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21 de fevereiro de 2026

Jogos de Inverno: Itália usa queijo para atrair turistas – 20/02/2026 – Comida

Jogos de Inverno: Itália usa queijo para atrair turistas – 20/02/2026 – Comida

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Se a culinária italiana tivesse um atleta nos Jogos Olímpicos deste ano, seria o Grana Padano. O irmão mais velho, mais barato e com textura quebradiça do Parmigiano-Reggiano parece estar em todo lugar.

Em outdoors em Milão, uma fatia de queijo Grana aparece ao lado de uma esquiadora alpina. Anúncios no Facebook mostram a estrela italiana do esqui, Sofia Goggia, dando uma corridinha seguida de uma mordida generosa. Nas vilas olímpicas, flocos de Grana ralado coroam pratos de massa e risoto, barrinhas com o logo olímpico são distribuídas como repositor de energia e o lanche da tarde oferece muffins ricos em proteína com queijo.

A ideia, segundo Mirella Parmeggiani, gerente de marketing e comunicação na Itália do consórcio que controla a produção do queijo, é torná-lo “um aliado na dieta saudável dos entusiastas do esporte”.

O consórcio está investindo cerca de R$ 33 milhões nos Jogos, o que inclui a distribuição gratuita de queijo nas instalações olímpicas. A iniciativa se baseia em anos de investimento dos produtores do Grana Padano em pesquisa científica para destacar atributos como o alto teor de proteína, que, segundo eles, fazem do queijo um lanche saudável.

O retorno dos Jogos Olímpicos à Itália, após 20 anos, ofereceu uma oportunidade de ouro para promover a gastronomia e os vinhos italianos no cenário mundial. A Itália alcançou um recorde de US$ 70 bilhões em exportações de alimentos em 2025, em grande parte graças à valorização da qualidade e da reputação de produtos como o gorgonzola e o prosecco (que também é um grande patrocinador olímpico).

“O Estado é perspicaz em aproveitar a atenção internacional, e a Itália usa a comida como soft power”, disse Katie Parla, autora e estudiosa da culinária italiana.

Muitos dos melhores produtos alimentícios da Itália são produzidos sob o sistema de “denominação de origem protegida” da União Europeia, que estabelece padrões rigorosos sobre como e onde as especialidades regionais podem ser produzidas. Para vender o Prosciutto di Parma, por exemplo, o presunto deve ser proveniente de porcos criados em uma das 11 regiões protegidas e alimentados com uma dieta especial. A carne deve ser maturada por pelo menos 14 meses na cidade de Parma.

Mais de 850 dos produtos alimentícios e vinhos mais notáveis da Itália fazem parte do sistema. Os produtores pagam pela denominação. Diversos órgãos governamentais a regulamentam, concedem empréstimos aos agricultores e contribuem para o marketing. O governo também combate fraudes e falsificações. É por isso que a Kraft não pode vender seus potes verdes de “100% queijo parmesão ralado” na Itália.

O Grana Padano, cuja produção começou no século 12 por monges, é um queijo predominante nos lares italianos e representa mais de 40% de todos os queijos duros vendidos no varejo. O queijo deve ser maturado por pelo menos nove meses, e o leite deve vir de uma das cinco regiões do norte da Itália, incluindo as que sediam os Jogos.

Os Jogos de Milão-Cortina não seriam a primeira vez que a gastronomia italiana colheria benefícios econômicos de uma associação com as Olimpíadas. Após os Jogos de Inverno de 2006 em Turim, na Itália, a região do Piemonte, que circunda os Jogos, experimentou um aumento no reconhecimento global por seu vinho Barolo e pela gianduia, o chocolate com avelã que inspirou a Nutella.

O Parmigiano-Reggiano —que só pode ser produzido em partes de duas regiões e deve ser maturado por pelo menos 12 meses— foi o primeiro na Itália a se posicionar como o queijo dos campeões olímpicos, quando seu consórcio patrocinou a ginasta italiana Giorgia Villa em 2021. Uma sessão de fotos a mostrou interagindo com várias rodas de queijo gigantes, fazendo espacates em cima de quatro delas.

Villa lesionou o tornozelo e perdeu os Jogos Olímpicos de Verão daquele ano em Tóquio, e a Parmigiano-Reggiano não renovou o patrocínio. Mas em 2024, nos Jogos de Paris, ela conquistou uma medalha de prata, e imagens de sua ginástica com a roda de queijo viralizaram.

A Big Parma expandiu seus horizontes para outros esportes. Em 2025, tornou-se parceira do New York Jets, o que significa que os torcedores podem desfrutar de uma “câmera do queijo” nos jogos em casa e de comidas no estádio feitas com Parmigiano-Reggiano. Seu consórcio patrocina torneios de tênis profissional e, em novembro, contratou a United Talent Agency para ser sua agente em Hollywood.

Grana, por sua vez, apostou nos Jogos —não que seja uma competição. Mas alguns italianos temem que o tamanho dos grandes queijos e a ênfase neles estejam marginalizando a diversidade regional.

Os produtores de queijo do vale da Valtellina, onde as cidades de Bormio e Livigno sediam as competições de esqui alpino e snowboard dos Jogos, temiam ser proibidos de comercializar seus queijos Bitto e Valtellina Casera para os espectadores em qualquer caráter oficial.

Para grande alívio deles, o Grana Padano não atrapalhou. Os visitantes de Bormio podem passear por um festival gastronômico patrocinado e degustar tanto o Grana Padano, que produz quase 6 milhões de peças por ano, quanto o raro Storico Ribelle, cujos 12 produtores no Vale do Bitto às vezes fabricam menos de 3.000 peças anualmente.

“O Grana Padano e o Parmigiano-Reggiano são tesouros nacionais em termos de queijos, mas essas grandes empresas podem ofuscar um pouco a grande variedade de queijos locais maravilhosos que temos na Itália”, disse Eugenio Signoroni, jornalista gastronômico italiano.

No entanto, o que é bom para os grandes também pode ser bom para os pequenos, disse ele.

“O fato de terem se tornado concorrentes em um nível que lhes permite competir com a Coca-Cola e outras marcas desse porte em um evento internacional como as Olimpíadas”, disse ele, “é ótimo para toda a Itália”.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.



Fonte.:Folha de São Paulo

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