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Introdução
Uma colega da Unicamp foi acusada de roubar vírus de um laboratório, gerando debate na comunidade virológica. O artigo aborda meios legais de aquisição viral e níveis de biossegurança. Especialista avalia que os vírus envolvidos não ameaçam saúde humana ou animal, mas ressalta a falha na segurança.
- Acusação de furto de vírus em laboratório da Unicamp.
- Meios legais para aquisição de cepas virais.
- Detalhamento dos Níveis de Biossegurança (NB-1 a NB-4) para manipulação de microrganismos.
- Análise de potenciais vírus envolvidos e seus riscos.
- Avaliação de que os vírus não ameaçam saúde humana/animal, mas há falha de segurança.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Este é o tema de discussão entre todos da comunidade virológica, certamente até fora do Brasil: uma colega da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) foi acusada de roubar vírus de um laboratório da universidade. Como foi, que vírus foi, e quando isso será usado para um atentado terrorista? Tudo isso e muito mais ainda é obscuro, mas é possível dar opiniões educadas sobre o tema, ao menos na esfera viral.
Se eu quiser adquirir uma cepa viral qualquer, há vários meios legais para fazê-lo. Posso pedir a colegas que me cedam, posso comprar em fornecedores especializados ou tentar isolar no laboratório.
Vários outros materiais biológicos que usamos em um laboratório de virologia vêm por estes meios, incluindo linhagens celulares (inclusive uma linhagem de células que meu orientador importou e que eu deixei morrer durante meu PhD. Sorry, profe…).
Mas também é necessário levar em conta se o meu laboratório tem condições para manipular aquele vírus com segurança. Para cada microrganismo, considerando-se sua “agressividade”, deve-se utilizar um Nível de Biossegurança (NB) adequado, e existem quatro níveis:
Destinado a microrganismos de baixo risco. É o nível básico de laboratório, com bancadas abertas, pias para lavagem das mãos e uso de aventais, luvas e óculos de proteção.
Para microrganismos que causam doenças de gravidade moderada, mas que são difíceis de transmitir por aerossóis (partículas minúsculas, que saem da respiração, tosse, espirro, etc., e são capazes de viajar longas distâncias pelo ar). Exige o uso de Cabines de Segurança Biológica (CSB) e o acesso ao laboratório é restrito.
- NB-3: Alto Risco Individual
Quando há chance de transmissão aerógena de microrganismos que podem causar doenças fatais e que são transmitidos principalmente pela respiração. O local deve possuir pressão negativa (o ar entra, mas não sai sem ser filtrado).
- NB-4: Risco Máximo (Contenção Total)
Para microrganismos extremamente perigosos, frequentemente fatais, para os quais não há vacina nem tratamento disponível. Neste caso, o laboratório é geralmente um prédio isolado, e os pesquisadores utilizam roupas pressurizadas (semelhantes às de astronautas).
Este é o único tipo que ainda não temos no Brasil, mas que está em construção, justamente em Campinas (SP).
Qual vírus pode ter sido furtado do laboratório da Unicamp?
Considerando essa classificação, vamos analisar quais vírus podem estar envolvidos no caso, com base no foco de trabalho de cada pesquisador responsável pelo laboratório em questão:
Dentre os vírus que infectam seres humanos, temos o SARS-CoV-2 (causador da Covid-19), o vírus Oropouche, o Zika vírus e o vírus Chikungunya, que causam doenças de alta gravidade. Todos eles são classificados para manipulação em NB-3 (alto risco).
Outro exemplo é o Bocavírus, um patógeno respiratório humano comum, que causa infecções respiratórias e gastrointestinais, e deve ser manipulado em NB-2.
Também temos os vírus derivados de animais domésticos, como o H5N1 (da gripe aviária), H1N1 e H3N2 (dois vírus da gripe suína), além dos vírus da doença de Newcastle, vírus de Gumboro, Coronavírus Aviário, Metapneumovírus Aviário, Circovírus, Parvovírus suíno e canino e o vírus da Cinomose.
Nesse cenário, o H5N1 e o vírus da doença de Newcastle são os únicos que demandam NB-3. Apenas o H5N1 é considerado perigoso para humanos, embora o Newcastle possa causar conjuntivite em pessoas expostas.
Esses vírus de aves e suínos (exceto Newcastle e H5N1) são amplamente disseminados no mundo todo e fáceis de encontrar em granjas, tanto em suas formas selvagens quanto naquelas utilizadas em larga escala em vacinas com vírus vivos para manter a produção de carne e ovos ativa.
Baseado nisso, eis a minha opinião: não saiu do laboratório da UNICAMP nenhum vírus que possa ameaçar a saúde humana ou a saúde de animais de produção.
Se fosse, por exemplo, um vírus da febre aftosa (erradicado do Brasil) ou um vírus da varíola (que hoje só existe em laboratórios NB-4 na Rússia e nos EUA, sendo letal para seres humanos), minha opinião seria bem diversa.
Claro, isso não quer dizer que seja aceitável que vírus desapareçam de nossos laboratórios; esse caso mostra fragilidade na cadeia de segurança, e só por isso o incidente é grave.
Quanto ao que realmente aconteceu — se foi roubo, furto ou engano — e quais exatamente foram os vírus que desapareceram, bem, isso já não é do escopo da “Virosfera”, mas recomendo acompanhar os próximos capítulos, que estão se transmitindo tão rápido quanto um surto de gripe.
Fonte.:Saúde Abril


