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- Author, Cristina J. Orgaz
- Role, BBC News Mundo
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O Exército de Israel lançou no sábado (28/2) uma série de ataques contra o Irã, com a participação dos Estados Unidos. Nestes ataques, morreu o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026).
A notícia foi divulgada primeiramente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e, depois, pelo governo do Irã.
Trump declarou que “esta é a maior oportunidade que tem o povo iraniano de recuperar seu país”.
A mensagem do presidente americano, publicada na rede Truth Social, durou oito minutos. Ele afirmou que, após os ataques, os iranianos devem buscar a mudança do regime.
Estes acontecimentos dramáticos ocorrem semanas depois dos protestos em massa verificados em diferentes cidades do Irã, clamando exatamente pela mudança do regime do país.
Estas manifestações foram violentamente reprimidas pelo governo de Teerã. Calcula-se que cerca de 3 mil pessoas tenham morrido nas mãos do governo iraniano.
O Irã tem mais de 90 milhões de habitantes. E, desde 1979, o país é uma teocracia — um sistema que reúne a religião e a política.
A autoridade máxima da nação não é o presidente, mas o líder supremo, o aiatolá. E o regime controla rigorosamente as atividades políticas, os meios de comunicação e as liberdades civis.
Ainda assim, a oposição ao regime nunca desapareceu, embora esteja muito fragmentada, segundo os especialistas. Grande parte está no exílio, mas ainda existem poderosas vozes oposicionistas vivendo dentro do país.
“Os protestos não tinham uma liderança reconhecível. Os principais dissidentes dentro do Irã foram amplamente perseguidos, aprisionados e silenciados”, declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o pesquisador Juan Moscoso del Prado, do Centro de Economia e Geopolítica Global da Esade (EsadeGeo), uma instituição universitária com sede na Espanha.
“E, embora existam outros grupos minoritários e controversos no exterior, nenhum deles conta com legitimidade doméstica”, prossegue ele. “Por isso, não há forças alternativas claras de governo.”

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“O Irã é um país complexo e, embora seu regime atravesse um momento de fraqueza interna e externa, é um sistema com bases sólidas e ainda conserva ampla base social, depois de ter esmagado e aprisionado toda a oposição e a dissidência interna”, explicam os analistas Haizam Amirah Fernández e Rosa Meneses, do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos (Cearc), com sede em Madri, na Espanha.
Ambos recordam que, durante as mobilizações, não houve sinais de fraturas internas, exceto por uma tímida convocação do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, para que se “ouvisse os manifestantes”.
“Isso significa que a liderança política e o poderio militar continuam se entendendo e se apoiando um ao outro”, prosseguem eles.
“Sem figuras dentro do país que possam liderar a mudança, os ativistas em prol dos direitos humanos e os líderes políticos no exílio estão dando voz, no exterior, a centenas de milhares de iranianos que pedem uma reviravolta nas ruas.”
Mas os ataques de sábado (28/2) colocam esta unidade à prova. E estes são os quatro principais grupos de oposição iranianos:
Reza Pahlavi e os monarquistas
Em 2018, um grupo de 40 ativistas políticos iranianos radicados fora do país se associou ao ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi, fundando um grupo de oposição que apoiava a política de “máxima pressão” do governo Trump em relação ao Irã.
Durante os protestos, foram ouvidos mais do que nunca os cânticos exigindo o retorno de Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã. Ele se encontra exilado nos Estados Unidos.
“Eles pedem o seu retorno, para que reúna a oposição e lidere a transição para um Estado secular”, explica Ali Dashti da BBC News Persa.
“Agora, com as manifestações sendo produzidas por toda a nação, ele voltou a se apresentar como alternativa, no caso de mudança de regime.”
Em 2022, Reza Pahlavi apresentou um plano de 100 dias para um governo interino no país.
“Não se trata de restaurar o passado”, declarou ele aos jornalistas. “Trata-se de garantir um futuro democrático para todos os iranianos.”
Reza Pahlavi não vive no país há quase meio século. Nascido em Teerã, ele é o filho mais velho do último líder da dinastia Pahlavi, o xá Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980).
O xá governou o país com apoio dos Estados entre 1941 e 1979, quando foi derrubado pela Revolução Islâmica.
Desde então, o herdeiro se transformou em um dos mais reconhecidos críticos do aiatolá Khamenei e promove a transição democrática do seu país.
MKO: os mujahedins do povo iraniano
Acredita-se que o MKO seja um dos maiores grupos da oposição iraniana no exílio.
Eles têm dinheiro e influência, “mas a maioria das pessoas dentro do Irã os odeia”, segundo Dashti.
“Existem provas de que seus membros participaram da guerra Irã-Iraque (1980-1988), mas pelo lado dos iraquianos. Fala-se que eles ‘têm sangue nas suas mãos’, mas muitos os reconhecem como o mais forte grupo opositor iraniano”, explica o jornalista da BBC News Persa.
Pouco depois da Revolução de 1979, o grupo se voltou contra o governo, que proibiu a participação nas eleições do seu líder, Massoud Rajavi, e começou uma luta armada para derrubar o regime.
Rajavi não é visto em público há anos, gerando rumores sobre sua morte. Seus partidários se referem à sua esposa, Maryam Rajavi, como “presidente do Irã no exílio”.

