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30 de novembro de 2025

Indígenas e arqueólogos investigam civilizações antigas – 30/11/2025 – Ciência

Indígenas e arqueólogos investigam civilizações antigas – 30/11/2025 – Ciência

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Viola Kuikuro, 25, divide o olhar entre o céu e o controle de drone. Recém-saído do ensino médio, ele sobrevoa o equipamento sobre a floresta ao redor da aldeia onde mora, Ipatsé, no Território Indígena do Xingu, em Mato Grosso. Esta é sua segunda vez pilotando, como parte de um projeto que vem treinando indígenas a usar tecnologias de sensoriamento remoto e métodos tradicionais de arqueologia para desvendar o passado de seus ancestrais na Amazônia.

Ipatsé, localizada em uma área de transição entre a floresta e o cerrado, no Alto Xingu, é cercada por dezenas de sítios arqueológicos milenares descobertos nos últimos 30 anos por arqueólogos em parceria com os kuikuros. Juntos, eles mapearam mais de 20 cidades de até 1.500 anos espalhadas por 1.200 km² de floresta –área equivalente à da cidade do Rio.

“Esses povos estão nesse mesmo território há milhares de anos”, diz a líder do projeto Helena Lima, arqueóloga do Museu Emílio Goeldi, em Belém. “Tudo aqui tem história. E a gente tem o privilégio de conhecer essas histórias diretamente dos kuikuros. Só temos que escutá-los e guiar a nossa pesquisa com base nos que eles nos contam.”

Lima e um grupo de arqueólogos e técnicos de sensoriamento remoto estiveram em junho deste ano na aldeia para uma expedição científica de duas semanas, parte do projeto Vozes da Amazônia, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), entidade ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A iniciativa busca mesclar ciência e conhecimentos indígenas para estudar a interação passada e presente dos povos originários com a floresta.

Nos últimos anos, Lima e colegas têm conduzido oficinas de escavação e mapeamento territorial na aldeia usando drones acoplados a sensores de Lidar. Esse equipamento emite pulsos de laser que escaneiam a superfície do solo e geram mapas tridimensionais detalhados, delineando estruturas e marcas de ocupação, mesmo sob a copa das árvores. A tecnologia tem revolucionado a arqueologia em florestas tropicais, revelando civilizações indígenas ancestrais.

No território kuikuro, indígenas e pesquisadores têm usado o Lidar para revelar detalhes de sítios arqueológicos já descobertos e buscar locais ainda desconhecidos, mas mencionados na cultura oral dos povos locais. “A gente tem muita história, tem muito lugar ainda para estudar”, diz Sepé Kuikuro, professor e líder local.

A parceria entre os kuikuros e pesquisadores começou nos anos 1990, encabeçada pelo arqueólogo Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida (EUA), pioneiro na pesquisa colaborativa com indígenas na Amazônia. Com o apoio do cacique de Ipatsé, Afukaká Kuikuro, Heckenberger saiu a campo inúmeras vezes com moradores da aldeia para escavar e mapear cidades antigas, muitas delas mencionadas na história oral dos kuikuros.

“Eu não descobri nada”, ele diz. “Os kuikuros me levaram a todos os sítios e me ajudaram a mapear cada um deles.”

Em 2003, em um movimento incomum para a época, o pesquisador publicou um artigo na Science em coautoria com o cacique. O estudo demonstrou que os povos do Alto Xingu, ancestrais dos kuikuros, viviam em grandes cidades-floresta entre 500 d.C. e 1770 d.C. –antes e após a chegada dos europeus às Américas. Ele estima que, em seu auge, há 800 anos, essas cidades eram habitadas por no mínimo 50 mil pessoas.

De forma semelhante às aldeias atuais, essas cidades tinham ocas de madeira dispostas ao redor de praças circulares, mas eram mais de dez vezes maiores. A madeira não resistiu ao tempo, mas as marcas deixadas pela ocupação ainda são visíveis no solo. Enormes círculos de terra batida foram, um dia, praças centrais. Valas ao redor das cidades serviam como trincheiras defensivas, e quilométricas linhas retas de terra formavam estradas interconectadas.

