
Crédito, Nacho Valverde/Europa Press via Getty Images
- Author, Paula Rosas
- Role, BBC News Mundo
Published
Tempo de leitura: 5 min
Um plantel “de altíssimo nível”, mas “sem franceses”.
Estas foram as polêmicas palavras do ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy sobre a seleção francesa de futebol.
O time enfrentará a Espanha pelas semifinais da Copa do Mundo da Fifa 2026 nesta terça-feira (14/7), às 16 horas (de Brasília).
A declaração de Rajoy gerou uma onda de condenações, levando membros do governo do presidente francês, Emmanuel Macron, a qualificarem de “racista”.
Diversos ministros e líderes de diferentes partidos políticos da França denunciaram o “ódio” e “flagrante racismo” que, segundo eles, destilam as palavras de Rajoy.
O ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, destacou que “a França não tem cor de pele”, em entrevista ao canal de notícias francês BFMTV, e que “qualquer afirmação em sentido contrário é uma estupidez, racismo ou uma combinação de ambos”.
As palavras de Rajoy também receberam a condenação do atual primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Ele criticou seu antecessor, sem mencionar seu nome, por “envergonhar” os espanhóis com suas “declarações xenofóbicas”.
“França, nós nos vemos nas semifinais. Que vença o melhor e que perca o racismo”, destacou Sánchez em uma postagem no X.
O jogo entre as duas seleções ocorrerá no Estádio de Dallas, no Texas, nos EUA.
Mariano Rajoy liderou o governo espanhol entre 2011 e 2018. Ele precisou abandonar o cargo ao receber moção de censura do Parlamento espanhol por um escândalo de corrupção que sacudiu o seu partido PP (Partido Popular), de direita.
Rajoy escreveu o comentário após a vitória da Espanha frente à Bélgica, em uma coluna de opinião mantida por ele no jornal conservador El Debate, onde costuma publicar crônicas de futebol e opiniões políticas.
Na sua coluna, ele destacou que a França vem jogando muito bem e “será um adversário formidável”. Mas também dava a entender que os jogadores da seleção francesa, muitos deles descendentes de migrantes, não eram franceses.
Seu partido minimizou a polêmica.
Para o porta-voz nacional do PP, Borja Sémper, as palavras de Rajoy são “sarcásticas e não têm má intenção”. Para ele, só o que o ex-premiê tentou foi apoiar a Espanha, segundo disse em entrevista coletiva nesta segunda (13/7).
“São comentários favoráveis à Espanha”, segundo Sémper. “Eu os restringiria a este sentido e não daria outra interpretação.”

Crédito, Kevin C. Cox/Getty Images
As palavras de Rajoy fizeram os franceses recordarem o debate levantado em diversas ocasiões pelo antigo líder da direita radical francesa, Jean-Marie Le Pen (1928-2025). Ele era pai da atual líder opositora Marine Le Pen e fundador do partido Frente Nacional, rebatizado por sua filha como Agrupamento Nacional.
Há 30 anos, Jean-Marie Le Pen gerou grandes controvérsias na França, quando sua seleção comemorava a classificação para as semifinais da Eurocopa de 1996, na Inglaterra. O político de direita radical emitiu declarações muito similares à de Rajoy.
“É artificial que se traga estrangeiros e, depois, se batize a equipe como seleção da França”, declarou ele na época.
Jean-Marie Le Pen foi condenado diversas vezes na Justiça por declarações racistas ou por qualificar de “detalhe da história” a construção de fornos crematórios pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
A Embaixada da França na Espanha, garantindo “não querer entrar na polêmica”, recordou Mariano Rajoy no X que “todos os jogadores da seleção francesa são franceses”.
“Dos 26 jogadores, 23 nasceram na França. Os três que nasceram no exterior também são franceses”, declarou a Embaixada.
A polêmica gerada pelas palavras de Rajoy se soma às declarações da senadora paraguaia Celeste Amarilla, do Partido Liberal Radical, na semana passada. Ela chamou o astro da seleção francesa, Kylian Mbappé, de “camaronês colonizado”, que finge ser francês.
A senadora qualificou Mbappé de “ressentido, novo-rico, arrogante e feio”, além de insinuar que ele teria sido criado na selva, rodeado de macacos.

Crédito, Lars Baron/Getty Images
As declarações indignaram a França, e Mbappé chamou a senadora de mulher “desprezível” e indigna do seu cargo.
“Ontem foi uma senadora do Paraguai e, hoje, o ex-primeiro-ministro da Espanha”, criticou o secretário-geral do Partido Comunista francês, Fabien Roussel.
“Eles não conseguem deixar de expressar um racismo grosseiro, para tentar provocar a nossa magnífica seleção francesa.”
O líder do Partido Socialista francês, Olivier Faure, também condenou as palavras do ex-premiê espanhol. Ele recordou que a seleção francesa “é composta unicamente por franceses”.
“A França não é uma nação étnica, não tem cor de pele, nem religião”, destacou o socialista no X. “É uma nação política, unida em torno do lema republicano. Por mais que isso incomode a direita racista.”
Para o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, descendente de imigrantes espanhóis, o comentário de Rajoy é “totalmente inaceitável”.
Ele declarou à rede BFMTV que “existe só uma França, a república onde todos podem encontrar seu lugar, seja qual for a sua origem”.
O governo espanhol também censurou as declarações “infelizes” do antigo líder do Partido Popular, segundo destacou o ministro da Presidência e Justiça, Félix Bolaños.
Bolaños comentou sobre as pessoas que, nas redes sociais, emitiram comentários parecidos com o de Rajoy, mas direcionados a jogadores da seleção espanhola com origens migrantes, como os astros Lamine Yamal e Nico Williams.
Em entrevista à Rádio Nacional da Espanha, o ministro recordou que “provavelmente, a história de superação, de esforço, de chegar ao topo no futebol, representa mais a Espanha que os racistas cheios de ódio, presentes em grande quantidade nas redes sociais”.
“Lamine Yamal e Nico Williams são tão espanhóis quanto os haters racistas presentes nas redes sociais no nosso país. Tão espanhóis quanto eles”, concluiu Bolaños.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


