
Crédito, Getty Images
Tempo de leitura: 6 min
Os milhões de novos documentos sobre o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, divulgados na última sexta-feira, 30/01, dão indícios sobre uma possível atuação e interesses que o empresário tinha no Brasil.
Os documentos citam depoimento que afirma que ele teria uma conexão no Brasil com uma “agente”, que conseguia garotas menores de idade quando ele estava no país a trabalho.
Mencionam também que ao menos quatro garotas brasileiras, inclusive adolescentes, teriam sido levadas para ele em uma festa, em uma de suas casas, nos Estados Unidos — a BBC News Brasil mostrou, em dezembro, que uma das vítimas de Epstein disse que ao menos 50 brasileiras estiveram em sua mansão.
Há ainda conversas em emails sobre uma ideia de criar um concurso de beleza para atrair garotas jovens no Brasil e o interesse em adquirir uma revista de moda para atrair modelos.
Ao todo, a BBC News Brasil identificou cerca de 4 mil menções ao país em documentos até o momento, incluindo trocas de emails e mensagens de Epstein com amigos e auxiliares, identificadores em fotos e notícias sobre o país.
Ser mencionado ou ter sua imagem incluída nos arquivos divulgados pelo governo americano não implica, necessariamente, um delito.
A ‘agente mãe’ no Brasil

Crédito, US Department of Justice
Um depoimento feito à Justiça da Flórida em junho de 2010, que está entre os documentos divulgados pelo governo americano, afirma que Jeffrey Epstein fazia viagens ao Brasil para falar com clientes e que, quando estava no país, possuía contato com uma mulher que lhe fornecia garotas para prostituição, inclusive menores de idade.
O nome da pessoa que traz as informações é tarjado, mas ela diz, ao longo do depoimento, que trabalhou para Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e conhecido parceiro de Epstein.
Brunel foi acusado de ter traficado mulheres e foi encontrado morto na prisão em Paris, na França, em 2022. Estava detido desde o início de uma investigação formal, após ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens com idades entre 15 e 18 anos na França. Ele negava as acusações.
A ex-funcionária da agência de modelos alegou no depoimento que a companhia não dava lucro, que era sustentada com apoio de Epstein e que acreditava que o financista só tinha interesse em se envolver com a empresa por causa das meninas, inclusive menores.
No depoimento ela cita que quatro garotas do Brasil foram levadas por Brunel à casa de Epstein para uma festa e que ao menos duas delas eram menores de idade, entre 13 e 15 anos.
Segundo esse depoimento, era Epstein quem pagava pelos vistos para que as meninas pudessem entrar nos EUA.
As garotas teriam sido apresentadas a Brunel por uma “amiga muito boa” dele no Brasil, chamada de “agente mãe” (mother agent, no original). O nome dela não é citado.
O documento com o relato também cita que Brunel tinha contato com uma mulher que conseguia prostitutas para ele e Epstein no Brasil “quando precisasse”.
A testemunha diz ainda que seria difícil conseguir informações no Brasil e sugere que poderia haver pagamentos por silêncio.
“Cinco mil dólares no Brasil é muito dinheiro. Dá pra comprar uma casa.”
E continua, em outro trecho: “Jeffrey Epstein tem todo o dinheiro que tem, ele podia calar todo mundo”.
As visitas de Jean-Luc Brunel ao Brasil são conhecidas. Diversas reportagens publicadas nos últimos meses, inclusive pela BBC News Brasil, mostram que ele esteve no país em busca de modelos.

Crédito, US Department of State
Discussão em e-mails sobre criar um concurso de modelos ‘caipiras’ no Brasil para atrair garotas jovens

Crédito, US Department of State
Em outra troca de e-mail, em 2016, Epstein discute com outra pessoa a ideia de comprar uma agência de modelos no Brasil.
“Não tenho certeza se isso seria viável sem alguém lá para gerenciar que você possa confiar 100%, mas estou passando, caso você esteja interessado”, diz o interlocutor.
Em outra mensagem, ele afirma: “Não tenho certeza se você quer ser dono de 100% de qualquer agência, a não ser que você encontre algum outro incentivo para manter as principais pessoas que estão lá gerenciando o negócio. Estou presumindo que você está mais interessado no acesso às…[emoji de uma garota loira]“
O remetente cita ainda a possibilidade de se fazer uma competição para modelos no Brasil.
“Isso envolveria pagar ao organizador e, então, ele encontraria patrocinadores e eles vasculhariam o país em busca de modelos em potencial. Você estaria interessado nisso? Dessa forma, você conseguiria garotas mais jovens e menos cansadas da indústria da moda. Rostos novos, basicamente. Então, essa é outra opção.”
O concurso envolveria milhares de garotas e um investimento de US$ 500 mil.
“Eles basicamente vasculham o país e muitas garotas aparecem. Foi assim que eles descobriram a maioria das principais modelos brasileiras que fizeram sucesso em Nova York.”
Segundo esta mensagem enviada a Epstein, “isso implicaria ter acesso a todas as garotas, com as quais você poderia decidir o que fazer.”
O interlocutor afirma então: “Você poderia basicamente levar essas garotas para qualquer lugar nos EUA (há uma agência brasileira que cuida dos vistos para os EUA), ou para Paris ou o Caribe.”
Ao voltar a falar sobre a opção de adquirir uma dessas agências, ele pondera:
“Seria um bom investimento se você quisesse construir uma marca já estabelecida e, é claro, muitas oportunidades de conhecer modelos. Mas acho que não é o mesmo acesso direto que o concurso, onde as garotas são na maioria caipiras e não modelos experientes.”
O interesse em comprar uma revista de moda no Brasil para atrair mulheres
Outra conversa que se estendeu por uma série de e-mails, em agosto de 2016, tratava do interesse de um parceiro de Epstein em comprar uma revista de moda com ele no Brasil.
“Uma revista de moda brasileira está à venda. Se conseguirmos comprá-la por um preço baixo, você gostaria de comprá-la conosco? Todos os castings podem ser feitos em Nova York, então você poderia facilmente ter de 20 a 30 garotas tentando a capa todos os meses. É só uma ideia…”
A ideia, segundo as conversas, seria usar a publicação para atrair modelos.
Epstein demonstra interesse inicial e o homem vai buscar mais informações. A conversa mostra que ele teria pensado em fazer uma oferta de US$ 200 mil por 25% das ações da revista.
A negociação teria esfriado em dezembro, quando surge a dúvida sobre se o negócio daria prejuízo. “Fique longe”, sugeriu Epstein, segundo as mensagens.
“Grrrrr… pense em todas as garotas que eu teria… ok, vou deixar passar… talvez só compre o Brasil por algumas centenas de milhares; isso garantirá um fluxo constante de mulheres.” (o termo exato usado é mais explícito).
Em outra conversa, em 2017, esse mesmo homem diz a Epstein que conseguiu um acordo melhor: ao invés de comprar a revista, ele teria supostamente pago um editor da revista (“I have the local Brazilian publisher in my pocket”).
“Então, sempre que quero que eles fotografem uma garota, eu simplesmente dou a ele alguns milhares. É muito mais barato assim… não ia dar lucro mesmo”, disse, segundo as mensagens que aparecem nos arquivos divulgados pelo governo americano.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