As descobertas ajudaram a mudar a visão que se tinha sobre a história da ocupação humana na Amazônia, diz o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional. Até então, acreditava-se que a densa floresta, com seu solo pobre em nutrientes, não era capaz de abrigar sociedades sedentárias, grandes e complexas, mas apenas pequenos grupos nômades.

Para o cacique Afukaká Kuikuro, a pesquisa, que já gerou meia dúzia de artigos em coautoria com Kuikuro, tem sido importante para reconhecer a longa história de seu povo. “A pesquisa fez com que os brancos acreditassem em nós”, ele conta. “Mostrou ao mundo, em uma linguagem que os brancos entendem, que estamos aqui neste território há muito tempo.”



Uma arqueologia pura não faz o menor sentido. Não estamos aqui apenas para cavar buracos e aprender história

Em 2019, prestes a se aposentar, Heckenberger passou o bastão para Lima, que tem aprofundado a pesquisa e os laços com a comunidade. Usando o Lidar, os pesquisadores têm revelado detalhes que passaram imperceptíveis no trabalho de campo, como estradas e praças menos evidentes e até sinais de barragens construídas pelos antigos nos rios da região.

A decisão sobre o que deve ser mapeado, no entanto, é dos Kuikuro. “Decidimos juntos onde procurar e o que mapear”, garante Lima. “Nosso objetivo é compartilhar essas tecnologias e dar a eles o controle sobre elas.”

Todos os dados da colaboração são armazenados em um portal online hospedado pelo Museu Goeldi e gerido pela Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu. O acesso a qualquer dado depende da permissão indígena.

Para os kuikuros, esse controle é essencial. Daniel Kalutata Kuikuro, neto do cacique Afukaká e presidente da associação, afirma que é preciso decidir quais áreas estudar e quais informações podem ser públicas. Ele teme que a falta de controle possa levar à destruição do seu patrimônio cultural, como ocorreu em 2018, quando gravuras centenárias em uma caverna considerada sagrada pelo seu povo foram destruídas por criminosos não identificados.

Para Lima, seu compromisso é, acima de tudo, social. Ela espera que a descoberta de novos sítios arqueológicos ajude na manutenção da floresta e do modo de vida dos indígenas. Isso porque, segundo a legislação brasileira, sítios arqueológicos são protegidos pela União. Além disso, ela diz acreditar que novas evidências da presença milenar indígena possam ajudar na luta pela garantia e expansão de seus territórios.



Precisamos de treinamento de verdade para que, um dia, não sejamos apenas assistentes, mas sim líderes da pesquisa

“Uma arqueologia pura não faz o menor sentido”, diz Lima. “Não estamos aqui apenas para cavar buracos e aprender história.”

Após anos de colaboração, os próprios kuikuros veem a arqueologia como uma ferramenta política. “É uma arma para nós”, diz Kumessi Waurá Kuikuro, técnico de enfermagem que participou de escavações em 2018. “Se tentarem invadir nossas terras ou nos prejudicar, podemos mostrar que estamos aqui há séculos e que este lugar nos pertence.”

Inspirados pela parceria, cada vez mais eles têm buscado formação universitária. Mas Mutuá Mehinaku, um dos primeiros da aldeia a concluir um mestrado, quer mais. Ele deseja ver os indígenas tomando as rédeas. “Precisamos de treinamento de verdade para que, um dia, não sejamos apenas assistentes, mas sim líderes da pesquisa”, ele diz.

O caminho é árduo. As universidades mais próximas ficam a centenas de quilômetros, e matricular-se implica deixar o modo de vida comunitário da aldeia e conseguir recursos para se manter na cidade. Mas, ao final da expedição, Lima e sua equipe trazem boas notícias.

Eles conseguiram bolsas para que os kuikuros participem de pesquisas e busquem diplomas universitários. Viola, o piloto de drones, é um dos contemplados. Ele vai participar de um curso preparatório para ingressar em um bacharelado em arqueologia indígena, que será lançado no ano que vem pela Universidade de Brasília.

“De pouquinho em pouquinho”, diz Viola, com um sorriso tímido, quem sabe um dia ele não vai ser um líder de pesquisa.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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