
Crédito, Governo de Kamchatka
- Author, Olga Ivshina
- Role, BBC News Rússia
Tempo de leitura: 6 min
Na vila de pescadores de Sedanka, no extremo leste da Rússia, a vida é difícil.
A maioria das casas não tem serviços básicos, como água encanada, banheiro interno e aquecimento central, mesmo com temperaturas que costumam chegar a -10°C nos meses de inverno.
Cercada por floresta-tundra e áreas pantanosas, o centro da vila só é acessível de maio a outubro por barcos ou veículos de tração por esteiras e, no inverno, exclusivamente por moto de neve (snowmobile) ou helicóptero.
Há poucos empregos locais, e a maior parte da população vive da pesca e do cultivo do próprio alimento.
Os lixões atraem visitantes perigosos, como o urso-pardo-de-Kamchatka, que está entre os maiores do mundo.
Ainda assim, Sedanka enfrenta um desafio mais recente.
Segundo os próprios moradores, quase todos os homens de Sedanka com idades entre 18 e 55 anos deixaram o local após se juntarem à guerra da Rússia na Ucrânia.
‘Não há ninguém para cortar lenha’
“É de partir o coração — muitas das nossas pessoas foram mortas”, declara Natalia, moradora cujo nome foi alterado por razões de segurança, em entrevista ao Serviço Mundial da BBC.
“O marido da minha irmã e meus primos estão na linha de frente. Em quase todas as famílias, há alguém lutando.”
Localizada no extremo noroeste da Península de Kamchatka, próxima ao Mar de Okhotsk, Sedanka fica a mais de 7.000 km das linhas de frente na Ucrânia.
A cidade americana de Anchorage, do outro lado do oceano, está a cerca de metade dessa distância.
De um total de 258 habitantes, 39 homens da vila assinaram contratos com a Rússia para lutar na guerra. Destes, 12 morreram e outros sete estão desaparecidos.
“Todos os nossos homens partiram para a operação militar especial”, afirmou um grupo de mulheres ao governador da região, durante visita em março de 2024, utilizando a expressão adotada pelo governo russo para se referir à guerra na Ucrânia.
“Não há ninguém para cortar lenha para o inverno e aquecer nossos fogões”, acrescentaram, em diálogo exibido pela televisão estatal.
A BBC, em conjunto com o site russo Mediazona e pesquisadores voluntários, verificou até agora que 40.201 soldados russos morreram em 2025.
Segundo a nossa análise, estimamos que o total de mortos confirmados em 2025 chegará a 80 mil, o que tornaria este o ano mais letal para as perdas russas na Ucrânia desde o início da invasão em larga escala, iniciada em 24/2/2022.
Esse cálculo leva em conta obituários que indicam 2025 como o ano da morte ou do sepultamento, mas são dados que ainda não foram totalmente processados nem cruzados.
As mortes confirmadas em 2024 somam agora 69.362 — número aproximadamente comparável à soma de 2022 e 2023 —, e a curva se acentuou desde o fim de 2024.
As confirmações foram feitas com base em comunicados oficiais e em um registro de inventários — cadastro oficial de processos abertos após a morte de uma pessoa —, além de reportagens de jornais, publicações em redes sociais feitas por familiares ou amigos próximos e dados de novos memoriais e túmulos.
Ao todo, a BBC identificou até agora 186.102 soldados russos mortos no conflito.
O número real de mortos é geralmente considerado muito mais alto, já que muitas mortes no campo de batalha não são registradas.
Especialistas militares avaliam que nossa análise pode representar entre 45% e 65% do total, o que situaria o número potencial de mortos russos entre 286 mil e 413,5 mil.
A Ucrânia também sofreu perdas significativas.
No mês passado, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse à emissora francesa France 2 que, “oficialmente”, 55 mil ucranianos foram mortos no campo de batalha.
Além disso, um “grande número de pessoas” é considerado oficialmente desaparecido, afirmou ele, sem apresentar um número exato.
