
Crédito, Reuters
- Author, Jonathan Beale
- Role, Repórter de defesa, BBC News
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Desde então, houve um deslocamento lento, mas constante e significativo de forças militares americanas para a região.
Os Estados Unidos são a força militar mais poderosa do mundo. O país demonstrou que pode atacar o Irã em junho do ano passado, quando a operação Martelo da Meia-Noite atingiu as instalações nucleares do país.
O ataque envolveu mais de 100 aeronaves. Jatos furtivos B2 voaram desde os Estados Unidos com suas bombas de precisão antibunker. Tudo sem uma única perda.
A mais recente postagem de Trump sobre o tema nas redes sociais indica que a resposta talvez seja sim. Ele alerta o Irã que, a menos que o país chegue a um acordo para limitar seu programa nuclear, “o próximo ataque será muito pior”.
O presidente americano declarou que uma “armada de grandes proporções” está se dirigindo ao Irã, “pronta, disposta e capaz de cumprir rapidamente sua missão, com velocidade e violência, se for necessário”. Foi o que aconteceu na Venezuela, quando os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro.
Trump convidou o Irã para a mesa de negociações, mas destacou que o tempo estaria “acabando”.
Os Estados Unidos já detêm presença militar significativa no Oriente Médio. São até 50 mil soldados destacados na região.
Cerca de 10 mil deles estão na Base Aérea de al-Udeid, no Catar — a maior unidade americana no Oriente Médio. Mas os Estados Unidos também possuem bases na Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Bahrein.
Nas últimas semanas, relatórios de inteligência disponíveis ao público anunciaram a chegada de grandes números de aviões militares americanos à região.
Fotos da Base Aérea de al-Udeid tiradas no domingo (25/1) mostram diversas estruturas novas surgindo em um local na sua periferia.
Após os ataques americanos a complexos nucleares iranianos, no ano passado, Teerã lançou mísseis sobre al-Udeid. Agora, estão aparentemente sendo instaladas novas defesas antiaéreas na base, segundo especialistas que observaram as imagens de satélite.

Crédito, TSGT Scott Reed, USAF
O Pentágono não divulgou detalhes dessa movimentação, mas a BBC Verify (o serviço de verificação de dados da BBC) conseguiu rastrear a chegada de jatos de combate F-15, aviões de reabastecimento e aeronaves de transporte.
Também se observou a operação de aviões espiões e drones perto do espaço aéreo iraniano, no portal de rastreamento FlightRadar24.
Acredita-se que algumas dessas aeronaves de transporte tenham carregado novos sistemas de defesa antiaérea.
Isso pode indicar que os Estados Unidos estão se preparando para defender a si e aos seus aliados do Golfo Pérsico contra possíveis ações retaliatórias, caso o presidente Trump ordene um ataque ao Irã.
O Reino Unido também enviou um esquadrão de jatos Typhoon à região, “para aumentar a segurança regional”.
A Força Aérea Americana anunciou que está realizando um grande exercício na região, a Operação Espartano Ágil.
Seu objetivo é “demonstrar a capacidade de destacar, dispersar e sustentar poder de combate aéreo em toda a área de responsabilidade do Comando Central dos Estados Unidos”.
Stefan Watkins acompanha os navios e publica suas descobertas nas redes sociais.
Recentemente, ele rastreou a chegada de uma série de aeronaves “espiãs” e de alerta precoce dos Estados Unidos, que ficaram em evidência durante a Operação Martelo da Meia-Noite. Elas incluem os modelos RC-135, E-11A BACN e E-3G Sentry.
Watkins afirma que esta movimentação “pode indicar” se os ataques “virão mais cedo, não mais tarde”.

Crédito, Dan Kitwood via Getty Images
Também é significativa a chegada à região de um grupo de ataque em um porta-aviões americano.
O USS Abraham Lincoln estava na região do Indo-Pacífico, quando recebeu ordens para dar meia-volta e se dirigir ao Golfo Pérsico.
O porta-aviões não transmitiu publicamente sua localização por mais de uma semana. Mas, na segunda-feira (26/1), uma aeronave Osprey foi observada no FlightRadar24 aterrissando em Omã, após sair de um local perto do litoral do Golfo.
Esta descoberta indica que o Abraham Lincoln pode estar em operação em algum ponto perto de Omã.
O grupo de ataque é um dos símbolos mais fortes do poderio militar americano. Ele inclui uma força aérea de cerca de 70 aeronaves.
Os aviões do USS Abraham Lincoln incluem jatos furtivos F35 de última geração, capazes de se esquivar dos radares inimigos.
O grupo de ataque inclui ainda três destroieres carregados com mísseis Tomahawk e normalmente é acompanhado por um submarino nuclear, que dispara a mesma arma.
Tudo isso, além dos dois destroieres americanos que já estão na região.
Nas palavras do presidente Trump, “temos uma grande frota indo para aquela região e vamos ver o que acontece”.
Possíveis alvos
O diretor de ciências militares do Rusi (Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança, na sigla em inglês), Matthew Savill, afirma que, com sua postura militar atual na região, os Estados Unidos “provavelmente poderão ir a quase qualquer lugar do Irã e atingir quase qualquer alvo, sem falar das instalações mais profundas no subsolo” — o que, provavelmente, exigiria bombardeiros B2.
Mas qual pode ser o alvo americano, se o presidente der a ordem de atacar?
Savill trabalhou com política iraniana no governo britânico e explica que os Estados Unidos têm diversas opções.
A primeira delas poderá ser um ataque às instalações militares do Irã, “como as ameaças representadas pelos seus mísseis balísticos ou baterias de mísseis costeiros”. Isso serviria, no mínimo, para dificultar uma eventual retaliação, como vem ameaçando o regime iraniano.
O Irã detém ainda quantidades significativas de mísseis balísticos de curto alcance e de drones de longo alcance, o que preocupa alguns dos aliados americanos no Golfo. Vários deles já deixaram claro que não irão apoiar novos ataques dos Estados Unidos.
Outra opção seria atingir o próprio regime.
Para Savill, “eles poderiam ir atrás dos centros de poder militar, incluindo a Guarda Revolucionária Iraniana e, talvez, as milícias que estão combatendo os manifestantes”.
Mas tentar atingir os líderes iranianos pode ser mais difícil e perigoso.
Israel, de fato, tentou atacar autoridades iranianas durante sua guerra de 12 dias no ano passado.
O país chegou a rastrear guarda-costas iranianos para descobrir sua localização. Mas o Irã provavelmente terá aumentado sua segurança e os dispersado desde então.
Savill afirma que os Estados Unidos “provavelmente conseguiriam encontrar e matar autoridades importantes, mas não está claro qual seria o efeito cumulativo”.
“Podemos estar testemunhando os lances finais do atual regime, mas o problema é que o desfecho poderia levar meses ou até anos”, explica ele.
Donald Trump já demonstrou que está disposto a usar seu poderio militar, mas ele deixou claro no passado que não deseja se envolver em um conflito lento e prolongado. Até aqui, suas intervenções militares foram curtas, incisivas e limitadas.
Trump também não descartou uma solução diplomática, o que necessitaria que o Irã concordasse em limitar seu programa nuclear.
Para Savill, o presidente americano, agora, precisa “ponderar entre o desejo de ser considerado decisivo e as possibilidades de, realmente, causar um impacto crucial.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


