
Em um dos jantares encenados pelo programa, uma ex-funcionária afirma ter visto membros do elenco embriagados. “Não é um padrão-ouro de bem-estar”, destaca ela.
Os advogados da CPL declararam à BBC que a ingestão de álcool durante os jantares é limitada e supervisionada pelos produtores executivos e pela equipe responsável pelo bem-estar dos participantes. Eles afirmam que não é verdade que os colaboradores recebam a quantidade de álcool que desejarem.
Eles também afirmam que a CPL rejeita qualquer indicação de que a produtora priorize o entretenimento em prejuízo do bem-estar dos participantes, ou que os dramas são criados pela produção às custas dos colaboradores.
‘E-mail de silêncio’
Horas antes da edição de Panorama que divulgaria as acusações de estupro, a CPL enviou um e-mail para seus colaboradores e participantes, atuais e do passado, oferecendo apoio e assessoramento sobre declarações à imprensa.
“Era um e-mail para pedir silêncio” e “um esforço para controlar os danos”, segundo um ex-funcionário. Outra afirma ter ficado “furiosa”.
“São pessoas reais passando por traumas e deveriam ter sido protegidas”, destaca ela.
Os advogados da CPL afirmam que seu e-mail não se destinava a silenciar os funcionários, mas sim fornecer apoio aos atingidos pelo programa Panorama e evitar a identificação das mulheres do elenco que apresentaram acusações anônimas de estupro.
Já Spiers respondeu ao e-mail, acusando a CPL de “espetacular falta de cuidado com o elenco e a equipe”.
“Espero que a investigação revele a toxicidade que exala de cada poro deste programa e da empresa produtora”, escreveu ela.
Como alguns dos outros profissionais com quem conversamos e como é comum na produção televisiva, Spiers mantinha contrato temporário, de cinco semanas. Ela conta ter recusado uma oferta de continuar trabalhando no programa.
Em resposta à reportagem da BBC na quinta-feira (21/5), a diretora da Bectu, Philippa Childs, declarou que apresentar denúncias pode ser difícil para os freelancers, devido ao “mercado precário” em que eles trabalham.
Nas redes sociais, alguns participantes anteriores apresentaram posição mais positiva sobre suas experiências no programa. Outros membros do elenco também contaram à BBC que a CPL é uma boa empresa para se trabalhar.
O Canal 4 afirma que “o bem-estar dos colaboradores é sempre nossa principal preocupação em todas as produções”.
“Dias depois de recebermos o contato da BBC, em abril, encomendamos uma análise externa do bem-estar dos colaboradores do MAFS UK, que está em andamento.” O canal destaca que a análise “precisa ser concluída”.
Spiers acredita que o programa deve ser encerrado, pois, na sua opinião, o modelo é “totalmente inadequado”.
Outro ex-funcionário qualifica o programa de “tragédia anunciada”.
“O que veio a público não me surpreende nem um pouco. Eu via que algo deste tipo estava por vir. E não queria estar ali para isso.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