Com base em estimativas de fontes como o site UA Losses, cujos dados foram cruzados pela BBC, estimamos que o número de ucranianos mortos possa chegar a 200 mil.

Crédito, Governo de Kamchatka
A maior parte dos russos mortos na guerra tem sobrenomes de origem eslava.
Mas as perdas são desproporcionalmente altas entre pequenos grupos indígenas, especialmente em áreas economicamente desfavorecidas da Sibéria e do extremo leste, como Sedanka.
Sedanka é habitada principalmente por koryaks e itelmens — povos indígenas que, pelas regras em vigor durante a guerra, podem ser isentos da mobilização.
A ativista antiguerra Maria Vyushkova afirma que a televisão estatal russa reforça estereótipos de que comunidades indígenas seriam “guerreiros natos” e atiradores habilidosos para incentivá-las a se alistar na guerra.
“Muitas comunidades indígenas se orgulham dessa herança como parte de sua identidade. A Rússia usa esse orgulho para recrutar para a guerra”, disse Vyushkova.
Entre os moradores de Sedanka que aderiram à guerra está Vladimir Akeev, 45, caçador e pescador, que assinou contrato com o Exército no verão de 2024.
Quatro meses depois, ele foi morto em combate.
No funeral, em novembro de 2024, as pessoas só conseguiram chegar ao cemitério de moto de neve, e o caixão de Akeev foi transportado em largos trenós de madeira.
Em outras regiões, as perdas confirmadas entre povos indígenas incluem 201 nenets, 96 chukchi, 77 khanty, 30 koryaks e sete inuítes.
Entre homens de 18 a 60 anos, isso representa aproximadamente 2% dos chukchi, 1,4% dos inuítes russos, 1,32% dos koryaks e 0,8% dos khanty.
A análise da BBC mostra que 67% dos mortos são de áreas rurais e cidades pequenas — definidas como aquelas com menos de 100 mil habitantes —, embora 48% da população russa more nesses locais.
A taxa de perdas foi menor nas grandes cidades. Moscou, capital da Rússia, registrou o menor número de mortes per capita: cinco a cada 10 mil homens, ou 0,05%.
Em regiões mais pobres, como Buryatia, no leste da Sibéria, e Tuva, no sul da Sibéria, a taxa de mortalidade é, respectivamente, de 27 e 33 vezes maior do que na capital.
O principal fator por trás dessa diferença entre centros urbanos e áreas rurais é a desigualdade em desenvolvimento econômico, renda e educação, afirma o demógrafo Alexey Raksha.
Como resultado, soldados de regiões mais pobres e de minorias étnicas representam uma parcela maior do Exército e dos mortos do que sua participação na população total, explicou Raksha.
Regiões com elevada proporção de perdas já apresentavam menor expectativa de vida antes mesmo de seus homens irem para a guerra, afirmou outro demógrafo russo à BBC.
“Para muitos, o fator determinante não é apenas a pobreza, mas a falta de perspectivas — a sensação de que não há nada a perder”, disse.

Crédito, Governo de Kamchatka
Em Sedanka, foi inaugurado, no outono de 2024, um monumento dedicado aos “participantes da operação militar especial”.
No ano passado, o governo regional prometeu conceder o título honorário de “vila de valor militar” em reconhecimento à participação de seus homens na guerra.
Anunciou também um programa de assistência às famílias dos militares da vila.
No entanto, a vila ainda não recebeu o título honorário, nem a maior parte do apoio prometido às famílias dos soldados foi entregue.
Os telhados das casas de quatro soldados foram consertados após entrarem em estado de deterioração, mas apenas depois de ampla repercussão na imprensa.
Uma em cada cinco casas, construídas na era soviética, foi considerada insegura pelo Estado.
A única escola da vila foi considerada pelas autoridades em estado de emergência, com algumas paredes sob risco de desabamento.
Tudo isso foi agravado pela perda dos homens em idade ativa para a guerra da Rússia na Ucrânia.
Reportagem adicional de Yaroslava Kiryukhina e Natalia Maca Groca.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


