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8 de fevereiro de 2026

Investimento em pinturas brasileiras rende menos que IPCA – 08/02/2026 – Economia

Investimento em pinturas brasileiras rende menos que IPCA – 08/02/2026 – Economia

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Entre os anos de 2012 e 2022, investir em pinturas de artistas brasileiros rendeu menos do que aplicar na Bolsa ou no CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e perdeu para a inflação, aponta estudo apresentado no Congresso da Anpec (Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia) em dezembro de 2025.

A pesquisa é de autoria de Thais Mesquita, da Ence (Escola Nacional de Ciências Estatísticas), e Luiz Andrés Paixão, servidor do IBGE. O levantamento não tem relação com o instituto e fez parte de uma trabalho acadêmico realizado na Ence.

Paixão especializou-se na análise de preços hedônicos, um modelo para calcular o peso relativo de cada característica de um bem no valor de mercado. É o caso de residências: o preço final é determinado por localização, metragem, número de quartos etc.

A técnica de preços hedônicos é muito usada para avaliar valores de itens que são ativos financeiros e também bens de consumo.

As pinturas têm todas essas características. O valor de mercado é determinado por dados como a técnica empregada pelo artista, a dimensão do quadro, o fato de ser autenticado ou não, se o pintor está vivo ou morto, quem é o autor e também a idade da tela (quanto mais velha, mais cara).

Com uma regressão econométrica, é possível verificar qual é o efeito de cada um desses itens no preço do quadro. Os coeficientes da variável tempo permitem medir a taxa interna de retorno.

Os autores utilizaram dados da Bolsa de Arte (uma casa de leilões) entre 2012 e 2022. Foram identificadas 2.215 obras transacionadas, mas depois retiraram artistas que tiveram menos de 20 obras vendidas ou aqueles cuja soma não chegou a R$ 2 milhões. A amostra final foi de 1.073 observações.

A valorização média anual das pinturas no mercado brasileiro entre 2012 e 2022 foi de 5,5%, menos do que o Ibovespa (6,5%) e a taxa CDI (7%). Até a inflação média anual do período, medida pelo IPCA, foi de 6,0%.

O estudo pondera que a análise não incorpora o retorno de bem-estar trazido pela posse de uma determinada obra de arte.

Em entrevista à Folha, Paixão faz uma ressalva: trata-se de uma média do período.

Um dos problemas para estudar a precificação são os “outliers”, as obras com valores muito discrepantes que podem distorcer as médias. O pesquisador fez os cálculos com as medianas, as observações que dividem as amostras ao meio. Ou seja, uma tela que se valorizou astronomicamente não influi nos coeficientes estimados.

O resultado que encontrou, afirma, está em linha com estudos sobre o tema. Paixão cita a pesquisa de William Baumol, que tem um paper de 1986 chamado “Unnatural Value: Or Art Investment as Floating Crap Game” (em tradução livre, valor não natural, ou investimento em arte como um jogo de azar).

Nesse texto, Baumol afirma que os preços desse mercado flutuam de forma errática, e as oscilações imprevisíveis fazem com que a taxa de retorno real fique muito próxima de zero, na média.

RAYMUNDO COLARES

O pesquisador Luiz Paixão brinca que, quando se fala sobre o preço do imóvel, os principais fatores de valorização são “a localização, a localização, a localização”. Em outras palavras, os demais determinantes têm influência menor.

No caso de obras de arte, diz, é “o artista, o artista, o artista”. A decomposição dos preços das pinturas pelo peso relativo de cada característica da tela permite também estimar qual é o efeito do artista no preço.

Com base nisso, o pesquisador criou um índice para artistas brasileiros. Ele faz outra observação: artistas consagradas e muito valorizadas no mercado internacional, como Tarsila do Amaral e Lygia Clark, não entraram no índice devido ao número pequeno de telas negociadas no mercado nacional. Isso não significa que essas artistas não sejam valorizadas, pelo contrário, o mercado para elas é muito pujante, porém fora do Brasil.

Tirando esses nomes, o artista com o maior índice de valorização foi Raymundo Colares. Um quadro dele vale 30 vezes mais do que aqueles que menos aumentam o valor monetário da pintura.

Colares cresceu em Montes Claros, em Minas Gerais, e estudou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Segundo a curadora Ligia Canongia, ele foi um dos pilares dos primórdios da arte contemporânea brasileira, e a obra dele tornou-se referência para “a compreensão de um novo espaço plástico no Brasil, informado, simultaneamente, pelas vanguardas construtivas e pela pop art internacional”.

Nas décadas de 1960 e 1970, seu trabalho era um cruzamento entre estruturas geométricas (aos moldes do construtivismo) e a iconografia urbana e da figuração pop.

“Com foco em questões de movimento e velocidade, vertidas ao campo pictórico pela fragmentação de planos multidirecionais e pela figura do ônibus, ícone e síntese de sua obra e do dinamismo nas grandes metrópoles, Colares propunha reconstruir esses fragmentos de forma pulsante e errática, trazendo à luz uma das questões-chave de sua trajetória, em última instância, a ideia de tempo”, diz ela.

Colares morreu em 1986, em um incêndio, aos 42 anos.



Fonte.:Folha de S.Paulo

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