
Crédito, AFP/Getty Images
- Author, Barbara Plett Usher
- Role, BBC News – Correspondente na África
Em maio de 2025, Amira iniciou uma jornada arriscada por uma das zonas de guerra mais intensas do Sudão.
As Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), um grupo paramilitar que enfrenta o Exército sudanês, tinham acabado de tomar a cidade onde ela vivia — En Nahud, no Estado de Kordofan Ocidental.
A rota de fuga de Amira era perigosa, mas ela sentiu que não tinha escolha. Estava grávida de sete meses.
“Não havia mais hospitais nem farmácias”, disse. “Tinha medo de que, se ficasse mais tempo, não encontraria outros veículos saindo. Viajar tinha se tornado quase impossível: incrivelmente difícil e extremamente caro.”
A guerra civil entre o Exército sudanês e a RSF tem sido brutal com os civis há mais de dois anos. Agora, a linha de frente se deslocou para a região sul de Kordofan, por onde Amira passou.
A BBC não divulga o nome verdadeiro dela para proteger sua identidade.
Enquanto fugia, Amira gravou um diário em áudio, compartilhado com a BBC pela organização internacional Avaaz.
A reportagem também conseguiu falar com Amira por telefone em Kampala, capital de Uganda, onde ela aguarda o nascimento do filho.
Sua viagem teve problemas logo no início.
Segundo Amira, a RSF e seus aliados controlavam todo o transporte.
Quando ela e o marido subiram no caminhão que os levaria para fora de En Nahud, começou uma briga entre o jovem que havia alugado o veículo para a família e o motorista ligado às RSF, que vendia mais assentos no veículo a outros passageiros.
“O motorista imediatamente sacou a arma e ameaçou atirar no rapaz que tinha alugado o caminhão. Todos imploravam para que não fizesse isso, inclusive um companheiro dele, também da RSF”, contou Amira.
“A avó e a mãe do rapaz choravam, agarradas às pernas do motorista, pedindo para que não atirasse. Nós, passageiros, estávamos paralisados de medo.”
“Senti que, se ele decidisse atirar, atiraria em várias pessoas, não apenas em uma”, contou Amira depois. “Porque ele estava bêbado e fumando maconha.”
No fim, o motorista guardou a arma, mas o jovem ficou para trás na cidade de En Nahud.
O caminhão abarrotado de bagagens, com cerca de 70 a 80 pessoas, seguiu por uma estrada esburacada e cortada por riachos. As mães se agarravam ao que conseguiam com uma das mãos e tentavam proteger os filhos com a outra.
“Tive medo o tempo inteiro”, disse Amira. “Rezava para que o bebê não nascesse, só pedia que tudo ficasse bem.”

Crédito, Amira
As duas primeiras paradas foram marcadas por dificuldades. Os veículos em que Amira e o marido viajavam quebraram várias vezes ao longo do trajeto desesperado.
Por fim, os viajantes conseguiram chegar a el-Fula, capital do Estado de Kordofan Ocidental. Mas Amira não quis permanecer mais tempo ali porque o Exército sudanês avançava.
Especialmente porque os soldados começaram a atacar pessoas de determinados grupos étnicos que consideravam ligados à RSF, como os baggara e os rizeigat.
“Meu marido é de um desses grupos, embora não tenha nenhuma relação com a RSF. Ele é funcionário público e estudou Direito — mas, neste momento, isso não tem importância. Estão perseguindo pessoas apenas por causa da etnia.”
As Forças Armadas sudanesas e milícias aliadas são acusadas de perseguir civis suspeitos de colaborar com a RSF em áreas que conquistam, em meio ao que a ONU chamou de relatos confiáveis de execuções extrajudiciais.
Anteriormente, os militares condenaram “violações individuais” cometidas por alguns soldados quando acusados de abusos de direitos humanos.
O general Abdel Fattah al-Burhan, chefe das Forças Armadas, nomeou um comitê no início de 2025 para investigar suspeitas de abusos durante a ofensiva no centro do Sudão.
Kordofan, formada por três Estados, tornou-se o principal campo de batalha. A região é estratégica para a guerra no Sudão porque concentra campos de petróleo e é centro estratégico de importantes rotas de transporte.
O envolvimento de outras milícias ao lado da RSF, especialmente o SPLM-N, intensificou a violência e agravou a crise humanitária, tornando quase impossível a chegada de suprimentos distribuídos por grupos humanitários.
Depois de sair de el-Fula, Amira precisou de três dias e diversas trocas de veículo para conseguir alcançar a fronteira com o Sudão do Sul, em busca de segurança. Os obstáculos eram constantes.
“Os motoristas da RSF trabalhavam a depender do humor”, disse. “Eles decidiam quem podia viajar, onde cada um sentava e quanto pagava. Não havia preço fixo — era preciso lidar com isso. Esses homens estavam armados, e a violência lhes era natural.”
Segundo Amira, a cada 20 minutos os viajantes eram parados em postos de controle da RSF e obrigados a pagar aos soldados que estavam ali.
Esses pagamentos eram cobrados mesmo sendo acompanhados por escoltas ligadas à RSF, que também cobravam seus pagamentos.
A comida era cara, e a água, escassa.

