Crítica | SP
Hobby Burguer
Três estrelas (Bom)
R. Cardoso de Almeida, 1.393, Perdizes, região oeste; @hobbyburger1969
Comer no Hobby Burger me lembrou das últimas vezes que andei na Brasíliado meu pai. Se ela não tinha ar-condicionado, vidro elétrico ou câmbio automático, o Hobby não tem hambúrguer de Wagyu, cebola caramelizada, ou lanches com brie e queijo azul.
O hambúrguer (R$ 23) vem num pão macio, com maionese gostosa, um bom queijo e carne preparada na casa. Mas não dá para escolher o ponto. Todas saem da velha chapa do mesmo jeito há meio século, e é isso.
Uma experiência saborosa, que prova que o ponto da carne no hambúrguer nem sempre é determinante. Inquestionável é, realmente, ter ingredientes de qualidade, a porcentagem certa de gordura e um bom preparo. E isso os caras ali dominam.
O ambiente vai na mesma toada. Assim como a velha Brasília, ele seria totalmente desprovido de charme, mas o enfileirar das décadas recobriu o lugar com deliciosas camadas de nostalgia.
O balcão e as paredes de fórmica bege do salão, as banquetas fixas, os funcionários de chapeuzinho branco inspirado nos diners americanos, as batedeiras de milk-shake com jeitão de relíquias da época da Guerra Fria… A graça de comer no Hobby tem a ver com a sensação de voltar a um tempo que não existe mais.
Num minuto você está em 2026, na esquina das ruas Cardoso de Almeida e Vanderlei. No outro, se teletransportou para a década de 1970 —a lanchonete está no mesmo endereço desde que abriu, em 1969.
Assim como a Brasília do meu pai, o Hobby Burger chama atenção. Em uma noite de sábado, os clientes faziam fila na calçada para entrar. Debaixo de chuva!
No cardápio (de plástico ensebado, claro), a pedida certa são os hambúrgueres, que podem ser acrescidos dos acompanhamentos (cobrados à parte). O peru hobby (R$ 43) é enjoativo, com uma fartura de peito de peru salgado demais sob uma enxurrada de queijo derretido e alface. Já roast beef (R$ 35), também feito na casa, com lagarto, vale.
Mas a melhor parte da volta ao passado são as fritas (R$ 33). Enquanto a maioria dos restaurantes paulistanos aposta nas pasteurizadas batatas congeladas, o Hobby segue com o processo tradicional. Nele, passam por uma pré-fritura em baixa temperatura e são armazenadas em baldes de plástico que são, na mesma medida, charmosos e horripilantes. Na hora do pedido, passam por uma segunda imersão em óleo escaldante. Chegam crocantes e douradas como se espera.
Depois de 20 minutos na fila, fui acomodada no balcão, num lugar na quina, o que me fez sentar praticamente no colo do cliente ao lado. Ele tinha convencido a esposa a sair de Cotia e empreender uma viagem de mais de 20 quilômetros só para comer ali. Ele parecia feliz e ansioso para descobrir o motivo do sucesso do lugar que conheceu pelas redes sociais. Ela revirava os olhos ao ouvir o marido contar sobre a aventura.
O serviço, aparentemente caótico e totalmente analógico, lembrou de novo a experiência de dirigir um carro da década de 1970, sem Waze, em 2026. Parece que algo vai dar errado. Ainda mais, quando a gente fica sabendo dos números. Só de hambúrguer, são 800 pedidos num sábado normal.
Mas o caos é só aparente. No fim, todo mundo se senta, todo mundo come, todo mundo dá sua voltinha no passado. O casal de Cotia, por exemplo, viu o lanche chegar em poucos minutos. Ele garantiu que valeu a viagem e que vai voltar outras vezes. Ela não parecia tão segura quanto a isso, mas tinha parado de revirar os olhos logo depois de provar a primeira batatinha.
Fonte.:Folha de São Paulo