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“É uma oposição muito poderosa, devido aos seus contatos com figuras de alto perfil do governo dos Estados Unidos e de outros países, como a Alemanha, o Reino Unido e a Espanha”, afirma Dahsti.
“De tempos em tempos, eles realizam conferências, à qual comparecem políticos ativos e ou que já tiveram muita relevância.”

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Os reformistas
Este grupo é formado por ex-funcionários, clérigos críticos e políticos que pedem mudanças graduais do lado de dentro, mas sua margem de manobra é muito limitada.
Com o tempo, o grupo sofreu uma grande ruptura entre os que acreditam que reformar o Irã não será suficiente e querem mudar o país por completo e os que pensam que o país só precisa de algumas reformas.
Entre os que endureceram sua visão e defendem um Estado secular e democrático, que separe as questões religiosas das civis, estão seus ex-líderes.
Um deles é o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Mousavi, que se encontra em prisão domiciliar desde fevereiro de 2011.
O ex-presidente do Parlamento iraniano e ex-candidato a presidência Mehdi Karroubi, muçulmano erudito, também faz parte deste grupo. Como Mousavi, ele foi colocado em prisão domiciliar em 2011 e libertado em 2025.

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Também se destaca neste grupo Mostafa Tajzadeh, que foi vice-ministro do Interior do governo do ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005). Suas principais críticas são dirigidas ao aiatolá Khamenei.
No outro lado do espectro, surgem figuras muito midiáticas do país, como o acadêmico Mohammad Fazeli, os ex-presidentes Hassan Rouhani (2013-2021) e Mohammad Khatami e o jornalista Abbas Abdi.
Movimento ‘Mulher, Vida e Liberdade’
A inflação do Irã atinge 50% e a moeda local, o rial, já sofreu desvalorização de 68% no mercado paralelo este ano.
Os cortes de eletricidade, a falta de água e a perda de poder aquisitivo se estenderam a todas as classes sociais.
Estes fatores geraram grande descontentamento entre os cidadãos iranianos, que protagonizaram protestos cíclicos nos últimos 20 anos.
Em 2009, a sociedade saiu às ruas com a Revolução Verde, que foi violentamente reprimida. O mesmo ocorreu em 2011 e 2019, com igual reação por parte do governo.
“A mão de ferro brutal voltou a se fechar sobre os ativistas, na sua maioria jovens de uma geração que não se identificava com os valores e as imposições ideológicas da República Islâmica”, recordam os analistas do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos (CEAC).

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Foi naquele momento que surgiu o movimento “Mulher, Vida e Liberdade”, reunindo vários grupos pequenos e distintos que têm em comum ideias de esquerda.
O movimento surgiu de forma espontânea, descentralizada e muito forte entre mulheres, jovens e minorias.
“Aqui encontramos, por exemplo as associações feministas, os jovens, os partidos das etnias curdas e os baluch, uma das minorias étnicas e religiosas mais importantes do Irã”, explica Dashi. “Estes dois últimos grupos buscam maior autonomia, não necessariamente a secessão.
Moscoso del Prado destacou que os líderes das manifestações no interior do país eram “uma geração jovem, de menos de 30 anos, que representam a metade da população iraniana, muitos deles mulheres e com nível superior.”
“São a mesma geração que liderou os protestos pelos direitos das mulheres em 2022”, explica ele. “Os dois episódios tiveram forte repercussão e apoio entre a diáspora iraniana que mora nas capitais europeias e nos Estados Unidos.”
Agora, a questão é qual será o papel da fragmentada oposição iraniana com os novos ataques americanos e israelenses ao Irã.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