Crédito, Amira
Na vila de el-Hujairta, os viajantes conseguiram se conectar à internet por meio de um aparelho de Starlink controlado pela RSF. Mas até isso era arriscado.
“Quando você volta a ficar online, precisa ter cuidado”, disse Amira. “Se os homens da RSF ouvirem — se assistir a um vídeo do Exército, tocar um som ou música ligada ao Exército, ou até mencionar a RSF por acaso em uma conversa — eles vão te prender.”
As estradas estavam em péssimas condições, e os veículos quebraram três vezes durante a viagem.
O pior momento para Amira foi quando um pneu estourou enquanto viajava por uma floresta de acácias, deixando os passageiros presos sem água. Motoristas que passavam diziam não ter espaço extra para levá-los.
“Juro por Deus que achei que nunca mais chegaria a outro lugar, que morreria ali mesmo”, contou. “Eu desisti. Só tinha um cobertor, então o peguei, deitei no chão e dormi. Naquele dia, senti de verdade que seria o meu fim.”
No dia seguinte, chegaram a Abyei, na fronteira, mas o trajeto desta vez foi mais lento devido a chuvas e inundações.
Neste trecho, eles viajaram em um veículo repleto de barris de combustível, que atolava constantemente.
“O carro afundava na lama sem parar”, disse Amira.
“Nossas roupas estavam encharcadas. As bolsas, já estragadas pela poeira e pelo calor, ficaram molhadas. Estávamos congelando e rezando para chegar em segurança.”
Por fim, o casal chegou a Juba, capital do Sudão do Sul — cerca de 1.300 km ao sul de En Nahud —, de onde seguiu de ônibus até Kampala, capital de Uganda.
Agora, em segurança, o alívio tem um certo sabor amargo.

Crédito, Amira
Amira está preocupada com os familiares que ficaram para trás e sente tristeza e ansiedade enquanto se prepara para o parto.
“Tenho muito medo do momento de dar à luz, porque é a minha primeira vez, meu primeiro bebê, e não terei a minha mãe comigo”, disse.
“Só estarão meu marido e uma amiga. Não sei… São tantas coisas, tudo está tão desorganizado, é tão devastador.”
Ativista de direitos das mulheres e pró-democracia, Amira atuou em trabalhos de assistência durante a guerra civil por meio das chamadas Salas de Resposta Emergencial.
Segundo ela, o grupo era visto com desconfiança pelos militares, e alguns membros acabaram presos.
“Eu tinha medo do Exército e da inteligência militar. Eles prendiam jovens e os mantinham detidos. Mas, quando a RSF chegou, não foi melhor. Eles saqueiam, estupram. Não fazem menos do que o Exército. São todos iguais.”
Apesar de evidências generalizadas de saques e denúncias de estupro, a RSF afirma não mirar civis. Seus membros negam acusações de limpeza étnica e descrevem a violência como conflitos tribais.
Os dois lados negam as acusações de crimes de guerra.
O desafio de Amira agora — e também sua alegria — é tornar-se mãe. Mas permanece a dúvida sobre se poderá voltar ao Sudão com o filho.
“Espero que a situação do Sudão melhore”, disse. “Não haverá a mesma segurança de antes, nem as mesmas pessoas, nem os mesmos lugares — tudo vai mudar. Mas, se a guerra parar, pelo menos haverá alguma forma de segurança. As pessoas não morrerão aleatoriamente, como agora.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL